{"id":3501,"date":"2023-12-21T09:10:47","date_gmt":"2023-12-21T12:10:47","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/piano-e-musica-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:47","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:47","slug":"piano-e-musica-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/piano-e-musica-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"PIANO E M\u00daSICA &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>S\u00e1bado desses, meio sem fazer nada, fui ter a um restaurante. Pequeno, sem badala\u00e7\u00f5es, comida e bebida honestas, toalhas engomadas, espa\u00e7os internos divididos, gar\u00e7ons simp\u00e1ticos e um piano, fechado. Imaginei-o tocando, com um desses pianistas que j\u00e1 rodou a cidade inteira e que estaria ali mais pela sobreviv\u00eancia que pela arte. Acontece que o piano ficava do meu lado e s\u00f3 depois que me sentei \u00e9 que o pianista chegou: come\u00e7ou tocando blues. Tinha a idade dos maduros, a cor do cansa\u00e7o das noites e o gesto delicado de quem sabe mais que arrumar as sete notas. Era um artista, cansado que fosse.<br \/>\nComo disse, ele n\u00e3o estava ali por arte, mas a arte estava nele, mesmo que a mera sobreviv\u00eancia o tivesse levado at\u00e9 ali. Pedi para tocar dez m\u00fasicas, entre elas: Smile, Se a gente grande soubesse, The shadow of your smile, \u00c1guas de mar\u00e7o, Unforgettable, Besame mucho, Samba do avi\u00e3o e Raps\u00f3dia em Blue\u00b4. Sabia tocar todas e o fez de forma dorida, harmoniosa e talvez com ouvidos e olhos esperando a minha rea\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE entre uma m\u00fasica e outra me vi mexendo em sentimentos, lembrando por que e quem me lembrava cada uma dessas can\u00e7\u00f5es e qual a raz\u00e3o, se \u00e9 que m\u00fasica precisa de raz\u00e3o de eu misturar compositores como: Charles Chaplin, Billy Blanco, Johnny Mandel, Tom Jobim, Consuelo Vel\u00e1squez e Ira e George Gershwin, diferentes em suas naturezas, escolas, pa\u00edses de origem, mas atrelados pela capacidade de criar enlevo, dizer de amores, ajustar harmonia e melodia ao ouvido de um confesso leigo como eu. E me vi tomando vinho, n\u00e3o como en\u00f3logo, mas um t\u00e3o simples quanto o momento, safra mediana, vermelho como o sangue que me corre nas veias, n\u00e3o t\u00e3o frio que mudasse as minhas analfabetas papilas gustativas, mas que ia sorvendo, gole a gole, sem entorpecer sentidos, agu\u00e7ando a mem\u00f3ria, esse auto gravador a nos acompanhar que, vez por outra, desembucha sem pedir licen\u00e7a. E ao final das m\u00fasicas, absorto estava em meu pensar v\u00e1rio e o quis trazer \u00e0 realidade, mas ele teimava em ser et\u00e9reo, misturar \u00e9pocas, pessoas e emo\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o vi que o vinho acabara. Smile, sempre.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 20\/05\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e1bado desses, meio sem fazer nada, fui ter a um restaurante. Pequeno, sem badala\u00e7\u00f5es, comida e bebida honestas, toalhas engomadas, espa\u00e7os internos divididos, gar\u00e7ons simp\u00e1ticos e um piano, fechado. Imaginei-o tocando, com um desses pianistas que j\u00e1 rodou a cidade inteira e que estaria ali mais pela sobreviv\u00eancia que pela arte. Acontece que o piano ficava do meu lado e s\u00f3 depois que me sentei \u00e9 que o pianista chegou: come\u00e7ou tocando blues. Tinha a idade dos maduros, a cor do cansa\u00e7o das noites e o gesto delicado de quem sabe mais que arrumar as sete notas. Era um artista, cansado que fosse.<br \/>\nComo disse, ele n\u00e3o estava ali por arte, mas a arte estava nele, mesmo que a mera sobreviv\u00eancia o tivesse levado at\u00e9 ali. Pedi para tocar dez m\u00fasicas, entre elas: Smile, Se a gente grande soubesse, The shadow of your smile, \u00c1guas de mar\u00e7o, Unforgettable, Besame mucho, Samba do avi\u00e3o e Raps\u00f3dia em Blue\u00b4. Sabia tocar todas e o fez de forma dorida, harmoniosa e talvez com ouvidos e olhos esperando a minha rea\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE entre uma m\u00fasica e outra me vi mexendo em sentimentos, lembrando por que e quem me lembrava cada uma dessas can\u00e7\u00f5es e qual a raz\u00e3o, se \u00e9 que m\u00fasica precisa de raz\u00e3o de eu misturar compositores como: Charles Chaplin, Billy Blanco, Johnny Mandel, Tom Jobim, Consuelo Vel\u00e1squez e Ira e George Gershwin, diferentes em suas naturezas, escolas, pa\u00edses de origem, mas atrelados pela capacidade de criar enlevo, dizer de amores, ajustar harmonia e melodia ao ouvido de um confesso leigo como eu. E me vi tomando vinho, n\u00e3o como en\u00f3logo, mas um t\u00e3o simples quanto o momento, safra mediana, vermelho como o sangue que me corre nas veias, n\u00e3o t\u00e3o frio que mudasse as minhas analfabetas papilas gustativas, mas que ia sorvendo, gole a gole, sem entorpecer sentidos, agu\u00e7ando a mem\u00f3ria, esse auto gravador a nos acompanhar que, vez por outra, desembucha sem pedir licen\u00e7a. E ao final das m\u00fasicas, absorto estava em meu pensar v\u00e1rio e o quis trazer \u00e0 realidade, mas ele teimava em ser et\u00e9reo, misturar \u00e9pocas, pessoas e emo\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o vi que o vinho acabara. Smile, sempre.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 20\/05\/2007.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3501","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3501","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3501"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3501\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3501"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3501"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3501"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}