{"id":3515,"date":"2023-12-21T09:10:47","date_gmt":"2023-12-21T12:10:47","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/tristeza-e-tributo-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:47","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:47","slug":"tristeza-e-tributo-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/tristeza-e-tributo-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"TRISTEZA E TRIBUTO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Ainda estou meio triste e sem gra\u00e7a com o epis\u00f3dio dos jovens universit\u00e1rios a maltratar uma mulher por cismarem ser ela uma prostituta. Estou triste e sem gra\u00e7a por n\u00e3o ver sentido na selvageria e na discrimina\u00e7\u00e3o de uma pessoa apenas por ser mulher, pobre, estar no alvorecer de um dia em um ponto de \u00f4nibus e \u2018parecer\u2019 uma prostituta.<br \/>\nEm outro epis\u00f3dio, nada a ver com o primeiro, vi outros jovens universit\u00e1rios, de uma universidade p\u00fablica, a tentar empanar o brilho da posse de um Reitor legitimamente eleito. Eles tocavam flauta, portavam cartazes e levavam um simulacro de caix\u00e3o, falando de democracia amorda\u00e7ada. Tiveram plena liberdade de transitar, fazer sua \u2018performance\u2019 e se retiraram em meio ao sil\u00eancio democr\u00e1tico de centenas de pessoas, entre eles, outros jovens.<br \/>\nPor outro lado, Suely Vilela, reitora da USP, ao final da recente ocupa\u00e7\u00e3o e greve dos estudantes, declarou \u00e0 Veja desta semana: \u201ctemos muitos furtos de laptops, monitores, projetor multim\u00eddia, impressora, scanner, componentes de inform\u00e1tica, DVD-player, pen drives, microfones, telefones e algumas m\u00e1quinas tamb\u00e9m\u201d.<br \/>\nSem saudosismo, mas como reflex\u00e3o, lembrei do meu tempo de universit\u00e1rio nos anos sessenta, quando n\u00e3o existiam ainda universidades e escolas particulares. Form\u00e1vamos um grande grupo, ora estudando, ora participando de passeatas, greves, congressos da Uni\u00e3o Estadual de Estudantes-UEE e da ent\u00e3o famosa Uni\u00e3o Nacional de Estudantes-UNE, aqui e pelo Brasil afora. \u00c9ramos destemidos, abusados at\u00e9, t\u00ednhamos diverg\u00eancias internas, mas nada de matar ou ferir pessoas, desrespeitar um ato solene de posse de uma universidade a tentar ser forte ou, aproveitando-se de uma ocupa\u00e7\u00e3o, furtar objetos. Tudo acontece em meio \u00e0s fraquezas conjunturais de um pa\u00eds pretendente a ser grande, mas sem coer\u00eancia pol\u00edtica, \u00e9tica ou quase nenhuma identidade ideol\u00f3gica. E dessa lembran\u00e7a forte veio, como firma de tributo, a recorda\u00e7\u00e3o de alguns nomes, entre outros, de colegas bravos como Augusto Pontes, Aytan Sipahy, Barros Pinho, H\u00e9lio Leite, Josino Lobo, Maria Luiza, Roberto Amaral, Valton Leit\u00e3o, Ren\u00e9 Barreira, todos, sem exce\u00e7\u00e3o, vitoriosos em suas carreiras, mesmo que tenham dado parte de seus tempos de juventude a essa luta sem fim e, ainda hoje, mantenham, sob formas diversas, a chama da esperan\u00e7a em suas cabe\u00e7as prateadas.<br \/>\nE, me perguntei se esse descompasso no agir de jovens de hoje a atacar \u00edndios, mendigos, mulheres ou velhos pelo Brasil afora, o epis\u00f3dio da \u2018performance\u2019 na posse de um reitor e os furtos na USP n\u00e3o ser\u00e3o frutos da car\u00eancia de cidadania, esgar\u00e7amento das fam\u00edlias um ideal maior, da velha ideologia, qualquer que fosse o seu substrato, a dar um sentido maior, al\u00e9m do mero existir?<br \/>\nOs jovens t\u00eam que ser destemidos, encetar lutas, marcar posi\u00e7\u00f5es, cobrar atitudes, transgredir at\u00e9, mas da\u00ed a se transformarem em \u2018exterminadores do futuro\u2019 ou reeditarem as famigeradas Ku, Klux, Klan e assemelhados, h\u00e1 uma dist\u00e2ncia enorme que n\u00e3o se justifica na era de informa\u00e7\u00e3o e do conhecimento, enquanto n\u00f3s, jovens de ontem, us\u00e1vamos panfletos feitos em mime\u00f3grafos, n\u00e3o t\u00ednhamos telefone e tampouco as facilidades da Internet. A diferen\u00e7a \u00e9 que d\u00e1vamos sentido \u00e0s nossas vidas, cobrando dos outros o que preg\u00e1vamos e faz\u00edamos.