{"id":3570,"date":"2023-12-21T09:10:49","date_gmt":"2023-12-21T12:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/utopia-e-a-realidade\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:49","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:49","slug":"utopia-e-a-realidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/utopia-e-a-realidade\/","title":{"rendered":"UTOPIA E A REALIDADE"},"content":{"rendered":"<p>Um dia desses, meio por acaso, acessei um desses canais alternativos, de audi\u00eancia tida como zero, e, para surpresa minha, l\u00e1 estava Jos\u00e9 Saramago, o \u00fanico pr\u00eamio Nobel de literatura dos pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa. Pois bem, Saramago, ficcionista dos melhores, dizia, para pasmo de todos, ser contra a utopia, como a queriam Plat\u00e3o em sua Rep\u00fablica e, depois, muito depois, Thomas Morus. Para Morus, a Ilha da Utopia deveria ser lastreada em dois pressupostos: a aboli\u00e7\u00e3o da propriedade privada e a limita\u00e7\u00e3o das ambi\u00e7\u00f5es pessoais \u00e0 necessidade de suprir os interesses coletivos.<br \/>\nSe vi e ouvi bem, e posso n\u00e3o reproduzir com fidelidade, Saramago, a quem tive a oportunidade de ver fugazmente em uma feira de livros l\u00e1 na Marqu\u00eas de Pombal, perto da Estufa Fria, em Lisboa, falava que o dia de amanh\u00e3 \u00e9 a nossa utopia. E o dia imediato s\u00f3 reproduz o trabalho de hoje. Nada mais ch\u00e3o, mais terra a terra. Nada de intermit\u00eancias da morte, nada de memorial de convento. Era o l\u00facido senhor do alto da sua maturidade, mesmo com toda a sua equipagem marxista, dizendo que a vida se faz com trabalho, caminho, determina\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s de utopia.<br \/>\nOra, utopos \u00e9 nenhum lugar, qualquer lugar, ou um lugar que n\u00e3o h\u00e1. O que h\u00e1 parece ser o caloteiro com cara de s\u00e9rio, os puxa-sacos, a viol\u00eancia crescente, a pobreza renitente, a doen\u00e7a escondida, a sordidez das p\u00e1ginas policiais, a promessa n\u00e3o cumprida dos que anunciam muito e se desfazem em desencantos. Mas, o mundo real n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o que foi dito acima, \u00e9 muito mais que isso. Ele \u00e9 tamb\u00e9m produto da luta humana, da dedica\u00e7\u00e3o dos que n\u00e3o est\u00e3o tramando, enganando, confabulando, matraqueando inconsequentemente, mas aqueles que est\u00e3o fazendo a sua parte, as tais formiguinhas que muitos gostariam de ser, cigarras que s\u00e3o e nunca formigas ser\u00e3o. Mas, a utopia, paradoxalmente, mesmo que n\u00e3o saibamos, \u00e9 o que faz o nosso caminho, seja com trabalho \u00e1rduo, paci\u00eancia, tenacidade, ou olhos nas transforma\u00e7\u00f5es, esse vir a ser que come\u00e7a a cada dia e nos impulsiona dos sonhos \u00e0 realidade, a que recebemos com todos os sentidos e com a import\u00e2ncia da vida.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 19\/02\/2006<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia desses, meio por acaso, acessei um desses canais alternativos, de audi\u00eancia tida como zero, e, para surpresa minha, l\u00e1 estava Jos\u00e9 Saramago, o \u00fanico pr\u00eamio Nobel de literatura dos pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa. Pois bem, Saramago, ficcionista dos melhores, dizia, para pasmo de todos, ser contra a utopia, como a queriam Plat\u00e3o em sua Rep\u00fablica e, depois, muito depois, Thomas Morus. Para Morus, a Ilha da Utopia deveria ser lastreada em dois pressupostos: a aboli\u00e7\u00e3o da propriedade privada e a limita\u00e7\u00e3o das ambi\u00e7\u00f5es pessoais \u00e0 necessidade de suprir os interesses coletivos.<br \/>\nSe vi e ouvi bem, e posso n\u00e3o reproduzir com fidelidade, Saramago, a quem tive a oportunidade de ver fugazmente em uma feira de livros l\u00e1 na Marqu\u00eas de Pombal, perto da Estufa Fria, em Lisboa, falava que o dia de amanh\u00e3 \u00e9 a nossa utopia. E o dia imediato s\u00f3 reproduz o trabalho de hoje. Nada mais ch\u00e3o, mais terra a terra. Nada de intermit\u00eancias da morte, nada de memorial de convento. Era o l\u00facido senhor do alto da sua maturidade, mesmo com toda a sua equipagem marxista, dizendo que a vida se faz com trabalho, caminho, determina\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s de utopia.<br \/>\nOra, utopos \u00e9 nenhum lugar, qualquer lugar, ou um lugar que n\u00e3o h\u00e1. 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