{"id":3567,"date":"2023-12-21T09:10:48","date_gmt":"2023-12-21T12:10:48","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/os-avisos-do-corpo\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:48","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:48","slug":"os-avisos-do-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/os-avisos-do-corpo\/","title":{"rendered":"OS AVISOS DO CORPO"},"content":{"rendered":"<p>Estou escrevendo no computador e ou\u00e7o um choro. \u00c9 a minha secret\u00e1ria esvaindo-se em l\u00e1grimas. Recebera um telefonema. Seu pai acabara de morrer. Perguntei a idade. Era mais novo do que eu. Fico meio apavorado. Fumava e bebia muito, ela disse. E a\u00ed lembrei do meu amigo poeta ao me passar recado de seu cardiologista, amigo comum, dizendo que ele, o poeta, n\u00e3o era hipertenso. N\u00e3o era, mas ser\u00e1, certamente. Ser\u00e1, pela simples raz\u00e3o do corpo pedir respeito. Pede com jeito: n\u00e3o coma demais, trabalho muito por conta disso. Pede com calma: n\u00e3o beba exagerado, veja seu f\u00edgado e as consequ\u00eancias para os rins. O amigo poeta, muitas vezes, n\u00e3o respeita seus limites. O corpo pede: v\u00e1 dormir, e ele fica madrugada afora, catando ins\u00f4nia.<br \/>\nMinha secret\u00e1ria continua chorando. O pai morava longe e l\u00e1 se vai ela. Liga para a m\u00e3e e o choro fica mais controlado. Consola a m\u00e3e e diz: logo estar\u00e1 chegando. Enquanto ela agora deve estar em uma dessas Brs esburacada, lembro do meu amigo cronista-psi tossindo feito um condenado. Tosse por fumar em demasia. Sabe disso e n\u00e3o cuida, mas diz se preocupar quando a minha press\u00e3o ascende ao bom ou ruim futebol do meu time. Continuo lembrando haver o pai da secret\u00e1ria morrido de infarto, mas invento, para mim: ele s\u00f3 morreu porque fumava e bebia. Todos morrem, nada a ver.<br \/>\nE a\u00ed lembro do amigo-editor, meio adoentado, semana dessas, por haver recebido um catatau de exames laboratoriais. Todos estavam bem, exceto um, o do colesterol e isso deve ter mexido com a cuca dele, e a\u00ed a press\u00e3o disparou e ele foi descansar em casa, de castigo. Pensa ser de ferro. N\u00e3o \u00e9. Tem de se cuidar. H\u00e1 centenas de lan\u00e7amentos de autores v\u00e1rios, estreantes, repetentes ou delirantes, a serem feitos e s\u00f3 ele sabe cuidar disso com o seu jeito de quem n\u00e3o quer nada, mandando e-mails, correspond\u00eancia com convite para todo mundo, telefonemas lembrando o compromisso e levando u\u00edsque para molhar o bico dos amigos. Tudo boca-livre. Ele \u00e9 assim.<br \/>\nEstou lembrando tamb\u00e9m de outro poeta, ora virando memorialista, a comer de forma pantagru\u00e9lica. Come de ficar triste e vai embora. Come menos, cara. Lembro de outro amigo que se zanga facilmente. Para com isso, voc\u00ea sofre. Lembro de tanta coisa, mas n\u00e3o esque\u00e7o das nossas vidas, respons\u00e1veis e, qui\u00e7\u00e1, inconsequentes. A vida precisa ser cuidada. Ouviu, pessoal?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 29\/01\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou escrevendo no computador e ou\u00e7o um choro. \u00c9 a minha secret\u00e1ria esvaindo-se em l\u00e1grimas. Recebera um telefonema. Seu pai acabara de morrer. Perguntei a idade. Era mais novo do que eu. Fico meio apavorado. Fumava e bebia muito, ela disse. E a\u00ed lembrei do meu amigo poeta ao me passar recado de seu cardiologista, amigo comum, dizendo que ele, o poeta, n\u00e3o era hipertenso. N\u00e3o era, mas ser\u00e1, certamente. Ser\u00e1, pela simples raz\u00e3o do corpo pedir respeito. Pede com jeito: n\u00e3o coma demais, trabalho muito por conta disso. Pede com calma: n\u00e3o beba exagerado, veja seu f\u00edgado e as consequ\u00eancias para os rins. O amigo poeta, muitas vezes, n\u00e3o respeita seus limites. O corpo pede: v\u00e1 dormir, e ele fica madrugada afora, catando ins\u00f4nia.<br \/>\nMinha secret\u00e1ria continua chorando. O pai morava longe e l\u00e1 se vai ela. Liga para a m\u00e3e e o choro fica mais controlado. Consola a m\u00e3e e diz: logo estar\u00e1 chegando. Enquanto ela agora deve estar em uma dessas Brs esburacada, lembro do meu amigo cronista-psi tossindo feito um condenado. Tosse por fumar em demasia. Sabe disso e n\u00e3o cuida, mas diz se preocupar quando a minha press\u00e3o ascende ao bom ou ruim futebol do meu time. Continuo lembrando haver o pai da secret\u00e1ria morrido de infarto, mas invento, para mim: ele s\u00f3 morreu porque fumava e bebia. Todos morrem, nada a ver.<br \/>\nE a\u00ed lembro do amigo-editor, meio adoentado, semana dessas, por haver recebido um catatau de exames laboratoriais. Todos estavam bem, exceto um, o do colesterol e isso deve ter mexido com a cuca dele, e a\u00ed a press\u00e3o disparou e ele foi descansar em casa, de castigo. Pensa ser de ferro. N\u00e3o \u00e9. Tem de se cuidar. H\u00e1 centenas de lan\u00e7amentos de autores v\u00e1rios, estreantes, repetentes ou delirantes, a serem feitos e s\u00f3 ele sabe cuidar disso com o seu jeito de quem n\u00e3o quer nada, mandando e-mails, correspond\u00eancia com convite para todo mundo, telefonemas lembrando o compromisso e levando u\u00edsque para molhar o bico dos amigos. Tudo boca-livre. Ele \u00e9 assim.<br \/>\nEstou lembrando tamb\u00e9m de outro poeta, ora virando memorialista, a comer de forma pantagru\u00e9lica. Come de ficar triste e vai embora. Come menos, cara. Lembro de outro amigo que se zanga facilmente. Para com isso, voc\u00ea sofre. Lembro de tanta coisa, mas n\u00e3o esque\u00e7o das nossas vidas, respons\u00e1veis e, qui\u00e7\u00e1, inconsequentes. A vida precisa ser cuidada. Ouviu, pessoal?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 29\/01\/2006.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3567","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3567","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3567"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3567\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3567"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3567"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3567"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}