{"id":3612,"date":"2023-12-21T09:10:50","date_gmt":"2023-12-21T12:10:50","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ultima-pesquisa-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:50","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:50","slug":"ultima-pesquisa-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ultima-pesquisa-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"\u00daLTIMA PESQUISA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Imaginemos um acad\u00eamico-pesquisador em contato com jovens um pouco acima de 16 anos. Digamos: um adolescente rico, um de classe m\u00e9dia, um filho de trabalhador e um morador de favela. Imaginemos, tamb\u00e9m, que todos est\u00e3o estudando, tiraram o t\u00edtulo de eleitor e o que ele deseja saber \u00e9 o que pensa a juventude brasileira sobre o que est\u00e1 acontecendo no Brasil, neste exato momento.<br \/>\nO pesquisador toca a campainha da portaria do edif\u00edcio onde mora o menino-rico. Algu\u00e9m, do outro lado de um grosso vidro, fala, pela voz met\u00e1lica de um microfone: quem \u00e9, mostre a identidade, com quem deseja falar e se j\u00e1 havia marcado. O pesquisador coloca a identidade no escaninho, diz seu nome, afirma que j\u00e1 havia ligado, marcara hora, podia confirmar. Um minuto. Passam dez. Pode entrar. O port\u00e3o se abre, uma c\u00e2mera gira e mira o pesquisador que fica confinado em uma antec\u00e2mara gradeada. N\u00e3o recebe a sua identidade, s\u00f3 na volta. Vem um seguran\u00e7a armado e o acompanha at\u00e9 o elevador envidra\u00e7ado e segue junto at\u00e9 ao andar determinado. Aperta a campainha do apartamento e v\u00ea que o hall tem detector de presen\u00e7as e uma c\u00e2mera disfar\u00e7ada. Afinal, a porta pesada se abre. O menino-rico est\u00e1 de gel nos cabelos e uma raquete de t\u00eanis na m\u00e3o. Pede que o pesquisador sente e vem uma copeira fardada servir caf\u00e9 e \u00e1gua. Afinal, vamos \u00e0s perguntas: Em quem voc\u00ea votou para presidente da Rep\u00fablica? Ele responde: em uma mulher. O senhor quer dizer Heloisa Helena. Ele responde: talvez. Posso saber a raz\u00e3o? Era uma coroa raivosa, deve ser legal sair com ela, imagino. E em quem vai votar no segundo turno? Ainda vai ter essa chatice, acho que vou viajar, que saco. Levanta-se e acompanha o pesquisador at\u00e9 o elevador.<br \/>\nO pesquisador entra no p\u00e1tio do condom\u00ednio de casas geminadas de um bairro afastado, mas bonito, onde o espera o menino-de-classe-m\u00e9dia. O porteiro conversa com uma dom\u00e9stica e nem olha para ele. A m\u00e3e de classe m\u00e9dia, com os cabelos numa touca, pede que entre e sente na sala onde os sof\u00e1s s\u00e3o de imita\u00e7\u00e3o de couro. D\u00e1 um grito e l\u00e1 vem o menino-de-classe-m\u00e9dia com um I-Pod na m\u00e3o, fone nos ouvidos e o corpo balan\u00e7ando ao som de uma m\u00fasica que tem tudo para ser baiana. O pesquisador faz as mesmas perguntas e ele responde: pensei em votar no Lula, fiquei em d\u00favida, depois pensei em votar no Geraldo, mas n\u00e3o gosto de chuchu e a\u00ed anulei o meu voto. No segundo turno, acho que vou fazer a mesma coisa, n\u00e3o acredito em pol\u00edtico. Voc\u00ea n\u00e3o vai assistir aos novos programas eleitorais? De forma alguma, tenho mais o que fazer.<br \/>\nA rua esburacada, o lixo amontoado, antecede a casa de vila onde est\u00e1 o menino-filho-de-trabalhador.Os pais est\u00e3o trabalhando fora. Entra sem cerim\u00f4nia na porta cortada ao meio, \u00e0 guisa de janela. Ele usa camisa de imita\u00e7\u00e3o de uma dessas marcas conhecidas e cal\u00e7\u00e3o comprido que cobre os joelhos. N\u00e3o h\u00e1 cerim\u00f4nia, o pesquisador senta em uma cadeira de pl\u00e1stico meio cambaia e ouve: votei nele, vou votar de novo, ele \u00e9 legal. O resto n\u00e3o me importa. Fim de papo. E coloca a m\u00e3o no ombro do pesquisador que se despede.<br \/>\nO pesquisador entra na favela, v\u00ea uma aglomera\u00e7\u00e3o, gritos, carros de pol\u00edcia, tiros, e \u00e9 atingido por uma bala perdida. Sua pasta cai, algu\u00e9m a rouba. Era a sua \u00faltima pesquisa.