{"id":3519,"date":"2023-12-21T09:10:47","date_gmt":"2023-12-21T12:10:47","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-que-e-um-amigo-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:47","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:47","slug":"o-que-e-um-amigo-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-que-e-um-amigo-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O QUE \u00c9 UM AMIGO? &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Hoje \u00e9 o dia do amigo. Voc\u00ea sabia?<br \/>\nO que \u00e9 um amigo? Ser\u00e1 aquele que ampara e defende? Ou o que protege e acolhe? Ou o que ouve calado as nossas lam\u00farias? Ou o que est\u00e1 pronto para o que der e vier e vem sem ser chamado?<br \/>\nNelson Rodrigues, um frasista c\u00ednico e inteligente, tem v\u00e1rias vers\u00f5es sobre o que seja amigo. Na primeira, ele \u00e9 negativo e diz: \u201cOs homens, individualmente, n\u00e3o s\u00e3o amigos dos homens. O \u00f3dio come\u00e7ou quando, pela primeira vez um homem viu outro homem. E assim tem sido atrav\u00e9s de todas as manh\u00e3s e de todas as noites: &#8211; o \u201coutro\u201d continua sendo o inimigo de cada um de n\u00f3s e de todos n\u00f3s.\u201d Em seguida, ele muda: \u201cDa\u00ed porque o grande acontecimento \u00e9, sempre, o amigo. Ele \u00e9 a desesperada utopia que todos perseguimos at\u00e9 a \u00faltima golfada de vida.\u201d Sendo pol\u00eamico, Nelson tinha humores e isso o fazia pensar diferente sobre amizade, dependendo do estado de esp\u00edrito. Assim \u00e9 que, em outra feita, ele chora: \u201cA morte de um velho amigo \u00e9 uma cat\u00e1strofe na mem\u00f3ria. Todas as rela\u00e7\u00f5es com o passado ficam alteradas\u201d.<br \/>\nAfinal, o que \u00e9 um amigo? Atrevo-me a dizer que \u00e9 aquele que quer bem ao outro. \u00c9 o companheiro, aliado e simpatizante. Segundo Machado de Assis, \u201cn\u00e3o \u00e9 amigo aquele que alardeia a amizade; \u00e9 traficante; a amizade sente-se, n\u00e3o se diz&#8230;\u201d<br \/>\nProcuro na hist\u00f3ria e valho-me de Arist\u00f3teles quando diz: \u201cN\u00e3o podemos nos contemplar a partir de n\u00f3s mesmos. Do mesmo modo que quando queremos contemplar nosso rosto fazemo-lo olhando-nos num espelho, assim tamb\u00e9m quando queremos conhecer-nos a n\u00f3s mesmos, conhecemo-nos vendo-nos em um amigo. Porque o amigo, dizemos, \u00e9 um outro de n\u00f3s mesmos.\u201d<br \/>\nVejo em Michel Foucault, na obra \u201cA palavra e as coisas\u201d uma distin\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica entre simpatia (que gera amizade) &#8211; o poder de assimilar, de fazer com que as coisas passem a ser semelhantes, ajustadas, de interesse comum &#8211; e antipatia, como contraponto que se caracteriza pela dispers\u00e3o e dessemelhan\u00e7a.<br \/>\nA amizade \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o em duplo sentido, onde a complementaridade, o respeito, a cr\u00edtica que ajuda, o incentivo que estimula e o apoio que conforta, n\u00e3o devem faltar como condimento \u00e0 conviv\u00eancia entre pessoas distintas.<br \/>\nSocorro-me de C\u00edcero quando fala da perda das amizades: \u201cSe o acaso as faz cair por falta de discernimento em uma amizade, n\u00e3o se creiam ligados a ponto de n\u00e3o poder abandonar seus amigos gravemente culp\u00e1veis\u201d.<br \/>\nH\u00e1 pessoas a confundir amizade com cumplicidade e subservi\u00eancia, formas pouco leais de conviv\u00eancia. Ser amigo \u00e9, antes de tudo, saber lidar com a verdade, mesmo isso se tornando doloroso. A verdade relativa de cada um nos imp\u00f5e uma caracter\u00edstica de vida. Ela nos distingue dos demais, sem deixar de sermos semelhantes. Isto \u00e9 a nossa integridade. E com poucos, mas escolhidos amigos, estamos mais seguros, com identifica\u00e7\u00e3o clara, capacidade de servir e dizer ao outro o quanto o estimamos e estamos dispostos a relevar disc\u00f3rdias e eliminar frustra\u00e7\u00f5es. O poeta ingl\u00eas William Blake disse: \u201ctudo que vive, n\u00e3o vive sozinho, nem para si mesmo\u201d. Por estarmos vivos e n\u00e3o vivermos isolados, n\u00e3o podemos deixar de ter amigos e de nos tornar integrantes de um elo comum a necessitar de permanente aten\u00e7\u00e3o e cuidado.