{"id":3592,"date":"2023-12-21T09:10:49","date_gmt":"2023-12-21T12:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/pracinha-do-interior\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:49","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:49","slug":"pracinha-do-interior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/pracinha-do-interior\/","title":{"rendered":"PRACINHA DO INTERIOR"},"content":{"rendered":"<p>Domingo passado resolvi sentar em um bar na pracinha central de Pacoti, simp\u00e1tica e agrad\u00e1vel cidade no maci\u00e7o de Baturit\u00e9, forma\u00e7\u00e3o de serra que ainda preserva vegeta\u00e7\u00e3o densa e bonita e cujo clima d\u00e1 a fugidia lembran\u00e7a de outonos do outro hemisf\u00e9rio.<br \/>\nA pra\u00e7a, um ajuntamento de ideias desconexas que parece ter passado longe dos olhos de urbanistas ou paisagistas, pouco arborizada, cimentada e asfaltada, \u00e9 o ponto de encontro de todos. Aos domingos, a feira armada em barracas de lona, \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o minimalista desses mercados ambulantes espalhados pelo Brasil afora que conseguem juntar a venda de cds e dvds piratas, rel\u00f3gios, r\u00e1dios, sons, bon\u00e9s, camisas e t\u00eanis falsificados, roupas para todos os sexos e gostos e outras bugigangas mais. S\u00f3 n\u00e3o vi produtos regionais, nada que tivesse a cara da cidade, da criatividade e da artesania local.<br \/>\nVi dois ou tr\u00eas \u201cguardas de tr\u00e2nsito\u201d locais, sem fardas, mas com crach\u00e1s, walkie talks e apitos, comandando o tr\u00e2nsito para \u201criba\u201d e para baixo, com gesticula\u00e7\u00f5es fortes, sopros poderosos e a ajuda de cones de pl\u00e1sticos. Vi uma banda de m\u00fasica, sobre um palanque armado, tocando dobrados, m\u00fasicas populares e at\u00e9 o Hino Nacional, mas ningu\u00e9m ouvia ou se comovia, pois s\u00f3 em tempo de Copa do Mundo \u00e9 que o nosso hino \u00e9 cantado, as l\u00e1grimas afloram e o patriotismo toma cerveja.<br \/>\nAutom\u00f3veis, motos, grandes camionetas com apenas o guiador, carros de bombeiros e da pol\u00edcia, \u00f4nibus imensos e caminh\u00f5es paus-de-arara carregando gente e carga, disputavam o espa\u00e7o das ruas estreitas j\u00e1 atravancadas por ve\u00edculos e motos parados de qualquer jeito e decidiam se iam para \u201criba\u201d ou para baixo, pois o que queriam mesmo era passar pela pra\u00e7a, verem e serem vistos, com buzina\u00e7\u00f5es tonitruantes.<br \/>\nFalei que estava sentado em um bar. Era um bar simples, mesas de compensado sem toalhas e apinhado de gente. Por l\u00e1, al\u00e9m dos nativos, magistrados, secret\u00e1rios de estado, empres\u00e1rios, radialistas, jornalistas, professores universit\u00e1rios e sitiantes que passam os fins-de-semana pelas redondezas. E o card\u00e1pio oferecia duas op\u00e7\u00f5es: panelada e buchada com cerveja e cacha\u00e7a em robustos copos de vidro, ao mesmo tempo em que b\u00eabados contumazes pediam uma \u201cbicada\u201d e se escoravam nos portais. At\u00e9 que surgiu uma jovem nervosa, jaqueta de marca de grife amarrada sobre os quadris. Ela trazia c\u00f3pias do retrato, impressas em folhas de papel, de um mo\u00e7o universit\u00e1rio de Bras\u00edlia que ali se perdera duas noites antes. Ele tinha 19 anos, alto, bem-apessoado, sofria de depress\u00e3o e disse para a turma de parentes e amigos que iria ao banheiro. Ningu\u00e9m mais o viu e eu fiquei me indagando por que teria desaparecido. Teria sido pelo barulho ensurdecedor que incomodara o seu pensar despovoado? Seria por conta de mal de amores que o tornava diverso do grupo? Ou o que teria sido? Ter\u00e1 aparecido? <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 23\/07\/2006<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Domingo passado resolvi sentar em um bar na pracinha central de Pacoti, simp\u00e1tica e agrad\u00e1vel cidade no maci\u00e7o de Baturit\u00e9, forma\u00e7\u00e3o de serra que ainda preserva vegeta\u00e7\u00e3o densa e bonita e cujo clima d\u00e1 a fugidia lembran\u00e7a de outonos do outro hemisf\u00e9rio.<br \/>\nA pra\u00e7a, um ajuntamento de ideias desconexas que parece ter passado longe dos olhos de urbanistas ou paisagistas, pouco arborizada, cimentada e asfaltada, \u00e9 o ponto de encontro de todos. Aos domingos, a feira armada em barracas de lona, \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o minimalista desses mercados ambulantes espalhados pelo Brasil afora que conseguem juntar a venda de cds e dvds piratas, rel\u00f3gios, r\u00e1dios, sons, bon\u00e9s, camisas e t\u00eanis falsificados, roupas para todos os sexos e gostos e outras bugigangas mais. S\u00f3 n\u00e3o vi produtos regionais, nada que tivesse a cara da cidade, da criatividade e da artesania local.<br \/>\nVi dois ou tr\u00eas \u201cguardas de tr\u00e2nsito\u201d locais, sem fardas, mas com crach\u00e1s, walkie talks e apitos, comandando o tr\u00e2nsito para \u201criba\u201d e para baixo, com gesticula\u00e7\u00f5es fortes, sopros poderosos e a ajuda de cones de pl\u00e1sticos. 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