{"id":3626,"date":"2023-12-21T09:10:50","date_gmt":"2023-12-21T12:10:50","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/as-torres-fincadas-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:50","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:50","slug":"as-torres-fincadas-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/as-torres-fincadas-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"AS TORRES FINCADAS &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>E na ter\u00e7a-feira sou chamado por La\u00e9ria e Carlos Augusto para almo\u00e7ar, juntamente, com S\u00e9rgio Braga e Antonio Torres. Antonio Torres, escritor brasileiro, nascido no Junco, interior da Bahia e que se fez globe-trotter aos 20 anos, resenraizando-se e ganhando pr\u00eamios e mundo. Jornalista, publicit\u00e1rio, mas escritor acima de qualquer d\u00favida ou compadrio, se fez cearense-visitante pelas m\u00e3os pr\u00f3digas de S\u00e9rgio Braga,desde 1997. E esse Antonio Torres \u00e9 um bom conversador que faz o tempo n\u00e3o descer na ampulheta e nos deixa a todos mais leves olhando, da varanda, os verdes mares bravios. E foi com Jos\u00e9 de Alencar, esse iracemista escritor, que Antonio Torres se alfabetizou falando ver-des-ma-res-bra-vi-os e sentiu seus olhos cresceram para o que n\u00e3o via, mas intu\u00eda. E o Junco foi sendo saudade, mas ficou a sedu\u00e7\u00e3o da origem, da terra adusta, do formigamento mental do menino que sabia que ali era e n\u00e3o era o seu lugar. E tomou a estrada a\u00e9rea da vida e foi parar na paulic\u00e9ia, n\u00e3o a desvairada, mas a que despertava para uma tardia industrializa\u00e7\u00e3o brasileira e levava a todos, passo a passo, para a escada ou o fosso da globaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE a noite, ap\u00f3s os camar\u00f5es laerianamente preparados, apreciados, louvados e deglutidos no almo\u00e7o, nos encontramos novamente. A\u00ed o cen\u00e1rio era outro: a mesa bem posta do Lautrec, o pequeno reinado de C\u00e9sar e Denise, em meio a luminosas micro l\u00e2mpadas que a China nos imp\u00f5e culturalmente nesta quadra do ano. E a conversa ficou leve e se via, mesas ao lado, a beleza sutil de Patr\u00edcia Pillar, a intelig\u00eancia nata de Ciro Gomes, a espirituosidade de Fausto Nilo e o olhar de lince de Arialdo Pinho. E do outro lado, bem pr\u00f3ximo, estavam Fernando Costa e F\u00e1bio Campos que deixavam suas mentes pousar na ess\u00eancia do que bebiam e conversavam com Jos\u00e9 Carlos. Criara-se um halo virtual de bem-estar, do prazeroso conv\u00edvio, cada mesa no seu universo privativo. Mas, a estrela da noite era Antonio Torres, com o ar sereno-maroto que a maturidade permite aos que ainda t\u00eam perguntas n\u00e3o respondidas e os solados dos p\u00e9s est\u00e3o esfolados das andan\u00e7as pelas estradas do pensamento e dos lugares vistos de soslaio ou em profundidade.<br \/>\nE veio o outro dia, a hora do almo\u00e7o se fazia tardia e o Carlos Augusto nos impunha o Ideal, sua descoberta fim-de-s\u00e9culo. E na cumplicidade com S\u00e9rgio Braga, desviamos a rota e aportamos em um p\u00f3s-moderno self-service, essa comodidade que se imp\u00f4s e est\u00e1 ficando. E o Carlos Augusto, fervoroso seguidor de Baco, bradava contra o calor pelo vinho tinto n\u00e3o bebido por ele, voraz quase-en\u00f3logo que, vencido, em meio \u00e0s folhagens de seu prato, tomava uma prosaica Coca-Cola. E \u00e9ramos homens-meninos na intima\u00e7\u00e3o costumeira e o Antonio Torres, naquele instante, em meio a doces saborosos, se consolidava no peito de cada um de n\u00f3s, descrentes e crentes figuras, andarilhos n\u00e3o da regi\u00e3o da Mancha de Cervantes, mas destas pequenas paragens e alegrias que nos transformam a todos em cavaleiros errantes nesta nau (des)governada que \u00e9 a vida.