{"id":3588,"date":"2023-12-21T09:10:49","date_gmt":"2023-12-21T12:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/patativa-e-o-preconceito\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:49","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:49","slug":"patativa-e-o-preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/patativa-e-o-preconceito\/","title":{"rendered":"PATATIVA E O PRECONCEITO"},"content":{"rendered":"<p>Alguns intelectuais, entre eles amigos queridos, ficaram incomodados com a escolha de Patativa do Assar\u00e9 como um dos nomes, da lista de dez autores para o vestibular da Universidade Federal do Cear\u00e1. Afirmam que Patativa n\u00e3o \u00e9 poeta, pois foge aos c\u00e2nones lingu\u00edsticos, morfol\u00f3gicos e sint\u00e1ticos determinados pelo saber acad\u00eamico. Ora, ora.<br \/>\nPatativa \u00e9 poeta sim, mais poeta que muitos que sabem usar met\u00e1foras, metrifica\u00e7\u00e3o, rimas ricas, metalinguagem, pois seguem as regras da po\u00e9tica e conhecem teoria e versifica\u00e7\u00e3o. De nada disso precisou Patativa. Extraiu de suas dores, do viver e da pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o, o ritmo e a beleza do que versejava de improviso e hoje \u00e9 objeto de estudo acad\u00eamico em v\u00e1rias universidades.<br \/>\nAriano Suassuna diz que \u201cum escritor nascido no Nordeste, tem que ser t\u00e3o fiel ao seu local de nascimento e \u00e0 sua comunidade como Guimar\u00e3es Rosa foi fiel a Minas.\u201d Quem poder\u00e1 negar isso de Patativa que, at\u00e9 no nome, mostra o local onde nasceu? O grande problema \u00e9 que por n\u00e3o usar imagens, s\u00edmbolos, met\u00e1foras e ret\u00f3rica consagrados na arte cl\u00e1ssica de poetar, Patativa seria \u201cum poeta menor\u201d, um simples cordelista e n\u00e3o mereceria destaque de uma comiss\u00e3o douta que, por justi\u00e7a e nordestinidade, teve a sensibilidade de escolher Patativa como tema para estudo por jovens vestibulandos. Esses, em sua maioria, n\u00e3o d\u00e3o valor \u00e0s suas origens, engolfados por uma linguagem \u201ctipo assim\u201d, global e factual.<br \/>\nPatativa, de poucas letras e muito saber, falou at\u00e9 sobre Luiz de Cam\u00f5es, o maior poeta da l\u00edngua portuguesa: \u201cAqui de long\u00ednqua serra, de Cam\u00f5es o que direi? Quer na paz ou quer na guerra que ele foi grande eu bem sei, exaltou a sua terra mais do que seu pr\u00f3prio rei e por isso \u00e9 novo no cora\u00e7\u00e3o do seu povo e eu, que das coisas terrestres tenho bem poucas no\u00e7\u00f5es, porque n\u00e3o tive dos mestres as preciosas li\u00e7\u00f5es, s\u00f3 tenho flores silvestres pra coroa de Cam\u00f5es, veja a minha pequenez ante o bardo portugu\u00eas.\u201d.<br \/>\nEscolhido \u201cDoutor Honoris Causa\u201d, \u201cCearense do S\u00e9culo\u201d e tendo ganhado a \u201cSereia de Ouro\u201d, n\u00e3o poderia ser alijado e esquecido pela UFC que sempre seguiu a m\u00e1xima \u201co universal, pelo regional\u201d? Est\u00e1 na hora de se misturar literatura com vida, com o real, esquecendo os encastelamentos, as tert\u00falias que pouco ou nada criam, a arte que n\u00e3o tem compradores e seguidores, e partir para uma vis\u00e3o menos elitista, mais simples, verdadeira e fiel \u00e0s origens que muitos procuram esquecer.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 25\/06\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns intelectuais, entre eles amigos queridos, ficaram incomodados com a escolha de Patativa do Assar\u00e9 como um dos nomes, da lista de dez autores para o vestibular da Universidade Federal do Cear\u00e1. Afirmam que Patativa n\u00e3o \u00e9 poeta, pois foge aos c\u00e2nones lingu\u00edsticos, morfol\u00f3gicos e sint\u00e1ticos determinados pelo saber acad\u00eamico. Ora, ora.<br \/>\nPatativa \u00e9 poeta sim, mais poeta que muitos que sabem usar met\u00e1foras, metrifica\u00e7\u00e3o, rimas ricas, metalinguagem, pois seguem as regras da po\u00e9tica e conhecem teoria e versifica\u00e7\u00e3o. De nada disso precisou Patativa. Extraiu de suas dores, do viver e da pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o, o ritmo e a beleza do que versejava de improviso e hoje \u00e9 objeto de estudo acad\u00eamico em v\u00e1rias universidades.<br \/>\nAriano Suassuna diz que \u201cum escritor nascido no Nordeste, tem que ser t\u00e3o fiel ao seu local de nascimento e \u00e0 sua comunidade como Guimar\u00e3es Rosa foi fiel a Minas.\u201d Quem poder\u00e1 negar isso de Patativa que, at\u00e9 no nome, mostra o local onde nasceu? O grande problema \u00e9 que por n\u00e3o usar imagens, s\u00edmbolos, met\u00e1foras e ret\u00f3rica consagrados na arte cl\u00e1ssica de poetar, Patativa seria \u201cum poeta menor\u201d, um simples cordelista e n\u00e3o mereceria destaque de uma comiss\u00e3o douta que, por justi\u00e7a e nordestinidade, teve a sensibilidade de escolher Patativa como tema para estudo por jovens vestibulandos. Esses, em sua maioria, n\u00e3o d\u00e3o valor \u00e0s suas origens, engolfados por uma linguagem \u201ctipo assim\u201d, global e factual.<br \/>\nPatativa, de poucas letras e muito saber, falou at\u00e9 sobre Luiz de Cam\u00f5es, o maior poeta da l\u00edngua portuguesa: \u201cAqui de long\u00ednqua serra, de Cam\u00f5es o que direi? Quer na paz ou quer na guerra que ele foi grande eu bem sei, exaltou a sua terra mais do que seu pr\u00f3prio rei e por isso \u00e9 novo no cora\u00e7\u00e3o do seu povo e eu, que das coisas terrestres tenho bem poucas no\u00e7\u00f5es, porque n\u00e3o tive dos mestres as preciosas li\u00e7\u00f5es, s\u00f3 tenho flores silvestres pra coroa de Cam\u00f5es, veja a minha pequenez ante o bardo portugu\u00eas.\u201d.<br \/>\nEscolhido \u201cDoutor Honoris Causa\u201d, \u201cCearense do S\u00e9culo\u201d e tendo ganhado a \u201cSereia de Ouro\u201d, n\u00e3o poderia ser alijado e esquecido pela UFC que sempre seguiu a m\u00e1xima \u201co universal, pelo regional\u201d? Est\u00e1 na hora de se misturar literatura com vida, com o real, esquecendo os encastelamentos, as tert\u00falias que pouco ou nada criam, a arte que n\u00e3o tem compradores e seguidores, e partir para uma vis\u00e3o menos elitista, mais simples, verdadeira e fiel \u00e0s origens que muitos procuram esquecer.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 25\/06\/2006.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3588","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3588","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3588"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3588\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3588"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3588"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3588"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}