{"id":3596,"date":"2023-12-21T09:10:49","date_gmt":"2023-12-21T12:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/os-dias-dos-filhos-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:49","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:49","slug":"os-dias-dos-filhos-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/os-dias-dos-filhos-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"OS DIAS DOS FILHOS &#8211; JORNAL O ESTADO"},"content":{"rendered":"<p>Amanhece, os pais saem para o trabalho a p\u00e9, de bicicleta, \u00f4nibus, lombo de animal, trem ou carro. Fazem isso todos os dias, a vida inteira. Antes, tiveram que puxar pelos ded\u00f5es dos p\u00e9s dos filhos para que acordem. Colocaram pasta nas escovas de dente, preparam lancheiras, dizem se a roupa est\u00e1 certa e mandam, ou levam, a turma para a escola. Cansados na volta, \u00e0 noite, ainda v\u00e3o ajudar nos deveres de casa e nas tarefas extras que a escola pede.<br \/>\n\u201cOs pais n\u00e3o devem discutir na frente dos filhos\u201d, mas t\u00eam, a todo instante, que separar brigas. Os pais podem estar desempregados, sal\u00e1rio atrasado, empresa falida, mas t\u00eam que se virar, dar um jeito. Em contrapartida, h\u00e1 duas datas no ano consagradas a eles. S\u00e3o festas m\u00f3veis, aos domingos. O segundo domingo de maio, para a m\u00e3e, e o segundo domingo de agosto, para o pai. S\u00e3o feitas aos domingos, quem sabe, para n\u00e3o atrapalhar os dias \u00fateis dos filhos t\u00e3o ocupados com as suas vidas. E os outros 363 dias? Todos os outros dias &#8211; e muitas das noites &#8211; s\u00e3o reservados aos filhos. Sem essa de queixa ou lamento, apenas registro.<br \/>\nOs pais s\u00e3o vistos, via de regra, como aquelas pessoas cobradoras, procurando estabelecer limites, obrigando a estudar, verificando boletins da escola, falando que determinadas amizades n\u00e3o servem, tentando ajudar ou dar palpite sobre empregos, profiss\u00f5es e escolhas para namorar ou casar. Como se ainda adiantasse&#8230;<br \/>\n\u201cOs pais s\u00e3o velhos\u201d. Vinte ou trinta anos s\u00e3o um tempo imenso para uma crian\u00e7a ou adolescente. Os pais t\u00eam costumes diferentes. E por isso s\u00e3o \u00b4chatos\u00b4, pois precisam trabalhar para conseguir dinheiro da comida, aluguel, conta da luz e da \u00e1gua, presta\u00e7\u00e3o disso ou daquilo. Quando dizemos \u00b4os pais\u00b4, estamos fazendo justi\u00e7a a uma rela\u00e7\u00e3o nova entre homem e mulher, pois ambos s\u00e3o provedores. Acabou-se aquela hist\u00f3ria do homem ir \u00e0 luta e a mulher ficar em casa. Hoje, e j\u00e1 faz algum tempo, ambos v\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o e contam o suado dinheirinho para fazer face aos compromissos. \u00c9 claro, h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, mas essas n\u00e3o contam.<br \/>\nTudo isso \u00e9 para narrar: os demais dias do ano s\u00e3o dos filhos, essas criaturinhas lindas, algumas parecendo \u00b4ter o rei na barriga\u00b4 e que, quando crescem um pouco mais, as primeiras palavras a dizer s\u00e3o: \u00b4n\u00e3o pedimos para nascer\u00b4.