{"id":3526,"date":"2023-12-21T09:10:47","date_gmt":"2023-12-21T12:10:47","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-ultima-licao-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:47","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:47","slug":"a-ultima-licao-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-ultima-licao-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"A \u00daLTIMA LI\u00c7\u00c3O &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Meu pai, infelizmente, j\u00e1 morreu. Era um homem simples, inteligente, cara de duro, mas pleno de ingenuidade. Era charmoso, atraente mesmo e nunca posou de santo. Casou cedo, trabalhou, viveu plenamente, criou nove filhos, todos independentes, n\u00edvel superior de instru\u00e7\u00e3o e cidad\u00e3os do mundo. Morreu aos 70, de infarto, fim de tarde, no jardim de sua casa, ao lado de minha m\u00e3e. De repente, tento saber se fui seu amigo, se conversei com ele o desejado e se n\u00e3o fui ego\u00edsta. S\u00f3 ele poderia responder. Sei que, ap\u00f3s aposentado, veio ter comigo e me ajudava, dizendo n\u00e3o entender porque eu trabalhava tanto, se da vida nada se levava. Repetia isso, sempre.<br \/>\nE isso calou em mim. Nunca falei para ningu\u00e9m, mas resolvi, passo a passo, diminuir o ritmo de trabalho e deixei de pensar em ser mais ou ter mais. Diminu\u00ed, faz muito tempo, s\u00f3 n\u00e3o pude parar, pois a din\u00e2mica da vida nos imp\u00f5e a\u00e7\u00e3o. Desacelerei. Passei a fazer coisas prazerosas, menos chatas, ver os netos, aceitar meus erros e ter mais tempo para o que sempre gostei: viajar, conversar, ler, escrever e fazer pouco, mas diferente, com responsabilidade.<br \/>\nAgrupei-me com dessemelhantes e dispensei o aparato burgu\u00eas de viver. Tive baixos e altos e vi-me livre, foi duro. Essa liberdade n\u00e3o se transformou em \u00f3cio, mas me aprumou no rumo do novo. E, certamente, conheci pessoas erradas, at\u00e9 desonestas, posando de gente boa. Farsantes. Tamb\u00e9m conheci gente s\u00e9ria, simples, valiosa e desprovida de interesses. E penso que essa mudan\u00e7a se deu tamb\u00e9m por conta das pondera\u00e7\u00f5es repetidas do meu pai. Na hora de sua morte, corri para o hospital para onde foi levado, mas ele j\u00e1 n\u00e3o respirava. O m\u00e9dico que o atendeu, pediu gentilmente, ao sair do quarto e me deixar s\u00f3 com ele, que retirasse logo a alian\u00e7a de seu dedo. Depois, seria imposs\u00edvel. Olhei, perplexo, para o seu semblante acalmado eternamente, segurei sua m\u00e3o esquerda e tirei a alian\u00e7a. Relembrei do que ele sempre dizia: \u201cdo mundo nada se leva\u201d. Pois \u00e9, ele, atrav\u00e9s de sua m\u00e3o, me repetia, pela \u00faltima vez, a li\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 12\/08\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu pai, infelizmente, j\u00e1 morreu. Era um homem simples, inteligente, cara de duro, mas pleno de ingenuidade. Era charmoso, atraente mesmo e nunca posou de santo. Casou cedo, trabalhou, viveu plenamente, criou nove filhos, todos independentes, n\u00edvel superior de instru\u00e7\u00e3o e cidad\u00e3os do mundo. Morreu aos 70, de infarto, fim de tarde, no jardim de sua casa, ao lado de minha m\u00e3e. De repente, tento saber se fui seu amigo, se conversei com ele o desejado e se n\u00e3o fui ego\u00edsta. S\u00f3 ele poderia responder. Sei que, ap\u00f3s aposentado, veio ter comigo e me ajudava, dizendo n\u00e3o entender porque eu trabalhava tanto, se da vida nada se levava. Repetia isso, sempre.<br \/>\nE isso calou em mim. Nunca falei para ningu\u00e9m, mas resolvi, passo a passo, diminuir o ritmo de trabalho e deixei de pensar em ser mais ou ter mais. Diminu\u00ed, faz muito tempo, s\u00f3 n\u00e3o pude parar, pois a din\u00e2mica da vida nos imp\u00f5e a\u00e7\u00e3o. Desacelerei. Passei a fazer coisas prazerosas, menos chatas, ver os netos, aceitar meus erros e ter mais tempo para o que sempre gostei: viajar, conversar, ler, escrever e fazer pouco, mas diferente, com responsabilidade.<br \/>\nAgrupei-me com dessemelhantes e dispensei o aparato burgu\u00eas de viver. Tive baixos e altos e vi-me livre, foi duro. Essa liberdade n\u00e3o se transformou em \u00f3cio, mas me aprumou no rumo do novo. E, certamente, conheci pessoas erradas, at\u00e9 desonestas, posando de gente boa. Farsantes. Tamb\u00e9m conheci gente s\u00e9ria, simples, valiosa e desprovida de interesses. E penso que essa mudan\u00e7a se deu tamb\u00e9m por conta das pondera\u00e7\u00f5es repetidas do meu pai. Na hora de sua morte, corri para o hospital para onde foi levado, mas ele j\u00e1 n\u00e3o respirava. O m\u00e9dico que o atendeu, pediu gentilmente, ao sair do quarto e me deixar s\u00f3 com ele, que retirasse logo a alian\u00e7a de seu dedo. Depois, seria imposs\u00edvel. Olhei, perplexo, para o seu semblante acalmado eternamente, segurei sua m\u00e3o esquerda e tirei a alian\u00e7a. Relembrei do que ele sempre dizia: \u201cdo mundo nada se leva\u201d. Pois \u00e9, ele, atrav\u00e9s de sua m\u00e3o, me repetia, pela \u00faltima vez, a li\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 12\/08\/2007.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3526","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3526","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3526"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3526\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}