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 03\/12\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E na ter\u00e7a-feira sou chamado por La\u00e9ria e Carlos Augusto para almo\u00e7ar, juntamente, com S\u00e9rgio Braga e Antonio Torres. Antonio Torres, escritor brasileiro, nascido no Junco, interior da Bahia e que se fez globe-trotter aos 20 anos, resenraizando-se e ganhando pr\u00eamios e mundo. Jornalista, publicit\u00e1rio, mas escritor acima de qualquer d\u00favida ou compadrio, se fez cearense-visitante pelas m\u00e3os pr\u00f3digas de S\u00e9rgio Braga,desde 1997. E esse Antonio Torres \u00e9 um bom conversador que faz o tempo n\u00e3o descer na ampulheta e nos deixa a todos mais leves olhando, da varanda, os verdes mares bravios. E foi com Jos\u00e9 de Alencar, esse iracemista escritor, que Antonio Torres se alfabetizou falando ver-des-ma-res-bra-vi-os e sentiu seus olhos cresceram para o que n\u00e3o via, mas intu\u00eda. E o Junco foi sendo saudade, mas ficou a sedu\u00e7\u00e3o da origem, da terra adusta, do formigamento mental do menino que sabia que ali era e n\u00e3o era o seu lugar. E tomou a estrada a\u00e9rea da vida e foi parar na paulic\u00e9ia, n\u00e3o a desvairada, mas a que despertava para uma tardia industrializa\u00e7\u00e3o brasileira e levava a todos, passo a passo, para a escada ou o fosso da globaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE a noite, ap\u00f3s os camar\u00f5es laerianamente preparados, apreciados, louvados e deglutidos no almo\u00e7o, nos encontramos novamente. A\u00ed o cen\u00e1rio era outro: a mesa bem posta do Lautrec, o pequeno reinado de C\u00e9sar e Denise, em meio a luminosas micro l\u00e2mpadas que a China nos imp\u00f5e culturalmente nesta quadra do ano. E a conversa ficou leve e se via, mesas ao lado, a beleza sutil de Patr\u00edcia Pillar, a intelig\u00eancia nata de Ciro Gomes, a espirituosidade de Fausto Nilo e o olhar de lince de Arialdo Pinho. E do outro lado, bem pr\u00f3ximo, estavam Fernando Costa e F\u00e1bio Campos que deixavam suas mentes pousar na ess\u00eancia do que bebiam e conversavam com Jos\u00e9 Carlos. Criara-se um halo virtual de bem-estar, do prazeroso conv\u00edvio, cada mesa no seu universo privativo. Mas, a estrela da noite era Antonio Torres, com o ar sereno-maroto que a maturidade permite aos que ainda t\u00eam perguntas n\u00e3o respondidas e os solados dos p\u00e9s est\u00e3o esfolados das andan\u00e7as pelas estradas do pensamento e dos lugares vistos de soslaio ou em profundidade.<br \/>\nE veio o outro dia, a hora do almo\u00e7o se fazia tardia e o Carlos Augusto nos impunha o Ideal, sua descoberta fim-de-s\u00e9culo. E na cumplicidade com S\u00e9rgio Braga, desviamos a rota e aportamos em um p\u00f3s-moderno self-service, essa comodidade que se imp\u00f4s e est\u00e1 ficando. E o Carlos Augusto, fervoroso seguidor de Baco, bradava contra o calor pelo vinho tinto n\u00e3o bebido por ele, voraz quase-en\u00f3logo que, vencido, em meio \u00e0s folhagens de seu prato, tomava uma prosaica Coca-Cola. 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