{"id":3594,"date":"2023-12-21T09:10:49","date_gmt":"2023-12-21T12:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ler-o-outro-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:49","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:49","slug":"ler-o-outro-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ler-o-outro-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"LER O OUTRO &#8211; JORNAL O ESTADO"},"content":{"rendered":"<p>Um dia, h\u00e1 muitos anos, em uma dessas viagens noturnas aos Estados Unidos, conheci uma pessoa. Era uma viagem festiva, pois inaugurava linha a\u00e9rea de uma companhia que n\u00e3o mais existe. N\u00e3o, n\u00e3o era a Varig. Todos muito bem tratados pelos comiss\u00e1rios e at\u00e9 um, que se fizera b\u00eabado e incomodava os que procuravam dormir, s\u00f3 foi censurado quando apelou para a agress\u00e3o verbal repetida a um dos pac\u00edficos passageiros.<br \/>\nChegamos e o b\u00eabado, num passe de m\u00e1gica, recuperou-se de sua carraspana, ficou s\u00f3brio a tempo de responder as perguntas que os guardas aduaneiros faziam. Mas dizia que, nesse voo, conheci e distingui uma pessoa, entre tantas outras. A perdi de vista no aeroporto. Para onde teria levado suas malas? Moraria por l\u00e1 ou era uma visitante como eu? A m\u00e3o do destino me fez, inocentemente, ir a certo hotel distante procurar um amigo. Soube l\u00e1 que o amigo havia se mandado para outro estado a fazer pesquisas sobre criminologia, especialmente a era do surgimento da m\u00e1fia e de seus principais personagens. Sem ter o que fazer, sentei no bar do dito hotel e l\u00e1 estava a tal pessoa, a que havia visto no avi\u00e3o e me chamara a aten\u00e7\u00e3o por seu porte bonito e at\u00e9 a forma elegante de fingir n\u00e3o ouvir as diatribes do b\u00eabado j\u00e1 mencionado.<br \/>\nAcerquei-me e a cumprimentei. Estava triste, era vis\u00edvel seu ar de desencanto e ang\u00fastia. N\u00e3o sei bem a raz\u00e3o mas, sem intimidade alguma, falei para ela que viagem n\u00e3o resolve problema de ningu\u00e9m, apenas o adia e, muitas vezes tem o cond\u00e3o de estragar o que se pretende ver. E disse mais: n\u00e3o adianta fugir de sua realidade e por a\u00ed fui. Ela me chamou de bruxo por ter lido o seu pensamento, o que parecia \u00f3bvio para mim. As pessoas, quase sempre, deixam pistas no rosto do que a alma n\u00e3o consegue resolver. E foi a\u00ed, em meio a confiss\u00f5es vindas a seguir, que se formou uma amizade que vara os tempos, n\u00e3o lastreada na presen\u00e7a f\u00edsica, no contato pessoal, mas na troca de sentimentos, na capacidade de ouvir o outro, mesmo que n\u00e3o se tenha resposta, pois as respostas est\u00e3o, quase sempre, guardadas dentro de n\u00f3s. O outro, quando muito, nos sacoleja e d\u00e1 coragem para remexermos no nosso eu profundo e encarar ou negar a realidade que nos aflige com ou sem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 04\/08\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia, h\u00e1 muitos anos, em uma dessas viagens noturnas aos Estados Unidos, conheci uma pessoa. Era uma viagem festiva, pois inaugurava linha a\u00e9rea de uma companhia que n\u00e3o mais existe. N\u00e3o, n\u00e3o era a Varig. Todos muito bem tratados pelos comiss\u00e1rios e at\u00e9 um, que se fizera b\u00eabado e incomodava os que procuravam dormir, s\u00f3 foi censurado quando apelou para a agress\u00e3o verbal repetida a um dos pac\u00edficos passageiros.<br \/>\nChegamos e o b\u00eabado, num passe de m\u00e1gica, recuperou-se de sua carraspana, ficou s\u00f3brio a tempo de responder as perguntas que os guardas aduaneiros faziam. Mas dizia que, nesse voo, conheci e distingui uma pessoa, entre tantas outras. A perdi de vista no aeroporto. Para onde teria levado suas malas? Moraria por l\u00e1 ou era uma visitante como eu? A m\u00e3o do destino me fez, inocentemente, ir a certo hotel distante procurar um amigo. Soube l\u00e1 que o amigo havia se mandado para outro estado a fazer pesquisas sobre criminologia, especialmente a era do surgimento da m\u00e1fia e de seus principais personagens. Sem ter o que fazer, sentei no bar do dito hotel e l\u00e1 estava a tal pessoa, a que havia visto no avi\u00e3o e me chamara a aten\u00e7\u00e3o por seu porte bonito e at\u00e9 a forma elegante de fingir n\u00e3o ouvir as diatribes do b\u00eabado j\u00e1 mencionado.<br \/>\nAcerquei-me e a cumprimentei. Estava triste, era vis\u00edvel seu ar de desencanto e ang\u00fastia. N\u00e3o sei bem a raz\u00e3o mas, sem intimidade alguma, falei para ela que viagem n\u00e3o resolve problema de ningu\u00e9m, apenas o adia e, muitas vezes tem o cond\u00e3o de estragar o que se pretende ver. E disse mais: n\u00e3o adianta fugir de sua realidade e por a\u00ed fui. Ela me chamou de bruxo por ter lido o seu pensamento, o que parecia \u00f3bvio para mim. As pessoas, quase sempre, deixam pistas no rosto do que a alma n\u00e3o consegue resolver. E foi a\u00ed, em meio a confiss\u00f5es vindas a seguir, que se formou uma amizade que vara os tempos, n\u00e3o lastreada na presen\u00e7a f\u00edsica, no contato pessoal, mas na troca de sentimentos, na capacidade de ouvir o outro, mesmo que n\u00e3o se tenha resposta, pois as respostas est\u00e3o, quase sempre, guardadas dentro de n\u00f3s. O outro, quando muito, nos sacoleja e d\u00e1 coragem para remexermos no nosso eu profundo e encarar ou negar a realidade que nos aflige com ou sem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 04\/08\/2006.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3594","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3594","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3594"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3594\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3594"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3594"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3594"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}