{"id":3500,"date":"2023-12-21T09:10:47","date_gmt":"2023-12-21T12:10:47","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-descoberta-do-nautico-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:47","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:47","slug":"a-descoberta-do-nautico-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-descoberta-do-nautico-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A DESCOBERTA DO N\u00c1UTICO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Houve um tempo em que Fortaleza n\u00e3o sabia que tinha praias. Dava as costas para a costa. Foram os clubes, especialmente o N\u00e1utico, que desvendaram o mar e viram o futuro da cidade. As fam\u00edlias tinham casinhas de \u201cveraneio\u201d onde hoje \u00e9 a Av. Beira Mar, ent\u00e3o uma ruela estreita de pedra tosca. A minha fam\u00edlia tinha uma dessas. Ficava do lado do mar, na altura da Rua Tib\u00farcio Cavalcante. Pass\u00e1vamos parte das f\u00e9rias por l\u00e1. Foi nesse tempo, final dos anos 50, que descobri o N\u00e1utico.<br \/>\nSeu nome lembra quem faz ci\u00eancia e arte na navega\u00e7\u00e3o sobre a \u00e1gua ou o marujo que l\u00ea as cartas marinhas e descobre o rumo certo de sua navega\u00e7\u00e3o. Os fundadores e gestores do N\u00e1utico nestes seus 78 anos de vida foram e s\u00e3o marujos avan\u00e7ados no tempo que constru\u00edram um clube em meio \u00e0s procelas da indiferen\u00e7a, e o fizeram em local estrat\u00e9gico, com solidez, formas arquitet\u00f4nicas diferenciadas, quadras de esportes, piscinas e um sal\u00e3o de baile que, reunidos, falam do descortino e arrojo de seus dirigentes em uma cidade que tinha, quando o descobri, apenas 370 mil habitantes, 10.000 linhas telef\u00f4nicas, ainda sem a televis\u00e3o, embora com mais jornais (Unit\u00e1rio, Correio do Cear\u00e1, O Estado, O Democrata, O Nordeste e O Povo) que hoje. Possu\u00eda 500 \u00f4nibus, pouco mais de 3.000 ve\u00edculos em circula\u00e7\u00e3o, o Cine S\u00e3o Luiz estava em constru\u00e7\u00e3o, a Universidade Federal apenas engatinhava, mas o N\u00e1utico j\u00e1 era refer\u00eancia e aprumo. Eu me orgulhava de ser s\u00f3cio juvenil com o n\u00famero 3.996, se n\u00e3o estou enganado.<br \/>\nA partir da\u00ed, por um tempo razo\u00e1vel, frequentei suas tert\u00falias e matinais, reuni\u00f5es dan\u00e7antes alegres, benfazejas e despojadas. Lembro que, j\u00e1 universit\u00e1rio, fui \u201crequisitado\u201d, junto com outros amigos, para \u201cfazer sala\u201d a um grupo de ricas mo\u00e7as paulistas que excursionavam de navio e ali iriam a uma tert\u00falia. Reza a lenda que Antenor Barros Leal Filho, colega de faculdade, teria sido perguntado: o que faz voc\u00ea? E ele teria dito: sou estudante de direito, tenho um fusca 58 \u2018guaribado\u2019 para 62 e um sal\u00e3o de barbearia no centro. Brincadeira, certamente.<br \/>\nNos anos 60 fiz parte de uma roda que se reunia no restaurante do clube, ent\u00e3o comandado prodigamente pelo liban\u00eas Kury, da qual, entre outros, eram integrantes: Danilo Marques, L\u00facio Brasileiro, Lustosa da Costa e Fernando T\u00e1vora. Convers\u00e1vamos sobre tudo e sobre nada. Gast\u00e1vamos o tempo franco da mocidade, pois a idade \u00e9 uma quest\u00e3o de conhecimento mais do que de anos, como dizia W. Somerset Maugham. Eu era o mais novo, ainda solteiro, e a\u00ed mais uma vez o NAC, de forma indireta, passou pela minha vida. Conheci \u00c2ngela, ent\u00e3o eleita Miss N\u00e1utico, dan\u00e7amos o Carnaval da Saudade de 1969 e depois casamos, sendo o casal Ary (Z\u00e9lia) Araripe, um dos padrinhos. Mas isto \u00e9 outra hist\u00f3ria.