{"id":3554,"date":"2023-12-21T09:10:48","date_gmt":"2023-12-21T12:10:48","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-frio-com-kafka-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:48","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:48","slug":"o-frio-com-kafka-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-frio-com-kafka-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O FRIO COM KAFKA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Seis horas da tarde. Faz muito frio, quase zero grau e chove forte. Todas as luzes est\u00e3o acesas em Praga e, mesmo assim, vejo cinza. \u00c9 fim de outono com pinta de inverno brabo. Ando apressado e o sinal de tr\u00e2nsito fecha. Olho para as pessoas que v\u00e3o, certamente, para as suas casas ou divers\u00f5es e me sinto estranho na cidade em que estou por curiosidade e de passagem.<br \/>\nDeixo \u2013 que jeito &#8211; que a \u00e1gua ensope o meu casaco. Os \u00f3culos emba\u00e7ados precisam ser limpos e o fa\u00e7o com o len\u00e7o. Os carros passam velozes e produzem barulho quando cruzam os trilhos dos bondes urbanos. Acabara, enfim, de ver a escultura com Franz Kafka, em uma pracinha pequena, triangular, ajardinada e meio escondida. Queria v\u00ea-la, andava e perguntava. Ensinaram-me e fui chapinhando na \u00e1gua que caia sem d\u00f3 do c\u00e9u nublado. Era um processo em andamento. E vi que o mais que uma cidade pode fazer por algu\u00e9m \u00e9 dar-lhe um nome a uma rua, erguer uma est\u00e1tua e colocar informa\u00e7\u00f5es nos guias tur\u00edsticos. O que fica mesmo \u00e9 a obra que deixa, o resto \u00e9 vaidade, especialmente da fam\u00edlia. E lembrei de toda a amargura e isolamento que Kafka sofreu e deixou passar em seus m\u00faltiplos livros. E ele estava l\u00e1 sozinho e havia um grande vazio ovalado na escultura, como a registrar o que sentira. S\u00f3 ele e eu na pra\u00e7a, ambos molhados. Ele n\u00e3o mais sentia o frio. Eu, sim. Uma metamorfose.<br \/>\nE volto a estar no sinal de tr\u00e2nsito que j\u00e1 vai abrindo e apresso o passo. No meio da multid\u00e3o &#8211; que vem em sentido contr\u00e1rio &#8211; vejo uma jovem m\u00e3e com o seu rosto colado a uma filhinha que tirita de frio. E n\u00e3o s\u00f3 o rosto est\u00e1 colado, mas a m\u00e3o a afaga pelas costas. Tudo n\u00e3o passou de segundos e essa imagem foi a mais forte que ficou na minha retina e pairou no meu sentir, mesmo que tenha encontrado Kafka, visto pontes, castelos, igrejas, restaurantes, assistido a concerto com pe\u00e7as de Smetana e Dvorak. Nada h\u00e1 mais forte que o aconchego espont\u00e2neo, o estar junto verdadeiro, a prote\u00e7\u00e3o que o carinho consegue transmitir e espanta o frio do corpo e da alma. E vi, repito, naquele instante que nada existe maior que o sentimento que nos une aos que amamos, sem perguntar se v\u00e3o retribuir ou n\u00e3o o nosso bem querer. Kafka era s\u00f3, n\u00e3o sentiu isso e sofreu por isso.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16\/11\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seis horas da tarde. Faz muito frio, quase zero grau e chove forte. Todas as luzes est\u00e3o acesas em Praga e, mesmo assim, vejo cinza. \u00c9 fim de outono com pinta de inverno brabo. Ando apressado e o sinal de tr\u00e2nsito fecha. Olho para as pessoas que v\u00e3o, certamente, para as suas casas ou divers\u00f5es e me sinto estranho na cidade em que estou por curiosidade e de passagem.<br \/>\nDeixo \u2013 que jeito &#8211; que a \u00e1gua ensope o meu casaco. Os \u00f3culos emba\u00e7ados precisam ser limpos e o fa\u00e7o com o len\u00e7o. Os carros passam velozes e produzem barulho quando cruzam os trilhos dos bondes urbanos. Acabara, enfim, de ver a escultura com Franz Kafka, em uma pracinha pequena, triangular, ajardinada e meio escondida. Queria v\u00ea-la, andava e perguntava. Ensinaram-me e fui chapinhando na \u00e1gua que caia sem d\u00f3 do c\u00e9u nublado. Era um processo em andamento. E vi que o mais que uma cidade pode fazer por algu\u00e9m \u00e9 dar-lhe um nome a uma rua, erguer uma est\u00e1tua e colocar informa\u00e7\u00f5es nos guias tur\u00edsticos. O que fica mesmo \u00e9 a obra que deixa, o resto \u00e9 vaidade, especialmente da fam\u00edlia. E lembrei de toda a amargura e isolamento que Kafka sofreu e deixou passar em seus m\u00faltiplos livros. E ele estava l\u00e1 sozinho e havia um grande vazio ovalado na escultura, como a registrar o que sentira. S\u00f3 ele e eu na pra\u00e7a, ambos molhados. Ele n\u00e3o mais sentia o frio. Eu, sim. Uma metamorfose.<br \/>\nE volto a estar no sinal de tr\u00e2nsito que j\u00e1 vai abrindo e apresso o passo. No meio da multid\u00e3o &#8211; que vem em sentido contr\u00e1rio &#8211; vejo uma jovem m\u00e3e com o seu rosto colado a uma filhinha que tirita de frio. E n\u00e3o s\u00f3 o rosto est\u00e1 colado, mas a m\u00e3o a afaga pelas costas. Tudo n\u00e3o passou de segundos e essa imagem foi a mais forte que ficou na minha retina e pairou no meu sentir, mesmo que tenha encontrado Kafka, visto pontes, castelos, igrejas, restaurantes, assistido a concerto com pe\u00e7as de Smetana e Dvorak. Nada h\u00e1 mais forte que o aconchego espont\u00e2neo, o estar junto verdadeiro, a prote\u00e7\u00e3o que o carinho consegue transmitir e espanta o frio do corpo e da alma. E vi, repito, naquele instante que nada existe maior que o sentimento que nos une aos que amamos, sem perguntar se v\u00e3o retribuir ou n\u00e3o o nosso bem querer. Kafka era s\u00f3, n\u00e3o sentiu isso e sofreu por isso.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16\/11\/2007.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3554","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3554","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3554"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3554\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3554"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3554"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3554"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}