{"id":3610,"date":"2023-12-21T09:10:50","date_gmt":"2023-12-21T12:10:50","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/saudade-que-nao-e-metafora-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:50","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:50","slug":"saudade-que-nao-e-metafora-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/saudade-que-nao-e-metafora-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"SAUDADE QUE N\u00c3O \u00c9 MET\u00c1FORA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Amanh\u00e3, 30 de setembro, \u00e9 dia dos santos Jer\u00f4nimo, que sabia rezar e escrever, e Greg\u00f3rio, um iluminista ou iluminado. E tamb\u00e9m era o dia em que nasceu uma n\u00e3o-santa, uma mulher pequena e grande, valente e medrosa, paradoxalmente, vinda a este mundo para enriquec\u00ea-lo com os filhos que gerou em 54 meses, ou quatro anos e meio de barriga, em que deixava seu corpo adelga\u00e7ado se transformar em outras vidas.<br \/>\nAmanh\u00e3, 30 de setembro, estaria marcando tempo uma mulher nascida e criada por estas paragens, mi\u00fada, ampla, silente e palradora. Essa mulher que andou, j\u00e1 madura, pelas terras de Cam\u00f5es e Cervantes, as que ficam na outra margem do Atl\u00e2ntico Sul e l\u00e1 foi se aconchegar e aninhar-se aos seus. Essa que navegou pelas \u00e1guas turvas dos rios da Amaz\u00f4nia, onde seus pontos de l\u00e1grimas clareavam e rastreavam a escurid\u00e3o pr\u00f3xima dos corrim\u00f5es do seu navio. Espantou-nos, com arte delicada, cuidada e misteriosa, em noite de fogueiras, com as suas iluminuras. Era simples, at\u00e9 tomar da caneta,<br \/>\nAmanh\u00e3, 30 de setembro, ser\u00e1 dia de louva\u00e7\u00e3o a uma mulher que, ap\u00f3s filhos criados, recolheu seus bordados, com l\u00e1grimas vertidas ou n\u00e3o, exorcizou desdita, tomou da caneta como se fora colher de pedreiro, e construiu uma casa, tijolo a palavra, arquitetada pela mem\u00f3ria ancestral ou recente, em meios a arqu\u00e9tipos, desilus\u00f5es, devaneios, lembran\u00e7as, realidades, brumas, mist\u00e9rios, dramas e nela gravou seu ferro invis\u00edvel: NC. E, qui\u00e7\u00e1 espantada pelo que criara, deixou-a afundar.<br \/>\nAmanh\u00e3, 30 de setembro, ser\u00e1 dia de exaltar a vida de quem se fez viva na juventude da maturidade em meio a missivas trocadas, guardadas, e soube dar sentido ao que era sentido, sem ser permitido. Deixou-se enlevar, guiar pelo odor da tinta e a goma dos selos que tiravam o bolor do seu existir. Transformando-se e transformada. Essa vida, transformada, transformadora, quis ser acesa em alguma paragem, em dimens\u00e3o outra, e nos dar a sensa\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a-n\u00e3o-presen\u00e7a e do enlevo-desengano, obra do que se sente e n\u00e3o se explica. E hoje, amanh\u00e3 e sempre, ser\u00e1 parte do h\u00famus da terra, fazendo brotar quimeras, em meio \u00e0 saudade que n\u00e3o \u00e9 met\u00e1fora, e n\u00e3o est\u00e1 fora, pende dentro, em lugar inacess\u00edvel aos olhos alheios.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29\/09\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amanh\u00e3, 30 de setembro, \u00e9 dia dos santos Jer\u00f4nimo, que sabia rezar e escrever, e Greg\u00f3rio, um iluminista ou iluminado. 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Era simples, at\u00e9 tomar da caneta,<br \/>\nAmanh\u00e3, 30 de setembro, ser\u00e1 dia de louva\u00e7\u00e3o a uma mulher que, ap\u00f3s filhos criados, recolheu seus bordados, com l\u00e1grimas vertidas ou n\u00e3o, exorcizou desdita, tomou da caneta como se fora colher de pedreiro, e construiu uma casa, tijolo a palavra, arquitetada pela mem\u00f3ria ancestral ou recente, em meios a arqu\u00e9tipos, desilus\u00f5es, devaneios, lembran\u00e7as, realidades, brumas, mist\u00e9rios, dramas e nela gravou seu ferro invis\u00edvel: NC. E, qui\u00e7\u00e1 espantada pelo que criara, deixou-a afundar.<br \/>\nAmanh\u00e3, 30 de setembro, ser\u00e1 dia de exaltar a vida de quem se fez viva na juventude da maturidade em meio a missivas trocadas, guardadas, e soube dar sentido ao que era sentido, sem ser permitido. Deixou-se enlevar, guiar pelo odor da tinta e a goma dos selos que tiravam o bolor do seu existir. Transformando-se e transformada. Essa vida, transformada, transformadora, quis ser acesa em alguma paragem, em dimens\u00e3o outra, e nos dar a sensa\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a-n\u00e3o-presen\u00e7a e do enlevo-desengano, obra do que se sente e n\u00e3o se explica. 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