<br \/>\nA prop\u00f3sito de hist\u00f3ria, desde 1966, anualmente, no dia 16 de dezembro, n\u00f3s, os formados em direito pela UFC em 1966, somos intimados pelo St\u00eanio C. Lima e almo\u00e7amos nos sal\u00f5es do N\u00e1utico, ouvindo m\u00fasica, discursos, o imenso poema de Castro Alves, \u201cNavio Negreiro\u201d, pelo Orlando Rebou\u00e7as, e exercitando a benqueren\u00e7a que o tempo n\u00e3o consegue corroer.<br \/>\nHoje, neste 2007, vejo a a\u00e7\u00e3o vigorosa de Guedes Neto para segurar o tim\u00e3o e manter, com bin\u00f3culo no futuro, acesa a tocha que foi carregada por tantos e o faz com compet\u00eancia e dedica\u00e7\u00e3o, apesar do olhar indiferente do poder p\u00fablico que s\u00f3 v\u00ea os clubes como meros contribuintes, n\u00e3o colabora e tampouco entende que eles s\u00e3o tamb\u00e9m centros de conviv\u00eancia, formadores de esportistas e aglutinadores de uma sociedade que cresce, mas fica encurralada nas ruas pela viol\u00eancia. O N\u00e1utico e seus dirigentes s\u00e3o combatentes, n\u00e3o apenas em batalhas de confete e serpentina, mas na luta pela manuten\u00e7\u00e3o de um patrim\u00f4nio c\u00edvico de Fortaleza, agora historiado em livro pelo jornalista Rodolfo Sp\u00ednola.<br \/>\n(Rodolfo, se precisar: Jo\u00e3o Soares Neto \u00e9 da Academia Fortalezense de Letras, Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Bibli\u00f3filos e cronista semanal dos jornais Di\u00e1rio do Nordeste, O Estado e Carta Maior.).<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17\/05\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve um tempo em que Fortaleza n\u00e3o sabia que tinha praias. Dava as costas para a costa. Foram os clubes, especialmente o N\u00e1utico, que desvendaram o mar e viram o futuro da cidade. As fam\u00edlias tinham casinhas de \u201cveraneio\u201d onde hoje \u00e9 a Av. Beira Mar, ent\u00e3o uma ruela estreita de pedra tosca. A minha fam\u00edlia tinha uma dessas. Ficava do lado do mar, na altura da Rua Tib\u00farcio Cavalcante. Pass\u00e1vamos parte das f\u00e9rias por l\u00e1. Foi nesse tempo, final dos anos 50, que descobri o N\u00e1utico.<br \/>\nSeu nome lembra quem faz ci\u00eancia e arte na navega\u00e7\u00e3o sobre a \u00e1gua ou o marujo que l\u00ea as cartas marinhas e descobre o rumo certo de sua navega\u00e7\u00e3o. Os fundadores e gestores do N\u00e1utico nestes seus 78 anos de vida foram e s\u00e3o marujos avan\u00e7ados no tempo que constru\u00edram um clube em meio \u00e0s procelas da indiferen\u00e7a, e o fizeram em local estrat\u00e9gico, com solidez, formas arquitet\u00f4nicas diferenciadas, quadras de esportes, piscinas e um sal\u00e3o de baile que, reunidos, falam do descortino e arrojo de seus dirigentes em uma cidade que tinha, quando o descobri, apenas 370 mil habitantes, 10.000 linhas telef\u00f4nicas, ainda sem a televis\u00e3o, embora com mais jornais (Unit\u00e1rio, Correio do Cear\u00e1, O Estado, O Democrata, O Nordeste e O Povo) que hoje. Possu\u00eda 500 \u00f4nibus, pouco mais de 3.000 ve\u00edculos em circula\u00e7\u00e3o, o Cine S\u00e3o Luiz estava em constru\u00e7\u00e3o, a Universidade Federal apenas engatinhava, mas o N\u00e1utico j\u00e1 era refer\u00eancia e aprumo. Eu me orgulhava de ser s\u00f3cio juvenil com o n\u00famero 3.996, se n\u00e3o estou enganado.