{"id":3555,"date":"2023-12-21T09:10:48","date_gmt":"2023-12-21T12:10:48","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/lisboa-revisitada-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:48","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:48","slug":"lisboa-revisitada-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/lisboa-revisitada-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"LISBOA REVISITADA &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Era 1965, outono, tal qual agora, e o sopro da aventura me fez chegar a Portugal. Tempo de Oliveira Salazar. Pol\u00edticos e intelectuais se sentiam amorda\u00e7ados pela PID, a pol\u00edcia pol\u00edtica. Eu era um fedelho no in\u00edcio dos vinte e tinha sede de conhecer o mundo. O velho, principalmente. Lisboa foi e ser\u00e1 sempre a minha entrada \u2013 e sa\u00edda- para tudo o que tenho visto por este lado da terra. Escorado no parapeito da varanda do Hotel Mundial, o\u00e1sis de cordialidade na Baixa, vejo que estou ao pegado do Rossio, Chiado, Restauradores e da Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio. E saio a esmo singrando pra\u00e7as, avenidas, ruas e vielas e dou conta de que os nomes das ruas (dos Sapateiros, da Prata, do Ouro) t\u00eam a ver com o que as pessoas fazem. \u00c9 a tradi\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria dessa cidade que sofreu brutal terremoto e foi reerguida, gra\u00e7as \u00e0 lucidez urban\u00edstica do Marqu\u00eas de Pombal, ap\u00f3s 1755. Est\u00e1 linda, mesmo na pureza conspurcada pelo progresso.<br \/>\nE n\u00e3o fujo \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de chegar \u00e0 Rua Garret e tomar mais uma foto com a est\u00e1tua em que se transformou Fernando Pessoa, esse burocrata cumpridor de hor\u00e1rios e a maior express\u00e3o po\u00e9tica portuguesa do s\u00e9culo passado. No outro lado da rua, entro na Livraria Bertrand e vejo livros, inclusive o \u00faltimo, Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares, consagrado no romance hist\u00f3rico Equador e filho de Sophia de Mello Brayner que, al\u00e9m de poeta, \u00e9 nome de avi\u00e3o da TAP. E j\u00e1 estou na esplanada da Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio, custodiado monumento arquitet\u00f4nico que d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de amplitude, desde o arco que fecha \u2013 ou abre- a Rua Augusta.<br \/>\n\u00c9 assim mesmo, sempre que dou os costados por aqui, me perco em fazer o que quero. Desta vez, tomo um t\u00e1xi e sigo para a Expo, centro de eventos criados em 1998. Venho ver a \u201cArte Lisboa\u201d, acontecimento que re\u00fane express\u00f5es definitivas ou emergentes das artes pl\u00e1sticas portuguesas e me ponho a fotografar quadros, instala\u00e7\u00f5es e esculturas. E j\u00e1 estou levando publica\u00e7\u00f5es. Uma \u00e9 minha. Outra, para amigo letrado e acostumado em pensar a arte como enlevo. E lembro Pessoa: \u201cO comboio abranda, \u00e9 o Ca\u00eds de Sodr\u00e9, chego a Lisboa, mas n\u00e3o a uma conclus\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 18\/11\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era 1965, outono, tal qual agora, e o sopro da aventura me fez chegar a Portugal. Tempo de Oliveira Salazar. Pol\u00edticos e intelectuais se sentiam amorda\u00e7ados pela PID, a pol\u00edcia pol\u00edtica. Eu era um fedelho no in\u00edcio dos vinte e tinha sede de conhecer o mundo. O velho, principalmente. Lisboa foi e ser\u00e1 sempre a minha entrada \u2013 e sa\u00edda- para tudo o que tenho visto por este lado da terra. Escorado no parapeito da varanda do Hotel Mundial, o\u00e1sis de cordialidade na Baixa, vejo que estou ao pegado do Rossio, Chiado, Restauradores e da Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio. E saio a esmo singrando pra\u00e7as, avenidas, ruas e vielas e dou conta de que os nomes das ruas (dos Sapateiros, da Prata, do Ouro) t\u00eam a ver com o que as pessoas fazem. \u00c9 a tradi\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria dessa cidade que sofreu brutal terremoto e foi reerguida, gra\u00e7as \u00e0 lucidez urban\u00edstica do Marqu\u00eas de Pombal, ap\u00f3s 1755. Est\u00e1 linda, mesmo na pureza conspurcada pelo progresso.<br \/>\nE n\u00e3o fujo \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de chegar \u00e0 Rua Garret e tomar mais uma foto com a est\u00e1tua em que se transformou Fernando Pessoa, esse burocrata cumpridor de hor\u00e1rios e a maior express\u00e3o po\u00e9tica portuguesa do s\u00e9culo passado. No outro lado da rua, entro na Livraria Bertrand e vejo livros, inclusive o \u00faltimo, Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares, consagrado no romance hist\u00f3rico Equador e filho de Sophia de Mello Brayner que, al\u00e9m de poeta, \u00e9 nome de avi\u00e3o da TAP. E j\u00e1 estou na esplanada da Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio, custodiado monumento arquitet\u00f4nico que d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de amplitude, desde o arco que fecha \u2013 ou abre- a Rua Augusta.<br \/>\n\u00c9 assim mesmo, sempre que dou os costados por aqui, me perco em fazer o que quero. Desta vez, tomo um t\u00e1xi e sigo para a Expo, centro de eventos criados em 1998. Venho ver a \u201cArte Lisboa\u201d, acontecimento que re\u00fane express\u00f5es definitivas ou emergentes das artes pl\u00e1sticas portuguesas e me ponho a fotografar quadros, instala\u00e7\u00f5es e esculturas. E j\u00e1 estou levando publica\u00e7\u00f5es. Uma \u00e9 minha. Outra, para amigo letrado e acostumado em pensar a arte como enlevo. E lembro Pessoa: \u201cO comboio abranda, \u00e9 o Ca\u00eds de Sodr\u00e9, chego a Lisboa, mas n\u00e3o a uma conclus\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 18\/11\/2007.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3555","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3555","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3555"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3555\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3555"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3555"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3555"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}