{"id":3506,"date":"2023-12-21T09:10:47","date_gmt":"2023-12-21T12:10:47","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/europa-2007-jornal-o-estado-2\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:47","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:47","slug":"europa-2007-jornal-o-estado-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/europa-2007-jornal-o-estado-2\/","title":{"rendered":"EUROPA, 2007 &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Nunca imaginei que um dia viesse a ter uma irm\u00e3 alem\u00e3. Quis o destino que Luiza Helena, soci\u00f3loga, conhecesse Wini, m\u00e9dico. Foi aqui mesmo, faz mais de 20 anos, antes do turismo sexual invadir o Brasil. Wini veio fazer resid\u00eancia m\u00e9dica, casou e levou minha irm\u00e3 e nos deu duas sobrinhas, J\u00falia e Isabella, minha afilhada. Por conta disso, principalmente, amiudei minhas andan\u00e7as pela Europa que come\u00e7aram em 1965, ainda frangote. S\u00e3o 42 anos e, mesmo sem querer, vi muita coisa acontecer por l\u00e1. Vi o fim das ditaduras de Salazar (1974) e Franco(1975) e a queda do muro de Berlim(1989). Por acidente ou sorte, andava batendo perna por l\u00e1 por esses tempos t\u00e3o conturbados dos anos 70 e 80. Lembro de Lisboa quando da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o dos Cravos\u201d, da euforia dos espanh\u00f3is p\u00f3s-Franco e de qu\u00e3o at\u00f4nito fiquei quando em 89 vi, literalmente, o muro de Berlim ser derrubado, enquanto jovens arrancavam pedras com as m\u00e3os, gritavam e cantavam.<br \/>\nAgora, neste ano de 2007, exatos no m\u00eas passado, completa 50 anos o Tratado de Roma que definiu os rumos do que \u00e9 hoje a Uni\u00e3o Europeia, um complexo e bem cuidado sistema que tem como princ\u00edpios fundamentais a democracia representativa, co\u00edbe a pena de morte, n\u00e3o aceita o trabalho escravo, defende a liberdade de falar e escrever e expressa a igualdade por g\u00eanero, etnia, religi\u00e3o ou orienta\u00e7\u00e3o. Todos os seus 494 milh\u00f5es de habitantes s\u00e3o livres para circular e trabalhar, como cidad\u00e3os supranacionais, nos 27 pa\u00edses da comunidade, hoje t\u00e3o rica quanto os Estados Unidos.<br \/>\nEssa ideia engenhosa e trabalhosa, que n\u00e3o tem similar no mundo, pois o Nafta, o Tratado Norte-Americano de Livre Americano, que re\u00fane Estados Unidos, Canad\u00e1 e M\u00e9xico, est\u00e1 longe de ser refer\u00eancia em igualdade de direitos e oportunidades para os cidad\u00e3os desses tr\u00eas pa\u00edses norte-americanos. Aqui na nossa Am\u00e9rica, a tentativa do Mercosul ainda engatinha, ao mesmo tempo em que o Chile se isola, a Venezuela grita e o Brasil sofre por falar e agir de forma diferente dos que t\u00eam a l\u00edngua de Cervantes como meio de express\u00e3o e o arqu\u00e9tipo de Simon Bol\u00edvar, como her\u00f3i continental.<br \/>\nComo seria bom que tiv\u00e9ssemos uma semana de trabalho de 35 horas, igual \u00e0 Fran\u00e7a. Como exultar\u00edamos se a tarde de sexta-feira fosse enforcada, como na Espanha. Que alegria se o nosso SUS fosse substitu\u00eddo pelo quase igualit\u00e1rio modelo de Estado de bem-estar social, em que todos s\u00e3o, al\u00e9m de outros benef\u00edcios, atendidos e providos assist\u00eancia e de rem\u00e9dios, sem distin\u00e7\u00e3o. Para isso, foi preciso muito trabalho, e o fim da tacanha patriotada e eugenia que provocaram duas guerras mundiais (1914-1917 e 1939-1945) no s\u00e9culo XX. Essa luta iluminista culminou com a cria\u00e7\u00e3o, em n\u00edvel transnacional de \u00f3rg\u00e3os t\u00e3o diferentes quanto: um Conselho que estabelece as diretrizes gerais, uma Comiss\u00e3o que executa, um parlamento que legisla, uma corte de justi\u00e7a que arbitra lit\u00edgios e um banco central europeu que consolidou, administra o Euro e determina baixas taxas de juros. Tudo isso sem picuinhas e respeitando as individualidades nacionais. Sonhar com modelos semelhantes para n\u00f3s \u00e9 uma forma de pensar em sair desse c\u00edrculo vicioso de quase riqueza e muita pobreza, permeada por ainda gritantes \u00edndices de mortalidade infantil e desigualdade social, tudo amparado na promiscuidade e impunidade que vicejam na pol\u00edtica e incentivam desvios de conduta.