<br \/>\nA partir da\u00ed, por um tempo razo\u00e1vel, frequentei suas tert\u00falias e matinais, reuni\u00f5es dan\u00e7antes alegres, benfazejas e despojadas. Lembro que, j\u00e1 universit\u00e1rio, fui \u201crequisitado\u201d, junto com outros amigos, para \u201cfazer sala\u201d a um grupo de ricas mo\u00e7as paulistas que excursionavam de navio e ali iriam a uma tert\u00falia. Reza a lenda que Antenor Barros Leal Filho, colega de faculdade, teria sido perguntado: o que faz voc\u00ea? E ele teria dito: sou estudante de direito, tenho um fusca 58 \u2018guaribado\u2019 para 62 e um sal\u00e3o de barbearia no centro. Brincadeira, certamente.<br \/>\nNos anos 60 fiz parte de uma roda que se reunia no restaurante do clube, ent\u00e3o comandado prodigamente pelo liban\u00eas Kury, da qual, entre outros, eram integrantes: Danilo Marques, L\u00facio Brasileiro, Lustosa da Costa e Fernando T\u00e1vora. Convers\u00e1vamos sobre tudo e sobre nada. Gast\u00e1vamos o tempo franco da mocidade, pois a idade \u00e9 uma quest\u00e3o de conhecimento mais do que de anos, como dizia W. Somerset Maugham. Eu era o mais novo, ainda solteiro, e a\u00ed mais uma vez o NAC, de forma indireta, passou pela minha vida. Conheci \u00c2ngela, ent\u00e3o eleita Miss N\u00e1utico, dan\u00e7amos o Carnaval da Saudade de 1969 e depois casamos, sendo o casal Ary (Z\u00e9lia) Araripe, um dos padrinhos. Mas isto \u00e9 outra hist\u00f3ria.<br \/>\nA prop\u00f3sito de hist\u00f3ria, desde 1966, anualmente, no dia 16 de dezembro, n\u00f3s, os formados em direito pela UFC em 1966, somos intimados pelo St\u00eanio C. Lima e almo\u00e7amos nos sal\u00f5es do N\u00e1utico, ouvindo m\u00fasica, discursos, o imenso poema de Castro Alves, \u201cNavio Negreiro\u201d, pelo Orlando Rebou\u00e7as, e exercitando a benqueren\u00e7a que o tempo n\u00e3o consegue corroer.<br \/>\nHoje, neste 2007, vejo a a\u00e7\u00e3o vigorosa de Guedes Neto para segurar o tim\u00e3o e manter, com bin\u00f3culo no futuro, acesa a tocha que foi carregada por tantos e o faz com compet\u00eancia e dedica\u00e7\u00e3o, apesar do olhar indiferente do poder p\u00fablico que s\u00f3 v\u00ea os clubes como meros contribuintes, n\u00e3o colabora e tampouco entende que eles s\u00e3o tamb\u00e9m centros de conviv\u00eancia, formadores de esportistas e aglutinadores de uma sociedade que cresce, mas fica encurralada nas ruas pela viol\u00eancia. O N\u00e1utico e seus dirigentes s\u00e3o combatentes, n\u00e3o apenas em batalhas de confete e serpentina, mas na luta pela manuten\u00e7\u00e3o de um patrim\u00f4nio c\u00edvico de Fortaleza, agora historiado em livro pelo jornalista Rodolfo Sp\u00ednola.<br \/>\n(Rodolfo, se precisar: Jo\u00e3o Soares Neto \u00e9 da Academia Fortalezense de Letras, Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Bibli\u00f3filos e cronista semanal dos jornais Di\u00e1rio do Nordeste, O Estado e Carta Maior.).<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17\/05\/2007.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3500","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3500","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3500"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3500\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3500"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3500"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3500"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}