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06\/07\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda estou meio triste e sem gra\u00e7a com o epis\u00f3dio dos jovens universit\u00e1rios a maltratar uma mulher por cismarem ser ela uma prostituta. Estou triste e sem gra\u00e7a por n\u00e3o ver sentido na selvageria e na discrimina\u00e7\u00e3o de uma pessoa apenas por ser mulher, pobre, estar no alvorecer de um dia em um ponto de \u00f4nibus e \u2018parecer\u2019 uma prostituta.<br \/>\nEm outro epis\u00f3dio, nada a ver com o primeiro, vi outros jovens universit\u00e1rios, de uma universidade p\u00fablica, a tentar empanar o brilho da posse de um Reitor legitimamente eleito. Eles tocavam flauta, portavam cartazes e levavam um simulacro de caix\u00e3o, falando de democracia amorda\u00e7ada. Tiveram plena liberdade de transitar, fazer sua \u2018performance\u2019 e se retiraram em meio ao sil\u00eancio democr\u00e1tico de centenas de pessoas, entre eles, outros jovens.<br \/>\nPor outro lado, Suely Vilela, reitora da USP, ao final da recente ocupa\u00e7\u00e3o e greve dos estudantes, declarou \u00e0 Veja desta semana: \u201ctemos muitos furtos de laptops, monitores, projetor multim\u00eddia, impressora, scanner, componentes de inform\u00e1tica, DVD-player, pen drives, microfones, telefones e algumas m\u00e1quinas tamb\u00e9m\u201d.<br \/>\nSem saudosismo, mas como reflex\u00e3o, lembrei do meu tempo de universit\u00e1rio nos anos sessenta, quando n\u00e3o existiam ainda universidades e escolas particulares. Form\u00e1vamos um grande grupo, ora estudando, ora participando de passeatas, greves, congressos da Uni\u00e3o Estadual de Estudantes-UEE e da ent\u00e3o famosa Uni\u00e3o Nacional de Estudantes-UNE, aqui e pelo Brasil afora. \u00c9ramos destemidos, abusados at\u00e9, t\u00ednhamos diverg\u00eancias internas, mas nada de matar ou ferir pessoas, desrespeitar um ato solene de posse de uma universidade a tentar ser forte ou, aproveitando-se de uma ocupa\u00e7\u00e3o, furtar objetos. Tudo acontece em meio \u00e0s fraquezas conjunturais de um pa\u00eds pretendente a ser grande, mas sem coer\u00eancia pol\u00edtica, \u00e9tica ou quase nenhuma identidade ideol\u00f3gica. E dessa lembran\u00e7a forte veio, como firma de tributo, a recorda\u00e7\u00e3o de alguns nomes, entre outros, de colegas bravos como Augusto Pontes, Aytan Sipahy, Barros Pinho, H\u00e9lio Leite, Josino Lobo, Maria Luiza, Roberto Amaral, Valton Leit\u00e3o, Ren\u00e9 Barreira, todos, sem exce\u00e7\u00e3o, vitoriosos em suas carreiras, mesmo que tenham dado parte de seus tempos de juventude a essa luta sem fim e, ainda hoje, mantenham, sob formas diversas, a chama da esperan\u00e7a em suas cabe\u00e7as prateadas.<br \/>\nE, me perguntei se esse descompasso no agir de jovens de hoje a atacar \u00edndios, mendigos, mulheres ou velhos pelo Brasil afora, o epis\u00f3dio da \u2018performance\u2019 na posse de um reitor e os furtos na USP n\u00e3o ser\u00e3o frutos da car\u00eancia de cidadania, esgar\u00e7amento das fam\u00edlias um ideal maior, da velha ideologia, qualquer que fosse o seu substrato, a dar um sentido maior, al\u00e9m do mero existir?<br \/>\nOs jovens t\u00eam que ser destemidos, encetar lutas, marcar posi\u00e7\u00f5es, cobrar atitudes, transgredir at\u00e9, mas da\u00ed a se transformarem em \u2018exterminadores do futuro\u2019 ou reeditarem as famigeradas Ku, Klux, Klan e assemelhados, h\u00e1 uma dist\u00e2ncia enorme que n\u00e3o se justifica na era de informa\u00e7\u00e3o e do conhecimento, enquanto n\u00f3s, jovens de ontem, us\u00e1vamos panfletos feitos em mime\u00f3grafos, n\u00e3o t\u00ednhamos telefone e tampouco as facilidades da Internet. 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