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20\/07\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje \u00e9 o dia do amigo. Voc\u00ea sabia?<br \/>\nO que \u00e9 um amigo? Ser\u00e1 aquele que ampara e defende? Ou o que protege e acolhe? Ou o que ouve calado as nossas lam\u00farias? Ou o que est\u00e1 pronto para o que der e vier e vem sem ser chamado?<br \/>\nNelson Rodrigues, um frasista c\u00ednico e inteligente, tem v\u00e1rias vers\u00f5es sobre o que seja amigo. Na primeira, ele \u00e9 negativo e diz: \u201cOs homens, individualmente, n\u00e3o s\u00e3o amigos dos homens. O \u00f3dio come\u00e7ou quando, pela primeira vez um homem viu outro homem. E assim tem sido atrav\u00e9s de todas as manh\u00e3s e de todas as noites: &#8211; o \u201coutro\u201d continua sendo o inimigo de cada um de n\u00f3s e de todos n\u00f3s.\u201d Em seguida, ele muda: \u201cDa\u00ed porque o grande acontecimento \u00e9, sempre, o amigo. Ele \u00e9 a desesperada utopia que todos perseguimos at\u00e9 a \u00faltima golfada de vida.\u201d Sendo pol\u00eamico, Nelson tinha humores e isso o fazia pensar diferente sobre amizade, dependendo do estado de esp\u00edrito. Assim \u00e9 que, em outra feita, ele chora: \u201cA morte de um velho amigo \u00e9 uma cat\u00e1strofe na mem\u00f3ria. Todas as rela\u00e7\u00f5es com o passado ficam alteradas\u201d.<br \/>\nAfinal, o que \u00e9 um amigo? Atrevo-me a dizer que \u00e9 aquele que quer bem ao outro. \u00c9 o companheiro, aliado e simpatizante. Segundo Machado de Assis, \u201cn\u00e3o \u00e9 amigo aquele que alardeia a amizade; \u00e9 traficante; a amizade sente-se, n\u00e3o se diz&#8230;\u201d<br \/>\nProcuro na hist\u00f3ria e valho-me de Arist\u00f3teles quando diz: \u201cN\u00e3o podemos nos contemplar a partir de n\u00f3s mesmos. Do mesmo modo que quando queremos contemplar nosso rosto fazemo-lo olhando-nos num espelho, assim tamb\u00e9m quando queremos conhecer-nos a n\u00f3s mesmos, conhecemo-nos vendo-nos em um amigo. Porque o amigo, dizemos, \u00e9 um outro de n\u00f3s mesmos.\u201d<br \/>\nVejo em Michel Foucault, na obra \u201cA palavra e as coisas\u201d uma distin\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica entre simpatia (que gera amizade) &#8211; o poder de assimilar, de fazer com que as coisas passem a ser semelhantes, ajustadas, de interesse comum &#8211; e antipatia, como contraponto que se caracteriza pela dispers\u00e3o e dessemelhan\u00e7a.<br \/>\nA amizade \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o em duplo sentido, onde a complementaridade, o respeito, a cr\u00edtica que ajuda, o incentivo que estimula e o apoio que conforta, n\u00e3o devem faltar como condimento \u00e0 conviv\u00eancia entre pessoas distintas.<br \/>\nSocorro-me de C\u00edcero quando fala da perda das amizades: \u201cSe o acaso as faz cair por falta de discernimento em uma amizade, n\u00e3o se creiam ligados a ponto de n\u00e3o poder abandonar seus amigos gravemente culp\u00e1veis\u201d.<br \/>\nH\u00e1 pessoas a confundir amizade com cumplicidade e subservi\u00eancia, formas pouco leais de conviv\u00eancia. Ser amigo \u00e9, antes de tudo, saber lidar com a verdade, mesmo isso se tornando doloroso. A verdade relativa de cada um nos imp\u00f5e uma caracter\u00edstica de vida. Ela nos distingue dos demais, sem deixar de sermos semelhantes. Isto \u00e9 a nossa integridade. E com poucos, mas escolhidos amigos, estamos mais seguros, com identifica\u00e7\u00e3o clara, capacidade de servir e dizer ao outro o quanto o estimamos e estamos dispostos a relevar disc\u00f3rdias e eliminar frustra\u00e7\u00f5es. O poeta ingl\u00eas William Blake disse: \u201ctudo que vive, n\u00e3o vive sozinho, nem para si mesmo\u201d. 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