{"id":3569,"date":"2023-12-21T09:10:49","date_gmt":"2023-12-21T12:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ha-estrelas-no-ceu\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:49","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:49","slug":"ha-estrelas-no-ceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ha-estrelas-no-ceu\/","title":{"rendered":"H\u00c1 ESTRELAS NO C\u00c9U"},"content":{"rendered":"<p>Esta semana, o Cear\u00e1 perdeu duas estrelas. Jo\u00e3o Cl\u00edmaco Bezerra e Aldemir Martins. Vieram do Cariri, Jo\u00e3o Cl\u00edmaco, de Lavras da Mangabeira e, Aldemir, das Ingazeiras. Vieram pelos caminhos leg\u00edtimos, naturais e crescentes da vida. Passos lentos, olhares firmes e vontades fortes. H\u00e1 muitas biografias, resenhas, not\u00edcias e cr\u00edticas sobre cada um. N\u00e3o me proponho a isso. Desejo dizer apenas serem eles o milagre deste Cear\u00e1. S\u00e3o a esperan\u00e7a pessoal transformada em literatura e arte.<br \/>\nJo\u00e3o Cl\u00edmaco, o que veio primeiro, em 1913, fincou-se em Fortaleza, aqui viveu, formou-se em Direito, pertenceu ao grupo Cl\u00e3, ensinou, escreveu e, j\u00e1 maduro, mudou-se para o Rio de Janeiro, a trabalho. Aldemir veio nove anos depois (em 1922), sentou pra\u00e7a no Ex\u00e9rcito, participou da Sociedade Cearense de Artes Pl\u00e1sticas e daqui foi tamb\u00e9m para o Rio, em 1945, e no ano seguinte para S\u00e3o Paulo, de onde as suas artes e cores explodiram.<br \/>\nUm e outro eram cearenses exilados, mas as suas faces, jeito de andar e de falar tinham toda a cearensidade poss\u00edvel. Expressavam-se, por palavras e tintas, como vitoriosos em suas lutas e o faziam, um com a sutileza da cr\u00f4nica e o mist\u00e9rio do romance. O outro, resplandecia nos objetos e animais, as cores fortes que o sol lhe incrustara e dera forma na alma.<br \/>\nConheci Jo\u00e3o Cl\u00edmaco por sua cr\u00f4nica no jornal Unit\u00e1rio, dos Associados. Lia-o com os olhos de menino, a cabe\u00e7a tentando absorver o dito e o sugerido nas frases sempre bem tecidas e atadas. Depois, fui seu aluno na Escola de Administra\u00e7\u00e3o. Haviam-no feito professor de psicologia e l\u00e1 vinha ele de palet\u00f3, gravata de la\u00e7o grosso em croch\u00ea e livros a m\u00e3o, falar de behaviorismo e outros que tais. Uma vez, por conta da n\u00e3o regulamenta\u00e7\u00e3o da escola, fomos ao Rio em comitiva. Voltamos com a escola legalizada no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nVia sempre exposi\u00e7\u00f5es de Aldemir Martins, gostava de seus galos e gatos. Quando a Ignez Fi\u00faza o trazia para exposi\u00e7\u00f5es em sua galeria, eu ia por l\u00e1. Olhava o seu jeito meio manso, riso f\u00e1cil e instigante. E foi por l\u00e1 que comecei o meu pequeno terreiro, vigiado por cangaceiros, a cores e em bico de pena.<br \/>\nPassou o tempo, eles foram ficando por l\u00e1, at\u00e9 virarem as estrelas que Jo\u00e3o Cl\u00edmaco n\u00e3o encontrara no c\u00e9u em 1948. Est\u00e3o l\u00e1. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 12\/02\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta semana, o Cear\u00e1 perdeu duas estrelas. Jo\u00e3o Cl\u00edmaco Bezerra e Aldemir Martins. Vieram do Cariri, Jo\u00e3o Cl\u00edmaco, de Lavras da Mangabeira e, Aldemir, das Ingazeiras. Vieram pelos caminhos leg\u00edtimos, naturais e crescentes da vida. Passos lentos, olhares firmes e vontades fortes. H\u00e1 muitas biografias, resenhas, not\u00edcias e cr\u00edticas sobre cada um. N\u00e3o me proponho a isso. Desejo dizer apenas serem eles o milagre deste Cear\u00e1. S\u00e3o a esperan\u00e7a pessoal transformada em literatura e arte.<br \/>\nJo\u00e3o Cl\u00edmaco, o que veio primeiro, em 1913, fincou-se em Fortaleza, aqui viveu, formou-se em Direito, pertenceu ao grupo Cl\u00e3, ensinou, escreveu e, j\u00e1 maduro, mudou-se para o Rio de Janeiro, a trabalho. Aldemir veio nove anos depois (em 1922), sentou pra\u00e7a no Ex\u00e9rcito, participou da Sociedade Cearense de Artes Pl\u00e1sticas e daqui foi tamb\u00e9m para o Rio, em 1945, e no ano seguinte para S\u00e3o Paulo, de onde as suas artes e cores explodiram.<br \/>\nUm e outro eram cearenses exilados, mas as suas faces, jeito de andar e de falar tinham toda a cearensidade poss\u00edvel. Expressavam-se, por palavras e tintas, como vitoriosos em suas lutas e o faziam, um com a sutileza da cr\u00f4nica e o mist\u00e9rio do romance. O outro, resplandecia nos objetos e animais, as cores fortes que o sol lhe incrustara e dera forma na alma.<br \/>\nConheci Jo\u00e3o Cl\u00edmaco por sua cr\u00f4nica no jornal Unit\u00e1rio, dos Associados. Lia-o com os olhos de menino, a cabe\u00e7a tentando absorver o dito e o sugerido nas frases sempre bem tecidas e atadas. Depois, fui seu aluno na Escola de Administra\u00e7\u00e3o. Haviam-no feito professor de psicologia e l\u00e1 vinha ele de palet\u00f3, gravata de la\u00e7o grosso em croch\u00ea e livros a m\u00e3o, falar de behaviorismo e outros que tais. Uma vez, por conta da n\u00e3o regulamenta\u00e7\u00e3o da escola, fomos ao Rio em comitiva. Voltamos com a escola legalizada no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nVia sempre exposi\u00e7\u00f5es de Aldemir Martins, gostava de seus galos e gatos. Quando a Ignez Fi\u00faza o trazia para exposi\u00e7\u00f5es em sua galeria, eu ia por l\u00e1. Olhava o seu jeito meio manso, riso f\u00e1cil e instigante. E foi por l\u00e1 que comecei o meu pequeno terreiro, vigiado por cangaceiros, a cores e em bico de pena.<br \/>\nPassou o tempo, eles foram ficando por l\u00e1, at\u00e9 virarem as estrelas que Jo\u00e3o Cl\u00edmaco n\u00e3o encontrara no c\u00e9u em 1948. Est\u00e3o l\u00e1. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 12\/02\/2006.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3569","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3569","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3569"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3569\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}