{"id":3590,"date":"2023-12-21T09:10:49","date_gmt":"2023-12-21T12:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-estrela-perdida\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:49","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:49","slug":"a-estrela-perdida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-estrela-perdida\/","title":{"rendered":"A ESTRELA PERDIDA"},"content":{"rendered":"<p>Escrevi, aqui neste mesmo espa\u00e7o deste DN, que futebol n\u00e3o tem l\u00f3gica. Futebol \u00e9 arte, muito mais que qualquer coisa. E arte n\u00e3o se faz com coer\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, arte \u00e9 desobedi\u00eancia ao previsto, \u00e9 encontro da inspira\u00e7\u00e3o e desafio da n\u00e3o mesmice. Disse tamb\u00e9m: mas temo pelo burocratismo do Parreira, um cruzamento de monitor de autoajuda com bedel de internato antigo. Parreira \u00e9 o rei da coer\u00eancia e deu no que deu. Zidane e sua turma foram a arte aplicada, mais que jogadores de futebol. Eles pareciam brasileiros e os brasileiros n\u00e3o pareciam com ningu\u00e9m. N\u00e3o foi s\u00f3 perder, mas perder sem muita luta, em meio a um des\u00e2nimo tropical que entorpecia a coragem esperada, a categoria alardeada e a genialidade cantada pelo \u201ccompetente\u201d Galv\u00e3o Bueno e pela \u201crep\u00f3rter esportiva\u201d F\u00e1tima Bernardes.<br \/>\nPerdemos a sexta estrela, n\u00e3o um hexa, pois para ser hexa deveria ter sido uma sequ\u00eancia de seis copas. Mas a m\u00eddia e a publicidade desenfreada iludiram a maioria dos brasileiros, especialmente aqueles que n\u00e3o acompanham futebol e s\u00e3o apenas \u201ccopeiros\u201d, se fantasiam e ficam gritando \u00e0 frente das televis\u00f5es. Era uma explos\u00e3o de m\u00fasicas, de entrevistas com pais dos jogadores, com namoradas e at\u00e9 amigos. Era uma alegria antecipada, uma esp\u00e9cie de catarse coletiva, evas\u00e3o da realidade que nos impelia para um vazio existencial, por conta da descren\u00e7a no dia-a-dia.<br \/>\nAssim, vamos ter que voltar para a tal da coer\u00eancia do Parreira, ele que se dizia gestor de talentos. E eu dizia por escrito: talento n\u00e3o se administra. A estrela pode ter sido perdida antes, como uma ou outra que nos cobriu de desesperan\u00e7a, pois imagin\u00e1vamos que fosse \u00e0 prova dos vendavais que engodam, mistificam comportamentos, desviam valores, atordoam intelig\u00eancias e machucam o amor pr\u00f3prio.<br \/>\nAgora, vamos ter uma outra copa, a elei\u00e7\u00e3o de outubro, com muita gente dizendo que \u00e9 tamb\u00e9m o melhor do mundo. Acreditem n\u00e3o, v\u00e1 atr\u00e1s da vida de cada um. N\u00e3o do que disseram, mas do que fizeram. Procurem saber onde moravam e onde moram, quem s\u00e3o seus aliados e relembre da elei\u00e7\u00e3o passada, vale a pena conhecer a quem estavam ligados e diziam loas. Confiram as promessas, vejam as amizades e o desempenho.<br \/>\nA arte de ser brasileiro, gl\u00f3ria e agonia, precisa ser levada a uma express\u00e3o mais profunda, sem patacoadas, sem bobices que podem qualificar os adjetivos que alguns preconceituosos do primeiro mundo nos impingem, por conta dessa exoticidade que permite que, justo eles, digam que n\u00e3o somos um pa\u00eds s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 09\/07\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevi, aqui neste mesmo espa\u00e7o deste DN, que futebol n\u00e3o tem l\u00f3gica. Futebol \u00e9 arte, muito mais que qualquer coisa. E arte n\u00e3o se faz com coer\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, arte \u00e9 desobedi\u00eancia ao previsto, \u00e9 encontro da inspira\u00e7\u00e3o e desafio da n\u00e3o mesmice. Disse tamb\u00e9m: mas temo pelo burocratismo do Parreira, um cruzamento de monitor de autoajuda com bedel de internato antigo. Parreira \u00e9 o rei da coer\u00eancia e deu no que deu. Zidane e sua turma foram a arte aplicada, mais que jogadores de futebol. Eles pareciam brasileiros e os brasileiros n\u00e3o pareciam com ningu\u00e9m. N\u00e3o foi s\u00f3 perder, mas perder sem muita luta, em meio a um des\u00e2nimo tropical que entorpecia a coragem esperada, a categoria alardeada e a genialidade cantada pelo \u201ccompetente\u201d Galv\u00e3o Bueno e pela \u201crep\u00f3rter esportiva\u201d F\u00e1tima Bernardes.<br \/>\nPerdemos a sexta estrela, n\u00e3o um hexa, pois para ser hexa deveria ter sido uma sequ\u00eancia de seis copas. Mas a m\u00eddia e a publicidade desenfreada iludiram a maioria dos brasileiros, especialmente aqueles que n\u00e3o acompanham futebol e s\u00e3o apenas \u201ccopeiros\u201d, se fantasiam e ficam gritando \u00e0 frente das televis\u00f5es. Era uma explos\u00e3o de m\u00fasicas, de entrevistas com pais dos jogadores, com namoradas e at\u00e9 amigos. Era uma alegria antecipada, uma esp\u00e9cie de catarse coletiva, evas\u00e3o da realidade que nos impelia para um vazio existencial, por conta da descren\u00e7a no dia-a-dia.<br \/>\nAssim, vamos ter que voltar para a tal da coer\u00eancia do Parreira, ele que se dizia gestor de talentos. E eu dizia por escrito: talento n\u00e3o se administra. A estrela pode ter sido perdida antes, como uma ou outra que nos cobriu de desesperan\u00e7a, pois imagin\u00e1vamos que fosse \u00e0 prova dos vendavais que engodam, mistificam comportamentos, desviam valores, atordoam intelig\u00eancias e machucam o amor pr\u00f3prio.<br \/>\nAgora, vamos ter uma outra copa, a elei\u00e7\u00e3o de outubro, com muita gente dizendo que \u00e9 tamb\u00e9m o melhor do mundo. Acreditem n\u00e3o, v\u00e1 atr\u00e1s da vida de cada um. N\u00e3o do que disseram, mas do que fizeram. Procurem saber onde moravam e onde moram, quem s\u00e3o seus aliados e relembre da elei\u00e7\u00e3o passada, vale a pena conhecer a quem estavam ligados e diziam loas. 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