<br \/>\nNo pr\u00f3ximo domingo ser\u00e1 o Dia do Pai. Este ser mais perif\u00e9rico ainda que a m\u00e3e, atordoado ao saber existir um inevit\u00e1vel hiato ou desencontro entre gera\u00e7\u00f5es e as suas perspectivas pessoais com as dos filhos amados e pelos quais deu e d\u00e1 tudo de si. Em meio a caf\u00e9s, almo\u00e7os, lanches e jantares no domingo, surgir\u00e3o figuras novas, quase sempre bem-vindas, nas fam\u00edlias: amigos, namorados, noras e genros, enquanto netos pequenos n\u00e3o entender\u00e3o bem por que os seus av\u00f3s est\u00e3o ganhando presentes, pois nem pais s\u00e3o. Pois \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11\/08\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amanhece, os pais saem para o trabalho a p\u00e9, de bicicleta, \u00f4nibus, lombo de animal, trem ou carro. Fazem isso todos os dias, a vida inteira. Antes, tiveram que puxar pelos ded\u00f5es dos p\u00e9s dos filhos para que acordem. Colocaram pasta nas escovas de dente, preparam lancheiras, dizem se a roupa est\u00e1 certa e mandam, ou levam, a turma para a escola. Cansados na volta, \u00e0 noite, ainda v\u00e3o ajudar nos deveres de casa e nas tarefas extras que a escola pede.<br \/>\n\u201cOs pais n\u00e3o devem discutir na frente dos filhos\u201d, mas t\u00eam, a todo instante, que separar brigas. Os pais podem estar desempregados, sal\u00e1rio atrasado, empresa falida, mas t\u00eam que se virar, dar um jeito. Em contrapartida, h\u00e1 duas datas no ano consagradas a eles. S\u00e3o festas m\u00f3veis, aos domingos. O segundo domingo de maio, para a m\u00e3e, e o segundo domingo de agosto, para o pai. S\u00e3o feitas aos domingos, quem sabe, para n\u00e3o atrapalhar os dias \u00fateis dos filhos t\u00e3o ocupados com as suas vidas. E os outros 363 dias? Todos os outros dias &#8211; e muitas das noites &#8211; s\u00e3o reservados aos filhos. Sem essa de queixa ou lamento, apenas registro.<br \/>\nOs pais s\u00e3o vistos, via de regra, como aquelas pessoas cobradoras, procurando estabelecer limites, obrigando a estudar, verificando boletins da escola, falando que determinadas amizades n\u00e3o servem, tentando ajudar ou dar palpite sobre empregos, profiss\u00f5es e escolhas para namorar ou casar. Como se ainda adiantasse&#8230;<br \/>\n\u201cOs pais s\u00e3o velhos\u201d. Vinte ou trinta anos s\u00e3o um tempo imenso para uma crian\u00e7a ou adolescente. Os pais t\u00eam costumes diferentes. E por isso s\u00e3o \u00b4chatos\u00b4, pois precisam trabalhar para conseguir dinheiro da comida, aluguel, conta da luz e da \u00e1gua, presta\u00e7\u00e3o disso ou daquilo. Quando dizemos \u00b4os pais\u00b4, estamos fazendo justi\u00e7a a uma rela\u00e7\u00e3o nova entre homem e mulher, pois ambos s\u00e3o provedores. Acabou-se aquela hist\u00f3ria do homem ir \u00e0 luta e a mulher ficar em casa. Hoje, e j\u00e1 faz algum tempo, ambos v\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o e contam o suado dinheirinho para fazer face aos compromissos. \u00c9 claro, h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, mas essas n\u00e3o contam.<br \/>\nTudo isso \u00e9 para narrar: os demais dias do ano s\u00e3o dos filhos, essas criaturinhas lindas, algumas parecendo \u00b4ter o rei na barriga\u00b4 e que, quando crescem um pouco mais, as primeiras palavras a dizer s\u00e3o: \u00b4n\u00e3o pedimos para nascer\u00b4.<br \/>\nNo pr\u00f3ximo domingo ser\u00e1 o Dia do Pai. Este ser mais perif\u00e9rico ainda que a m\u00e3e, atordoado ao saber existir um inevit\u00e1vel hiato ou desencontro entre gera\u00e7\u00f5es e as suas perspectivas pessoais com as dos filhos amados e pelos quais deu e d\u00e1 tudo de si. 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