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06\/06\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca imaginei que um dia viesse a ter uma irm\u00e3 alem\u00e3. Quis o destino que Luiza Helena, soci\u00f3loga, conhecesse Wini, m\u00e9dico. Foi aqui mesmo, faz mais de 20 anos, antes do turismo sexual invadir o Brasil. Wini veio fazer resid\u00eancia m\u00e9dica, casou e levou minha irm\u00e3 e nos deu duas sobrinhas, J\u00falia e Isabella, minha afilhada. Por conta disso, principalmente, amiudei minhas andan\u00e7as pela Europa que come\u00e7aram em 1965, ainda frangote. S\u00e3o 42 anos e, mesmo sem querer, vi muita coisa acontecer por l\u00e1. Vi o fim das ditaduras de Salazar (1974) e Franco(1975) e a queda do muro de Berlim(1989). Por acidente ou sorte, andava batendo perna por l\u00e1 por esses tempos t\u00e3o conturbados dos anos 70 e 80. Lembro de Lisboa quando da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o dos Cravos\u201d, da euforia dos espanh\u00f3is p\u00f3s-Franco e de qu\u00e3o at\u00f4nito fiquei quando em 89 vi, literalmente, o muro de Berlim ser derrubado, enquanto jovens arrancavam pedras com as m\u00e3os, gritavam e cantavam.<br \/>\nAgora, neste ano de 2007, exatos no m\u00eas passado, completa 50 anos o Tratado de Roma que definiu os rumos do que \u00e9 hoje a Uni\u00e3o Europeia, um complexo e bem cuidado sistema que tem como princ\u00edpios fundamentais a democracia representativa, co\u00edbe a pena de morte, n\u00e3o aceita o trabalho escravo, defende a liberdade de falar e escrever e expressa a igualdade por g\u00eanero, etnia, religi\u00e3o ou orienta\u00e7\u00e3o. Todos os seus 494 milh\u00f5es de habitantes s\u00e3o livres para circular e trabalhar, como cidad\u00e3os supranacionais, nos 27 pa\u00edses da comunidade, hoje t\u00e3o rica quanto os Estados Unidos.<br \/>\nEssa ideia engenhosa e trabalhosa, que n\u00e3o tem similar no mundo, pois o Nafta, o Tratado Norte-Americano de Livre Americano, que re\u00fane Estados Unidos, Canad\u00e1 e M\u00e9xico, est\u00e1 longe de ser refer\u00eancia em igualdade de direitos e oportunidades para os cidad\u00e3os desses tr\u00eas pa\u00edses norte-americanos. Aqui na nossa Am\u00e9rica, a tentativa do Mercosul ainda engatinha, ao mesmo tempo em que o Chile se isola, a Venezuela grita e o Brasil sofre por falar e agir de forma diferente dos que t\u00eam a l\u00edngua de Cervantes como meio de express\u00e3o e o arqu\u00e9tipo de Simon Bol\u00edvar, como her\u00f3i continental.<br \/>\nComo seria bom que tiv\u00e9ssemos uma semana de trabalho de 35 horas, igual \u00e0 Fran\u00e7a. Como exultar\u00edamos se a tarde de sexta-feira fosse enforcada, como na Espanha. Que alegria se o nosso SUS fosse substitu\u00eddo pelo quase igualit\u00e1rio modelo de Estado de bem-estar social, em que todos s\u00e3o, al\u00e9m de outros benef\u00edcios, atendidos e providos assist\u00eancia e de rem\u00e9dios, sem distin\u00e7\u00e3o. Para isso, foi preciso muito trabalho, e o fim da tacanha patriotada e eugenia que provocaram duas guerras mundiais (1914-1917 e 1939-1945) no s\u00e9culo XX. Essa luta iluminista culminou com a cria\u00e7\u00e3o, em n\u00edvel transnacional de \u00f3rg\u00e3os t\u00e3o diferentes quanto: um Conselho que estabelece as diretrizes gerais, uma Comiss\u00e3o que executa, um parlamento que legisla, uma corte de justi\u00e7a que arbitra lit\u00edgios e um banco central europeu que consolidou, administra o Euro e determina baixas taxas de juros. Tudo isso sem picuinhas e respeitando as individualidades nacionais. Sonhar com modelos semelhantes para n\u00f3s \u00e9 uma forma de pensar em sair desse c\u00edrculo vicioso de quase riqueza e muita pobreza, permeada por ainda gritantes \u00edndices de mortalidade infantil e desigualdade social, tudo amparado na promiscuidade e impunidade que vicejam na pol\u00edtica e incentivam desvios de conduta.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06\/06\/2007.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3506","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3506","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3506"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3506\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3506"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3506"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3506"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}