{"id":3560,"date":"2023-12-21T09:10:48","date_gmt":"2023-12-21T12:10:48","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-poeta-do-traco-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:48","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:48","slug":"o-poeta-do-traco-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-poeta-do-traco-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"O POETA DO TRA\u00c7O &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Anos 70. Rio de Janeiro. Esquina da J\u00falio de Castilhos com a Atl\u00e2ntica. Manh\u00e3 cedo. Um Dodge Dart para. Desce um homem maduro. De onde estou, posso v\u00ea-lo por inteiro. Baixo, calvo, cal\u00e7a escura, blazer bege, camisa sem gravata e sapatos com saltos mais altos que o normal. Sobe \u00e0 cal\u00e7ada, cumprimenta-me com um menear de cabe\u00e7a e entra no pr\u00e9dio \u00e0 esquerda. Era ele. Tinha certeza. Lembrei da primeira vez que fui a Bras\u00edlia, quando tudo come\u00e7ava e o Plano Piloto mostrava grandes vazios. Embeveci-me com a genialidade do urbanista L\u00facio Costa e os tra\u00e7os precisos e futuristas dos pr\u00e9dios concebidos por Oscar Niemeyer. Nesse tempo, tomara as dores de L\u00facio Costa em rodas ditas letradas. A maioria achava que Bras\u00edlia tinha sido planejada por Niemeyer. N\u00e3o, foi L\u00facio Costa, disse eu. Niemeyer projetou \u2013 e bem &#8211; as edifica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nE Niemeyer, o poeta do tra\u00e7o arquitet\u00f4nico, era aquele homem maduro que acabara de passar \u00e0 minha frente. Depois desse dia, sempre o via fazer esse curto percurso. E, outras vezes, almo\u00e7ando no restaurante Alcazar, vizinho \u00e0 minha mesa. Mas, havia uma timidez a n\u00e3o me deixar quebrar o gelo e conversar com ele. Iria dizer da minha admira\u00e7\u00e3o por tudo o que vi dele aqui e em Israel.<br \/>\nS\u00e1bado passado, l\u00e1 estava eu de novo. Ele entrara no Ed. Ypiranga, um pr\u00e9dio simples, antigo, com varandas arredondadas, de cor ocre, onde trabalha na cobertura. Chovia grosso. Criei coragem e apertei a campainha. Hoje, o pr\u00e9dio est\u00e1 gradeado. O porteiro pergunta o que quero. Respondo: falar com o Dr. Oscar. Ele pede para usar o interfone para o n\u00famero 1101. Um secret\u00e1rio atende. Digo que desejo apenas cumprimentar o Dr. Oscar pelos cem anos. Ele pede que ligue do meu celular para o n\u00famero que me d\u00e1 e fale com D. Vera L\u00facia, mulher do Niemeyer. A chuva aumenta. Ela atende, ouve-me, e diz que ele est\u00e1 muito atarefado com a equipe e lamenta que n\u00e3o possa me atender naquela hora. Pergunto-lhe a que horas ele iria sair e ela diz: ele n\u00e3o tem hora para sair. E foi assim que perdi a oportunidade de dizer, antecipadamente: parab\u00e9ns, Dr. Oscar, pelo dia 15. Ontem, por sinal.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 16\/12\/2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anos 70. Rio de Janeiro. Esquina da J\u00falio de Castilhos com a Atl\u00e2ntica. Manh\u00e3 cedo. Um Dodge Dart para. Desce um homem maduro. De onde estou, posso v\u00ea-lo por inteiro. Baixo, calvo, cal\u00e7a escura, blazer bege, camisa sem gravata e sapatos com saltos mais altos que o normal. Sobe \u00e0 cal\u00e7ada, cumprimenta-me com um menear de cabe\u00e7a e entra no pr\u00e9dio \u00e0 esquerda. Era ele. Tinha certeza. Lembrei da primeira vez que fui a Bras\u00edlia, quando tudo come\u00e7ava e o Plano Piloto mostrava grandes vazios. Embeveci-me com a genialidade do urbanista L\u00facio Costa e os tra\u00e7os precisos e futuristas dos pr\u00e9dios concebidos por Oscar Niemeyer. Nesse tempo, tomara as dores de L\u00facio Costa em rodas ditas letradas. A maioria achava que Bras\u00edlia tinha sido planejada por Niemeyer. N\u00e3o, foi L\u00facio Costa, disse eu. Niemeyer projetou \u2013 e bem &#8211; as edifica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nE Niemeyer, o poeta do tra\u00e7o arquitet\u00f4nico, era aquele homem maduro que acabara de passar \u00e0 minha frente. Depois desse dia, sempre o via fazer esse curto percurso. E, outras vezes, almo\u00e7ando no restaurante Alcazar, vizinho \u00e0 minha mesa. Mas, havia uma timidez a n\u00e3o me deixar quebrar o gelo e conversar com ele. Iria dizer da minha admira\u00e7\u00e3o por tudo o que vi dele aqui e em Israel.<br \/>\nS\u00e1bado passado, l\u00e1 estava eu de novo. Ele entrara no Ed. Ypiranga, um pr\u00e9dio simples, antigo, com varandas arredondadas, de cor ocre, onde trabalha na cobertura. Chovia grosso. Criei coragem e apertei a campainha. Hoje, o pr\u00e9dio est\u00e1 gradeado. O porteiro pergunta o que quero. Respondo: falar com o Dr. Oscar. Ele pede para usar o interfone para o n\u00famero 1101. Um secret\u00e1rio atende. Digo que desejo apenas cumprimentar o Dr. Oscar pelos cem anos. Ele pede que ligue do meu celular para o n\u00famero que me d\u00e1 e fale com D. Vera L\u00facia, mulher do Niemeyer. A chuva aumenta. Ela atende, ouve-me, e diz que ele est\u00e1 muito atarefado com a equipe e lamenta que n\u00e3o possa me atender naquela hora. Pergunto-lhe a que horas ele iria sair e ela diz: ele n\u00e3o tem hora para sair. E foi assim que perdi a oportunidade de dizer, antecipadamente: parab\u00e9ns, Dr. Oscar, pelo dia 15. Ontem, por sinal.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 16\/12\/2007.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3560","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3560","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3560"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3560\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3560"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3560"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3560"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}