{"id":3538,"date":"2023-12-21T09:10:48","date_gmt":"2023-12-21T12:10:48","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/amigos-na-tarde-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:48","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:48","slug":"amigos-na-tarde-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/amigos-na-tarde-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"AMIGOS NA TARDE &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Uma d\u00fazia de mini-louras s\u00e3o o bouquet que entrego ao Airton, sempre esnobando os tintos estrangeirados, oferecidos com prodigalidade pelos cobres n\u00e3o poupados dos Cavianele. Chego. Abra\u00e7o a todos e vejo que a mesa est\u00e1 posta com esmero para o repasto tardio por quem faz do receber um aceno fraterno \u00e0 benqueren\u00e7a e ao encontro de almas, eventualmente irm\u00e3s.<br \/>\nL\u00e1 abaixo o mar orvalha as pedras e o sol n\u00e3o est\u00e1 forte, como a se espregui\u00e7ar entre nimbos que embranquecem o firmamento azul. Um barco perdido vai na dire\u00e7\u00e3o do seu trapiche, deixando o ca\u00eds para os mais fortes, os de cascos de a\u00e7o com limo coberto e que vagam pelo mundo.<br \/>\nChistes, tro\u00e7as, leitura extempor\u00e2nea de uma cr\u00f4nica para mexer com o Airton e o telefone toca. Era a descend\u00eancia, trocando afagos. O aroma dos condimentos vem da cozinha, mas tenho que sair. Que pena, agora que os decib\u00e9is et\u00edlicos dos amigos est\u00e3o no ponto do Totonho perpetu\u00e1-los em aquarela e o Levy ficar ruminando o seu quip\u00e1 imagin\u00e1rio, para contar os gastos da casa que poderiam ser amealhados para um futuro que n\u00e3o se sabe existir, pois quando vem j\u00e1 \u00e9 presente. E renovo o meu olhar para o oceano e miro o edif\u00edcio onde mora uma filha querida. Descubro-me em d\u00edvida com o ir e vir das ondas, empurradas pela energia superior que a f\u00edsica n\u00e3o consegue explicar, em teorias ou f\u00f3rmulas. Do lado direito, ou\u00e7o o trinar de um p\u00e1ssaro aprisionado, mas livre, incomodado com a zoada que fazemos, enquanto os cristais \u00e0 mesa aguardam a conspurca\u00e7\u00e3o dos tintos. Chamo o elevador, esta m\u00e1quina que, por seus espelhos, transforma em vizinhos os que se querem isolados. E todos fingem fazer alguma coisa para n\u00e3o aprofundar conversas, qui\u00e7\u00e1 sentimentos. E o ch\u00e3o aparece. Ligo o carro e sinto-me s\u00f3 na estreita rua deserta. Utilizo a met\u00e1fora da paz na rua que tomo \u00e0 direita e vejo enfileirados uma mir\u00edade de pr\u00e9dios, guardi\u00f5es de segredos, dores, alegrias e amores. \u00c9 meio da tarde e o acelerador do carro trasmuta-me no pai que sou, mesmo que queira, vez por outra, bancar o menino levado que nunca fui com maestria.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 23\/09\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma d\u00fazia de mini-louras s\u00e3o o bouquet que entrego ao Airton, sempre esnobando os tintos estrangeirados, oferecidos com prodigalidade pelos cobres n\u00e3o poupados dos Cavianele. Chego. Abra\u00e7o a todos e vejo que a mesa est\u00e1 posta com esmero para o repasto tardio por quem faz do receber um aceno fraterno \u00e0 benqueren\u00e7a e ao encontro de almas, eventualmente irm\u00e3s.<br \/>\nL\u00e1 abaixo o mar orvalha as pedras e o sol n\u00e3o est\u00e1 forte, como a se espregui\u00e7ar entre nimbos que embranquecem o firmamento azul. Um barco perdido vai na dire\u00e7\u00e3o do seu trapiche, deixando o ca\u00eds para os mais fortes, os de cascos de a\u00e7o com limo coberto e que vagam pelo mundo.<br \/>\nChistes, tro\u00e7as, leitura extempor\u00e2nea de uma cr\u00f4nica para mexer com o Airton e o telefone toca. Era a descend\u00eancia, trocando afagos. O aroma dos condimentos vem da cozinha, mas tenho que sair. Que pena, agora que os decib\u00e9is et\u00edlicos dos amigos est\u00e3o no ponto do Totonho perpetu\u00e1-los em aquarela e o Levy ficar ruminando o seu quip\u00e1 imagin\u00e1rio, para contar os gastos da casa que poderiam ser amealhados para um futuro que n\u00e3o se sabe existir, pois quando vem j\u00e1 \u00e9 presente. E renovo o meu olhar para o oceano e miro o edif\u00edcio onde mora uma filha querida. Descubro-me em d\u00edvida com o ir e vir das ondas, empurradas pela energia superior que a f\u00edsica n\u00e3o consegue explicar, em teorias ou f\u00f3rmulas. Do lado direito, ou\u00e7o o trinar de um p\u00e1ssaro aprisionado, mas livre, incomodado com a zoada que fazemos, enquanto os cristais \u00e0 mesa aguardam a conspurca\u00e7\u00e3o dos tintos. Chamo o elevador, esta m\u00e1quina que, por seus espelhos, transforma em vizinhos os que se querem isolados. E todos fingem fazer alguma coisa para n\u00e3o aprofundar conversas, qui\u00e7\u00e1 sentimentos. E o ch\u00e3o aparece. Ligo o carro e sinto-me s\u00f3 na estreita rua deserta. Utilizo a met\u00e1fora da paz na rua que tomo \u00e0 direita e vejo enfileirados uma mir\u00edade de pr\u00e9dios, guardi\u00f5es de segredos, dores, alegrias e amores. \u00c9 meio da tarde e o acelerador do carro trasmuta-me no pai que sou, mesmo que queira, vez por outra, bancar o menino levado que nunca fui com maestria.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 23\/09\/2007.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3538","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3538","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3538"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3538\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3538"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3538"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3538"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}