{"id":3582,"date":"2023-12-21T09:10:49","date_gmt":"2023-12-21T12:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/quem-somos-realmente\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:49","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:49","slug":"quem-somos-realmente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/quem-somos-realmente\/","title":{"rendered":"QUEM SOMOS, REALMENTE?"},"content":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m pergunta, talvez a t\u00edtulo de especula\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica: o que leva voc\u00ea a classificar, rotular ou definir lugares e pessoas? Que lugares e pessoas? retruco. Qualquer pessoa, em qualquer lugar. Pode ser em um bar, restaurante, hotel, casa, avi\u00e3o etc. Fiquei pensando. A pergunta era meio vaga e dava margem a pensar em qualquer coisa. E foi a\u00ed que pensei na \u00faltima coisa que imaginaria. Disse: banheiro. A raz\u00e3o, qual a raz\u00e3o?<br \/>\nE me vi em tantos banheiros espalhados pelo mundo, espa\u00e7os diminutos que dizem muito de quem os construiu, mais ainda de quem os cuida e desnuda quem os usa.<br \/>\nImagine um restaurante \u00e0 margem de uma estrada neste nosso Brasil. Estou falando dos lugares onde todos param e j\u00e1 chegam procurando saber onde fica o banheiro. Primeira porta \u00e0 direita, pois os banheiros s\u00e3o socializados, mas tendem sempre para a destra, mesmo quando s\u00e3o sinistros em odores e formas. E h\u00e1 ainda os que est\u00e3o fechados e a chave nos \u00e9 entregue como se fora o cond\u00e3o para o para\u00edso com um olhar duro pedindo a r\u00e1pida devolu\u00e7\u00e3o, depois de avaliar o nosso car\u00e1ter.<br \/>\nE a\u00ed chegamos ao dito cujo. Chegamos, n\u00e3o \u00e9 bem o termo. Ele chega at\u00e9 n\u00f3s, em primeiro lugar, pelo evolar de gases e nos deparamos com a realidade sociol\u00f3gica que nos faz lembrar os que imaginam poder decifrar a alma das gentes, tal como proposto no in\u00edcio e j\u00e1 ando meio perdido aqui pelo meio. Pois bem, depois dos gases e odores, vem a realidade crua da descarga quebrada, da tampa cambaia, quando existe, e o desejo de sair r\u00e1pido dali.<br \/>\nSa\u00edamos do restaurante de estrada e penetremos no \u201cbanheiro social\u201d de um clube. A primeira indaga\u00e7\u00e3o: por qual raz\u00e3o o tal social? A segunda, por que a maioria dos homens faz xixi e n\u00e3o lava as m\u00e3os? A terceira, por que os vasos sanit\u00e1rios e mict\u00f3rios n\u00e3o seguem uma linha cubista a la Salvador Dali e n\u00e3o t\u00eam um desvio para a esquerda?<br \/>\nAgora, estamos em um voo longo, desses que varam a noite. Amanhece: o banheiro est\u00e1 sujo, pap\u00e9is higi\u00eanicos ao ch\u00e3o e na pia, detritos. Terra \u00e0 vista, solo. Vamos direto \u00e0 casa de um emergente, desses que entregam seu habitat \u00e0s vontades e ao gosto de quem o ambienta. E a\u00ed pensamos, como seria bom que todos tivessem no\u00e7\u00e3o que um banheiro ou lavabo deve ser apenas adequado e limpo, sem aqueles adere\u00e7os, que o fazem parecer uma lapinha.<br \/>\nE ent\u00e3o, porque cansamos de andar por a\u00ed, voltamos \u00e0 nossa morada. Chegamos, tiramos a roupa e vamos, imaginem, ao banheiro. E a\u00ed, defronte ao espelho e na nudez sem castigo, somos, finalmente, o que realmente somos. E ser\u00e1 que caberia a pergunta: quem somos, realmente? <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 14\/05\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m pergunta, talvez a t\u00edtulo de especula\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica: o que leva voc\u00ea a classificar, rotular ou definir lugares e pessoas? Que lugares e pessoas? retruco. Qualquer pessoa, em qualquer lugar. Pode ser em um bar, restaurante, hotel, casa, avi\u00e3o etc. Fiquei pensando. A pergunta era meio vaga e dava margem a pensar em qualquer coisa. E foi a\u00ed que pensei na \u00faltima coisa que imaginaria. Disse: banheiro. A raz\u00e3o, qual a raz\u00e3o?<br \/>\nE me vi em tantos banheiros espalhados pelo mundo, espa\u00e7os diminutos que dizem muito de quem os construiu, mais ainda de quem os cuida e desnuda quem os usa.<br \/>\nImagine um restaurante \u00e0 margem de uma estrada neste nosso Brasil. Estou falando dos lugares onde todos param e j\u00e1 chegam procurando saber onde fica o banheiro. Primeira porta \u00e0 direita, pois os banheiros s\u00e3o socializados, mas tendem sempre para a destra, mesmo quando s\u00e3o sinistros em odores e formas. E h\u00e1 ainda os que est\u00e3o fechados e a chave nos \u00e9 entregue como se fora o cond\u00e3o para o para\u00edso com um olhar duro pedindo a r\u00e1pida devolu\u00e7\u00e3o, depois de avaliar o nosso car\u00e1ter.<br \/>\nE a\u00ed chegamos ao dito cujo. Chegamos, n\u00e3o \u00e9 bem o termo. Ele chega at\u00e9 n\u00f3s, em primeiro lugar, pelo evolar de gases e nos deparamos com a realidade sociol\u00f3gica que nos faz lembrar os que imaginam poder decifrar a alma das gentes, tal como proposto no in\u00edcio e j\u00e1 ando meio perdido aqui pelo meio. Pois bem, depois dos gases e odores, vem a realidade crua da descarga quebrada, da tampa cambaia, quando existe, e o desejo de sair r\u00e1pido dali.<br \/>\nSa\u00edamos do restaurante de estrada e penetremos no \u201cbanheiro social\u201d de um clube. A primeira indaga\u00e7\u00e3o: por qual raz\u00e3o o tal social? A segunda, por que a maioria dos homens faz xixi e n\u00e3o lava as m\u00e3os? 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E ser\u00e1 que caberia a pergunta: quem somos, realmente? <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 14\/05\/2006.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3582","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3582","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3582"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3582\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3582"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3582"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3582"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}