{"id":3607,"date":"2023-12-21T09:10:49","date_gmt":"2023-12-21T12:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/de-brasilia-ao-mexico-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:49","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:49","slug":"de-brasilia-ao-mexico-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/de-brasilia-ao-mexico-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"DE BRAS\u00cdLIA AO M\u00c9XICO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 fim de tarde. O avi\u00e3o sobrevoa Bras\u00edlia e lembro da primeira vez que aqui estive. Quase tudo era barro, essa argila avermelhada que, ao contato com a \u00e1gua da chuva, se transforma em lama. Assim, o nascimento da cidade foi na lama. Era tempo de bossa nova, o aeroporto muito prec\u00e1rio, quase tudo na cidade era oficial: carros, apartamentos, obras em constru\u00e7\u00e3o e funcion\u00e1rios vindos do Rio e de outras partes. Placas, muitas placas. E o sonho urban\u00edstico de L\u00facio Costa, que muitos ainda imaginam ser de Niemayer, tomava a forma de um grande avi\u00e3o, com um grande bojo ou eixo e duas asas, a sul e a norte.<br \/>\nEra, \u00e0quela \u00e9poca, uma esp\u00e9cie de \u201cfar-west\u201d, como um \u201cremake\u201d atualizado de um filme de Gary Cooper, todos em busca do ouro. Todos vinham para c\u00e1 porque acreditavam no Eldorado, no que estava acontecendo e no que imaginavam iria acontecer. Vieram muitos, quase todos ficaram e hoje, neste quinto ano do novo mil\u00eanio, Bras\u00edlia \u00e9 patrim\u00f4nio da humanidade, pelo inusitado partido urban\u00edstico que recebeu, pelos lindos parques burlemarxeanos e por sua implanta\u00e7\u00e3o vigorosa e vertiginosa.<br \/>\nO carro passa pela Esplanada dos Minist\u00e9rios, edif\u00edcios retangulares, sem adornos, s\u00f3brios, iguais no pensar do Oscar, mas desiguais na pr\u00e1tica de suas diferenciadas verbas, poderes e a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas. L\u00e1 est\u00e1 a Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes e h\u00e1 uma manifesta\u00e7\u00e3o popular em suas cercanias. Os outros e s\u00e3o muitos, os n\u00e3o-ativistas, passam ao largo e nem olham para os piquetes, pois isto faz parte da paisagem da cidade-estado, onde tudo se procura e pouco se encontra. Ou melhor, alguns encontram. Abro a janela, o ar rarefeito de setembro se depara com a minha face e h\u00e1 carinho na pouqu\u00edssima umidade que me afaga.<br \/>\nVou em dire\u00e7\u00e3o ao setor de embaixadas e surge o desfilar de edif\u00edcios-na\u00e7\u00f5es, \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, cada qual com seu estilo, mas todos cercados, vigiados, com carros de seguran\u00e7a por perto. Dobro \u00e0 esquerda, entro em territ\u00f3rio mexicano, pois piso na Embaixada do M\u00e9xico, \u00e9 festa. Ali se comemora o 194o. anivers\u00e1rio de sua independ\u00eancia, h\u00e1 uma profus\u00e3o de ra\u00e7as reunidas, latinos, anglo-sax\u00f5es, africanos, asi\u00e1ticos, enfim, povos de todos os cantos. Tocam os dois hinos, o Embaixador Andr\u00e9s Valencia levanta um brinde em nome da luta iniciada por Miguel Hidalgo e seus companheiros, enquanto a noite vai entrando no lago em frente. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22\/09\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 fim de tarde. O avi\u00e3o sobrevoa Bras\u00edlia e lembro da primeira vez que aqui estive. Quase tudo era barro, essa argila avermelhada que, ao contato com a \u00e1gua da chuva, se transforma em lama. Assim, o nascimento da cidade foi na lama. Era tempo de bossa nova, o aeroporto muito prec\u00e1rio, quase tudo na cidade era oficial: carros, apartamentos, obras em constru\u00e7\u00e3o e funcion\u00e1rios vindos do Rio e de outras partes. Placas, muitas placas. E o sonho urban\u00edstico de L\u00facio Costa, que muitos ainda imaginam ser de Niemayer, tomava a forma de um grande avi\u00e3o, com um grande bojo ou eixo e duas asas, a sul e a norte.<br \/>\nEra, \u00e0quela \u00e9poca, uma esp\u00e9cie de \u201cfar-west\u201d, como um \u201cremake\u201d atualizado de um filme de Gary Cooper, todos em busca do ouro. Todos vinham para c\u00e1 porque acreditavam no Eldorado, no que estava acontecendo e no que imaginavam iria acontecer. Vieram muitos, quase todos ficaram e hoje, neste quinto ano do novo mil\u00eanio, Bras\u00edlia \u00e9 patrim\u00f4nio da humanidade, pelo inusitado partido urban\u00edstico que recebeu, pelos lindos parques burlemarxeanos e por sua implanta\u00e7\u00e3o vigorosa e vertiginosa.<br \/>\nO carro passa pela Esplanada dos Minist\u00e9rios, edif\u00edcios retangulares, sem adornos, s\u00f3brios, iguais no pensar do Oscar, mas desiguais na pr\u00e1tica de suas diferenciadas verbas, poderes e a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas. L\u00e1 est\u00e1 a Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes e h\u00e1 uma manifesta\u00e7\u00e3o popular em suas cercanias. Os outros e s\u00e3o muitos, os n\u00e3o-ativistas, passam ao largo e nem olham para os piquetes, pois isto faz parte da paisagem da cidade-estado, onde tudo se procura e pouco se encontra. Ou melhor, alguns encontram. Abro a janela, o ar rarefeito de setembro se depara com a minha face e h\u00e1 carinho na pouqu\u00edssima umidade que me afaga.<br \/>\nVou em dire\u00e7\u00e3o ao setor de embaixadas e surge o desfilar de edif\u00edcios-na\u00e7\u00f5es, \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, cada qual com seu estilo, mas todos cercados, vigiados, com carros de seguran\u00e7a por perto. Dobro \u00e0 esquerda, entro em territ\u00f3rio mexicano, pois piso na Embaixada do M\u00e9xico, \u00e9 festa. Ali se comemora o 194o. anivers\u00e1rio de sua independ\u00eancia, h\u00e1 uma profus\u00e3o de ra\u00e7as reunidas, latinos, anglo-sax\u00f5es, africanos, asi\u00e1ticos, enfim, povos de todos os cantos. 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