{"id":3575,"date":"2023-12-21T09:10:49","date_gmt":"2023-12-21T12:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/oracao-coco-chuva-e-sol\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:49","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:49","slug":"oracao-coco-chuva-e-sol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/oracao-coco-chuva-e-sol\/","title":{"rendered":"ORA\u00c7\u00c3O, C\u00d4CO, CHUVA E SOL"},"content":{"rendered":"<p>Estava andando pela areia da praia. Em meio a nuvens carregadas o sol pedia licen\u00e7a para sair e mostrar-se pleno. Era manh\u00e3 cedo e procurei ver o meu derredor. Do lado esquerdo, perto de um espig\u00e3o, um grupo de pessoas orava. Havia uma cruz de madeira fincada ao solo. Delimitava espa\u00e7o e definia atitude. Estavam sentados em bancos improvisados de madeira, formando c\u00edrculos. N\u00e3o cheguei t\u00e3o perto para ouvir o que oravam, mas dava para ver o estado de contri\u00e7\u00e3o de cada um. Pareciam estar a pedir prote\u00e7\u00e3o para as suas vidas, fam\u00edlias e atividades. Mais \u00e0 frente, na primeira curva, algu\u00e9m montara uma venda improvisada de \u00e1gua de coco que poderia ser tomada em copos descart\u00e1veis ou em canudos devidamente encapsulados. Na precariedade do trabalho havia um m\u00ednimo de higiene e um atendimento cordial de um trabalhador desse tal mercado informal.<br \/>\nEle estava ali porque certamente perdera emprego ou viera de uma paragem qualquer de uma cidade distante, banido pelo desengano. Mas tomara tento. Acreditava no que estava fazendo e usava uma flanela meio suja e \u00famida para limpar os cocos guardados em um grande isopor com gelo. A roupa, o corpo e as atitudes n\u00e3o mostravam uma pessoa derrotada, mas algu\u00e9m que lutava com as for\u00e7as que tinha e do jeito que podia para apenas varar o dia.<br \/>\nLogo \u00e0 frente, um misto de guardador de carros ou flanelinha acena e ri com a fortaleza dos que sabem descobrir sa\u00eddas, mesmo que tudo esteja adverso. Outra imagem, outro ensinamento a colher, por tantos que imaginam estar se cuidando e n\u00e3o ousam ver o seu derredor, t\u00e3o pobre e t\u00e3o rico.<br \/>\nVou caminhando, o sol desaparece, cai uma chuva r\u00e1pida, mas bastante forte para misturar-se ao suor de cada um, como se fosse un\u00e7\u00e3o a dizer que a \u00e1gua \u00e9 s\u00edmbolo de refrig\u00e9rio, de b\u00ean\u00e7\u00e3o, de lavagem das m\u00e1goas, ressentimentos e, ao mesmo tempo, um toque sutil em cada pessoa dando-lhe esperan\u00e7as, limpando-a e preparando-a para o novo dia. E o sol volta, agora com for\u00e7a, e os seus raios recaem sobre um grupo de estrangeiros sentado ao derredor de uma barraca a beber e conversar, mais por m\u00edmica e afetos que por palavras, com jovens mulheres ainda em trajes usados para a noite de trabalho que podem ter tido, n\u00e3o se sabe a que pre\u00e7o, por quais raz\u00f5es e com quais sentimentos.<br \/>\nPouco al\u00e9m, muitas pessoas obedecem a um instrutor e tentam alongar seus m\u00fasculos, como se estivessem procurando estirar seu tempo no mundo. E o instrutor fala firme, corrige, exemplifica e vai mudando de comando, assim como a dizer que p\u00e9s, pernas, coxas, cintura, abdome, ombros, bra\u00e7os, m\u00e3os, pesco\u00e7o e cabe\u00e7a, precisam de aten\u00e7\u00e3o como se cada um deles estivesse cobrando a parte que lhe toca neste bailado sem m\u00fasica, mas ritmado pela esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 26\/03\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava andando pela areia da praia. Em meio a nuvens carregadas o sol pedia licen\u00e7a para sair e mostrar-se pleno. Era manh\u00e3 cedo e procurei ver o meu derredor. Do lado esquerdo, perto de um espig\u00e3o, um grupo de pessoas orava. Havia uma cruz de madeira fincada ao solo. Delimitava espa\u00e7o e definia atitude. Estavam sentados em bancos improvisados de madeira, formando c\u00edrculos. N\u00e3o cheguei t\u00e3o perto para ouvir o que oravam, mas dava para ver o estado de contri\u00e7\u00e3o de cada um. Pareciam estar a pedir prote\u00e7\u00e3o para as suas vidas, fam\u00edlias e atividades. Mais \u00e0 frente, na primeira curva, algu\u00e9m montara uma venda improvisada de \u00e1gua de coco que poderia ser tomada em copos descart\u00e1veis ou em canudos devidamente encapsulados. Na precariedade do trabalho havia um m\u00ednimo de higiene e um atendimento cordial de um trabalhador desse tal mercado informal.<br \/>\nEle estava ali porque certamente perdera emprego ou viera de uma paragem qualquer de uma cidade distante, banido pelo desengano. Mas tomara tento. Acreditava no que estava fazendo e usava uma flanela meio suja e \u00famida para limpar os cocos guardados em um grande isopor com gelo. A roupa, o corpo e as atitudes n\u00e3o mostravam uma pessoa derrotada, mas algu\u00e9m que lutava com as for\u00e7as que tinha e do jeito que podia para apenas varar o dia.<br \/>\nLogo \u00e0 frente, um misto de guardador de carros ou flanelinha acena e ri com a fortaleza dos que sabem descobrir sa\u00eddas, mesmo que tudo esteja adverso. Outra imagem, outro ensinamento a colher, por tantos que imaginam estar se cuidando e n\u00e3o ousam ver o seu derredor, t\u00e3o pobre e t\u00e3o rico.<br \/>\nVou caminhando, o sol desaparece, cai uma chuva r\u00e1pida, mas bastante forte para misturar-se ao suor de cada um, como se fosse un\u00e7\u00e3o a dizer que a \u00e1gua \u00e9 s\u00edmbolo de refrig\u00e9rio, de b\u00ean\u00e7\u00e3o, de lavagem das m\u00e1goas, ressentimentos e, ao mesmo tempo, um toque sutil em cada pessoa dando-lhe esperan\u00e7as, limpando-a e preparando-a para o novo dia. E o sol volta, agora com for\u00e7a, e os seus raios recaem sobre um grupo de estrangeiros sentado ao derredor de uma barraca a beber e conversar, mais por m\u00edmica e afetos que por palavras, com jovens mulheres ainda em trajes usados para a noite de trabalho que podem ter tido, n\u00e3o se sabe a que pre\u00e7o, por quais raz\u00f5es e com quais sentimentos.<br \/>\nPouco al\u00e9m, muitas pessoas obedecem a um instrutor e tentam alongar seus m\u00fasculos, como se estivessem procurando estirar seu tempo no mundo. 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