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06\/10\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imaginemos um acad\u00eamico-pesquisador em contato com jovens um pouco acima de 16 anos. Digamos: um adolescente rico, um de classe m\u00e9dia, um filho de trabalhador e um morador de favela. Imaginemos, tamb\u00e9m, que todos est\u00e3o estudando, tiraram o t\u00edtulo de eleitor e o que ele deseja saber \u00e9 o que pensa a juventude brasileira sobre o que est\u00e1 acontecendo no Brasil, neste exato momento.<br \/>\nO pesquisador toca a campainha da portaria do edif\u00edcio onde mora o menino-rico. Algu\u00e9m, do outro lado de um grosso vidro, fala, pela voz met\u00e1lica de um microfone: quem \u00e9, mostre a identidade, com quem deseja falar e se j\u00e1 havia marcado. O pesquisador coloca a identidade no escaninho, diz seu nome, afirma que j\u00e1 havia ligado, marcara hora, podia confirmar. Um minuto. Passam dez. Pode entrar. O port\u00e3o se abre, uma c\u00e2mera gira e mira o pesquisador que fica confinado em uma antec\u00e2mara gradeada. N\u00e3o recebe a sua identidade, s\u00f3 na volta. Vem um seguran\u00e7a armado e o acompanha at\u00e9 o elevador envidra\u00e7ado e segue junto at\u00e9 ao andar determinado. Aperta a campainha do apartamento e v\u00ea que o hall tem detector de presen\u00e7as e uma c\u00e2mera disfar\u00e7ada. Afinal, a porta pesada se abre. O menino-rico est\u00e1 de gel nos cabelos e uma raquete de t\u00eanis na m\u00e3o. Pede que o pesquisador sente e vem uma copeira fardada servir caf\u00e9 e \u00e1gua. Afinal, vamos \u00e0s perguntas: Em quem voc\u00ea votou para presidente da Rep\u00fablica? Ele responde: em uma mulher. O senhor quer dizer Heloisa Helena. Ele responde: talvez. Posso saber a raz\u00e3o? Era uma coroa raivosa, deve ser legal sair com ela, imagino. E em quem vai votar no segundo turno? Ainda vai ter essa chatice, acho que vou viajar, que saco. Levanta-se e acompanha o pesquisador at\u00e9 o elevador.<br \/>\nO pesquisador entra no p\u00e1tio do condom\u00ednio de casas geminadas de um bairro afastado, mas bonito, onde o espera o menino-de-classe-m\u00e9dia. O porteiro conversa com uma dom\u00e9stica e nem olha para ele. A m\u00e3e de classe m\u00e9dia, com os cabelos numa touca, pede que entre e sente na sala onde os sof\u00e1s s\u00e3o de imita\u00e7\u00e3o de couro. D\u00e1 um grito e l\u00e1 vem o menino-de-classe-m\u00e9dia com um I-Pod na m\u00e3o, fone nos ouvidos e o corpo balan\u00e7ando ao som de uma m\u00fasica que tem tudo para ser baiana. O pesquisador faz as mesmas perguntas e ele responde: pensei em votar no Lula, fiquei em d\u00favida, depois pensei em votar no Geraldo, mas n\u00e3o gosto de chuchu e a\u00ed anulei o meu voto. No segundo turno, acho que vou fazer a mesma coisa, n\u00e3o acredito em pol\u00edtico. Voc\u00ea n\u00e3o vai assistir aos novos programas eleitorais? De forma alguma, tenho mais o que fazer.<br \/>\nA rua esburacada, o lixo amontoado, antecede a casa de vila onde est\u00e1 o menino-filho-de-trabalhador.Os pais est\u00e3o trabalhando fora. Entra sem cerim\u00f4nia na porta cortada ao meio, \u00e0 guisa de janela. Ele usa camisa de imita\u00e7\u00e3o de uma dessas marcas conhecidas e cal\u00e7\u00e3o comprido que cobre os joelhos. N\u00e3o h\u00e1 cerim\u00f4nia, o pesquisador senta em uma cadeira de pl\u00e1stico meio cambaia e ouve: votei nele, vou votar de novo, ele \u00e9 legal. O resto n\u00e3o me importa. Fim de papo. E coloca a m\u00e3o no ombro do pesquisador que se despede.<br \/>\nO pesquisador entra na favela, v\u00ea uma aglomera\u00e7\u00e3o, gritos, carros de pol\u00edcia, tiros, e \u00e9 atingido por uma bala perdida. Sua pasta cai, algu\u00e9m a rouba. Era a sua \u00faltima pesquisa.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06\/10\/2006.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3612","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3612","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3612"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3612\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}