{"id":3603,"date":"2023-12-21T09:10:49","date_gmt":"2023-12-21T12:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/boi-choco-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:49","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:49","slug":"boi-choco-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/boi-choco-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"BOI CHOCO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Cansado das praias conhecidas, bares, clubes e restaurantes onde sempre encontramos as mesmas figuras, algumas tristes, como as queria Cervantes, outras saltitantes, como manda a vida que escolheram, fui, com pequeno grupo de amigos, levado ao Boi Choco. Certamente, voc\u00eas n\u00e3o sabem onde fica o boi choco. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o sabia. Ele n\u00e3o consta de roteiro tur\u00edstico, tampouco dos lugares aonde os saltitantes esp\u00edritos v\u00e3o ao sair de casa, n\u00e3o para comer ou beber, mas para serem vistos ou ver e falar o que n\u00e3o sabem.<br \/>\nO Boi Choco \u00e9 um lugar perdido na zona oeste, no lado onde o sol dormita no crep\u00fasculo, depois da barra de um rio, logo ap\u00f3s o passar da grande ponte e come\u00e7a outra cidade. Depois de se passar por um arruamento prec\u00e1rio, chega-se a uma nesga de praia com pouca areia, em mar\u00e9 cheia. e uma curva profunda, com barracas de palha, mesas de madeira velha, cadeiras tortas e maresiadas, sons bregas emitidos por toca-fitas de carros com muito tempo de fabrica\u00e7\u00e3o, m\u00faltiplos donos e alquebradas funilarias, mas que se afoitam a varar o areal, munidos de espont\u00e2neos capatazes dispostos a empurra-los quando o eixo traseiro afunda.<br \/>\nE foi em um desses bares, onde o pr\u00f3prio dono serve os comes e bebes vestido em encardido cal\u00e7\u00e3o de cor indefinida e mostra as pelancas de sua protusa barriga, que ficamos. Ao lado, havia pessoas misturando cacha\u00e7a com sukita e tirando gosto com cerveja, sem esquecer de dar uma colherada em um bai\u00e3o-de-dois que mostrava a independ\u00eancia do feij\u00e3o e do arroz.<br \/>\nE foi l\u00e1 que vi um b\u00eabado que n\u00e3o era equilibrista, certamente n\u00e3o ouvira falar em Aldir Blanc, trocando as pernas e tartamudeando palavras, mas n\u00e3o escondia o desejo de mais uma bicada. N\u00e3o sei se continuar\u00e1 b\u00eabado, mas todo o seu sistema renal deveria estar sendo cobrado e os olhos vermelhos demonstravam a queda dos seus impulsos. E nas paredes estavam sendo afixados cartazes de candidatos, n\u00e3o mais com a velha cola branca, pois s\u00e3o autocolantes, elei\u00e7\u00e3o moderna, ora vejam. E quando me distanciei da roda para ver o mar de perto, ouvi o pio do meu celular informar que a bateria havia descarregado e eu estava s\u00f3, isolado e olhando para a minha cidade, t\u00e3o perto, mas distantemente silenciosa, n\u00e3o mais aquela que nos aconchegava a todos, mas a que amedronta em todas as esquinas, ruas e lugares. Ali, em meio ao sol da tarde e ao vento agudo que trazia micro gr\u00e3os de areia vi meus olhos marejarem, mas isto \u00e9 outra hist\u00f3ria. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 08\/09\/2006<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cansado das praias conhecidas, bares, clubes e restaurantes onde sempre encontramos as mesmas figuras, algumas tristes, como as queria Cervantes, outras saltitantes, como manda a vida que escolheram, fui, com pequeno grupo de amigos, levado ao Boi Choco. Certamente, voc\u00eas n\u00e3o sabem onde fica o boi choco. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o sabia. Ele n\u00e3o consta de roteiro tur\u00edstico, tampouco dos lugares aonde os saltitantes esp\u00edritos v\u00e3o ao sair de casa, n\u00e3o para comer ou beber, mas para serem vistos ou ver e falar o que n\u00e3o sabem.<br \/>\nO Boi Choco \u00e9 um lugar perdido na zona oeste, no lado onde o sol dormita no crep\u00fasculo, depois da barra de um rio, logo ap\u00f3s o passar da grande ponte e come\u00e7a outra cidade. Depois de se passar por um arruamento prec\u00e1rio, chega-se a uma nesga de praia com pouca areia, em mar\u00e9 cheia. e uma curva profunda, com barracas de palha, mesas de madeira velha, cadeiras tortas e maresiadas, sons bregas emitidos por toca-fitas de carros com muito tempo de fabrica\u00e7\u00e3o, m\u00faltiplos donos e alquebradas funilarias, mas que se afoitam a varar o areal, munidos de espont\u00e2neos capatazes dispostos a empurra-los quando o eixo traseiro afunda.<br \/>\nE foi em um desses bares, onde o pr\u00f3prio dono serve os comes e bebes vestido em encardido cal\u00e7\u00e3o de cor indefinida e mostra as pelancas de sua protusa barriga, que ficamos. Ao lado, havia pessoas misturando cacha\u00e7a com sukita e tirando gosto com cerveja, sem esquecer de dar uma colherada em um bai\u00e3o-de-dois que mostrava a independ\u00eancia do feij\u00e3o e do arroz.<br \/>\nE foi l\u00e1 que vi um b\u00eabado que n\u00e3o era equilibrista, certamente n\u00e3o ouvira falar em Aldir Blanc, trocando as pernas e tartamudeando palavras, mas n\u00e3o escondia o desejo de mais uma bicada. N\u00e3o sei se continuar\u00e1 b\u00eabado, mas todo o seu sistema renal deveria estar sendo cobrado e os olhos vermelhos demonstravam a queda dos seus impulsos. E nas paredes estavam sendo afixados cartazes de candidatos, n\u00e3o mais com a velha cola branca, pois s\u00e3o autocolantes, elei\u00e7\u00e3o moderna, ora vejam. 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Ali, em meio ao sol da tarde e ao vento agudo que trazia micro gr\u00e3os de areia vi meus olhos marejarem, mas isto \u00e9 outra hist\u00f3ria. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 08\/09\/2006<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3603","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3603","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3603"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3603\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3603"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3603"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3603"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}