{"id":3502,"date":"2023-12-21T09:10:47","date_gmt":"2023-12-21T12:10:47","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/visao-turva-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:47","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:47","slug":"visao-turva-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/visao-turva-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"VIS\u00c3O TURVA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Neste quase fim de maio, entre s\u00f3is e chuvas, algu\u00e9m, certamente, sente a vis\u00e3o turva e pergunta as raz\u00f5es. Tantas, talvez. Todos, com poucos ou muitos lustros vividos, caminhos v\u00e1rios, expectativas reconstru\u00eddas ou n\u00e3o, v\u00e3o sendo remexidos, por raz\u00f5es diversas, l\u00e1 onde mora o sentimento profundo, naquele lugar onde n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1scaras, s\u00f3 n\u00f3s temos a chave e n\u00e3o cabe vaidade. E tudo, pasme, por conta das contas, afetivas ou n\u00e3o, de quem faz do diz-que-diz o combust\u00edvel que move a sua \u00f3tica e n\u00e3o sabe ver claro.<br \/>\nLentes ou vis\u00f5es turvas merecem ser limpas, alvejadas com sab\u00e3o, mas sab\u00e3o n\u00e3o limpa grilo, maledic\u00eancia, nem engrandece esp\u00edritos pequenos, n\u00e3o aplaca as diatribes que se constroem quando algu\u00e9m imagina que o outro vive um mar de rosas ou de prazer. \u00c9 imperiosa uma procela para denegrir, separar, a\u00e7ular e at\u00e9 invocar amor que impe\u00e7a, em nome da honra e dos modos, que \u2018erros\u2019 sejam cometidos, a moral e os bons costumes fiquem revestidos com o manto da hipocrisia que leva muitos de rold\u00e3o nas vagas da incoer\u00eancia, aquela que n\u00e3o traz ningu\u00e9m \u00e0 praia da raz\u00e3o.<br \/>\nE a praia da raz\u00e3o est\u00e1 deserta at\u00e9 das poucas e cansadas almas que se animavam a deambular por entre areias molhadas com os salpicos dos perdigotos dos que se imaginam s\u00e9rios, sensatos, falantes, mantenedores e dirigentes de espet\u00e1culos circenses de amor ou afabilidade doentia, porque despidos de prop\u00f3sitos coerentes, mas prenhes do direito de amorda\u00e7ar e tolher o outro, o que sabem ser imposs\u00edvel, pela natureza de quem conhece.<br \/>\nE na praia da raz\u00e3o o plenil\u00fanio se esvai e a n\u00e9voa desce por saber da tristeza dos que est\u00e3o ainda com os p\u00e9s feridos das ostras pisadas, perderam seus astrol\u00e1bios, n\u00e3o sabem manusear b\u00fassolas e olham por entre a bruma e n\u00e3o acreditam que perto dali, passos \u00e0 frente, h\u00e1 bra\u00e7os abertos que n\u00e3o se veem e nem se unem na clareira. E n\u00e3o se unem n\u00e3o s\u00f3 pela vis\u00e3o turva, mas pelo plenil\u00fanio ca\u00eddo, pela n\u00e9voa, p\u00e9s feridos, perda de astrol\u00e1bios e porque n\u00e3o sabem estender bra\u00e7os no escuro e n\u00e3o ousam desobedecer a preconceitos, mudar atitudes, desfazer amarras e se prostram na amargura da saudade, usando o disfarce da alegria como arte na vida.<br \/>\n(Esta cr\u00f4nica \u00e9 para Lucy, de Fortaleza)<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25\/05\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste quase fim de maio, entre s\u00f3is e chuvas, algu\u00e9m, certamente, sente a vis\u00e3o turva e pergunta as raz\u00f5es. Tantas, talvez. Todos, com poucos ou muitos lustros vividos, caminhos v\u00e1rios, expectativas reconstru\u00eddas ou n\u00e3o, v\u00e3o sendo remexidos, por raz\u00f5es diversas, l\u00e1 onde mora o sentimento profundo, naquele lugar onde n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1scaras, s\u00f3 n\u00f3s temos a chave e n\u00e3o cabe vaidade. E tudo, pasme, por conta das contas, afetivas ou n\u00e3o, de quem faz do diz-que-diz o combust\u00edvel que move a sua \u00f3tica e n\u00e3o sabe ver claro.<br \/>\nLentes ou vis\u00f5es turvas merecem ser limpas, alvejadas com sab\u00e3o, mas sab\u00e3o n\u00e3o limpa grilo, maledic\u00eancia, nem engrandece esp\u00edritos pequenos, n\u00e3o aplaca as diatribes que se constroem quando algu\u00e9m imagina que o outro vive um mar de rosas ou de prazer. \u00c9 imperiosa uma procela para denegrir, separar, a\u00e7ular e at\u00e9 invocar amor que impe\u00e7a, em nome da honra e dos modos, que \u2018erros\u2019 sejam cometidos, a moral e os bons costumes fiquem revestidos com o manto da hipocrisia que leva muitos de rold\u00e3o nas vagas da incoer\u00eancia, aquela que n\u00e3o traz ningu\u00e9m \u00e0 praia da raz\u00e3o.<br \/>\nE a praia da raz\u00e3o est\u00e1 deserta at\u00e9 das poucas e cansadas almas que se animavam a deambular por entre areias molhadas com os salpicos dos perdigotos dos que se imaginam s\u00e9rios, sensatos, falantes, mantenedores e dirigentes de espet\u00e1culos circenses de amor ou afabilidade doentia, porque despidos de prop\u00f3sitos coerentes, mas prenhes do direito de amorda\u00e7ar e tolher o outro, o que sabem ser imposs\u00edvel, pela natureza de quem conhece.<br \/>\nE na praia da raz\u00e3o o plenil\u00fanio se esvai e a n\u00e9voa desce por saber da tristeza dos que est\u00e3o ainda com os p\u00e9s feridos das ostras pisadas, perderam seus astrol\u00e1bios, n\u00e3o sabem manusear b\u00fassolas e olham por entre a bruma e n\u00e3o acreditam que perto dali, passos \u00e0 frente, h\u00e1 bra\u00e7os abertos que n\u00e3o se veem e nem se unem na clareira. 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