{"id":3628,"date":"2023-12-21T09:10:50","date_gmt":"2023-12-21T12:10:50","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/frente-para-o-mar-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:50","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:50","slug":"frente-para-o-mar-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/frente-para-o-mar-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"FRENTE PARA O MAR &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Vou cham\u00e1-los de Jo\u00e3o e Maria. Moram ali defronte ao Atl\u00e2ntico que se espraia e quebra quase ao p\u00e9 deles. N\u00e3o plantaram a \u00e1rvore, mas gostam de sua sombra e \u00e9 sob ela, dia ap\u00f3s dia, que cuidam de morar. Um atrelado ao outro, quase atados, roupas empilhadas, banho a poucos passos, ilumina\u00e7\u00e3o boa, sem IPTU, cabine da Pol\u00edcia a poucos passos e brisa permanente. E com eles est\u00e1 o Japi, digamos assim, o pequenino c\u00e3o misturado \u00e0 alegria dos dois. Japi, Jo\u00e3o e Maria, entre alegres, sonolentos e dengosos, se aninham sobre uma rel\u00edquia de colch\u00e3o graciosamente disposto sobre o carpete cinza que envolve o ch\u00e3o vermelho de ladrilho. E a alegria se constata na forma como as m\u00e3os jovens de Maria catam aquilo na cabe\u00e7a de Jo\u00e3o que, vaidoso, peito nu, ainda porta uma dessas barbichas ralas.<br \/>\nComo todo os casais, brigam, ralham um com o outro, mudam roupas e at\u00e9 se amam ali mesmo, com a brisa a aben\u00e7oar o cl\u00edmax. Os olhares curiosos, dia e noite, s\u00e3o muitos, alguns balan\u00e7am cabe\u00e7as burguesas e n\u00e3o entendem talvez essa postura cr\u00edtica, vanguardista, o descompromisso firme com o de trabalho, como se esse conjunto seja uma instala\u00e7\u00e3o viva de artista p\u00f3s-tudo a chocar a plateia, cutucando a insensibilidade s\u00f3cio-existencial que desnuda a indiferen\u00e7a dos provocadores dessa permitida atitude de \u2018gentileza urbana\u2019.<br \/>\nE a\u00ed chega um casal de estrangeiros, sentam ao ch\u00e3o e, em portugu\u00eas arrevesado, dizem que s\u00e3o de uma ONG em favor da aceita\u00e7\u00e3o do homem em seu habitat e prometem um movimento internacional com base no amor tel\u00farico, no direito inalien\u00e1vel de escolher o local de morada e citam o Pe. Lebret para um Jo\u00e3o confuso e uma Maria perplexa, enquanto Japi lambe um caro\u00e7o de manga. Ao final, tudo documentado em uma c\u00e2mera port\u00e1til comprovando o alcance desse gesto solid\u00e1rio.<br \/>\nE Jo\u00e3o e Maria se pensassem, admitiriam que bem cabe uma an\u00e1lise sociol\u00f3gica tendo como substrato o direito de morar bem e receber, com ou sem protetor solar, raios do sol acompanhando o \u00f3cio di\u00e1rio com amassos, sa\u00eddas fisiol\u00f3gicas e comer o que n\u00e3o lhes falta, pois, prazerosos por sua companhia os vizinhos, sugerem que n\u00e3o instalem fog\u00e3o, pois a dificultaria a a\u00e7\u00e3o dos bicos de g\u00e1s.<br \/>\nE assim, como nas belas hist\u00f3rias de amor, essa conjun\u00e7\u00e3o de almas \u00e9 aben\u00e7oada contra a maldade dos que se arvoram de donos do peda\u00e7o e gastam energias em caminhadas v\u00e3s, pois nada mais s\u00e3o que sobrepesados burgueses queimando excessos de alimento que falta a outros. Eles, Jo\u00e3o e Maria, devem ficar defronte ao mar. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 10\/12\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vou cham\u00e1-los de Jo\u00e3o e Maria. Moram ali defronte ao Atl\u00e2ntico que se espraia e quebra quase ao p\u00e9 deles. N\u00e3o plantaram a \u00e1rvore, mas gostam de sua sombra e \u00e9 sob ela, dia ap\u00f3s dia, que cuidam de morar. Um atrelado ao outro, quase atados, roupas empilhadas, banho a poucos passos, ilumina\u00e7\u00e3o boa, sem IPTU, cabine da Pol\u00edcia a poucos passos e brisa permanente. E com eles est\u00e1 o Japi, digamos assim, o pequenino c\u00e3o misturado \u00e0 alegria dos dois. Japi, Jo\u00e3o e Maria, entre alegres, sonolentos e dengosos, se aninham sobre uma rel\u00edquia de colch\u00e3o graciosamente disposto sobre o carpete cinza que envolve o ch\u00e3o vermelho de ladrilho. E a alegria se constata na forma como as m\u00e3os jovens de Maria catam aquilo na cabe\u00e7a de Jo\u00e3o que, vaidoso, peito nu, ainda porta uma dessas barbichas ralas.<br \/>\nComo todo os casais, brigam, ralham um com o outro, mudam roupas e at\u00e9 se amam ali mesmo, com a brisa a aben\u00e7oar o cl\u00edmax. Os olhares curiosos, dia e noite, s\u00e3o muitos, alguns balan\u00e7am cabe\u00e7as burguesas e n\u00e3o entendem talvez essa postura cr\u00edtica, vanguardista, o descompromisso firme com o de trabalho, como se esse conjunto seja uma instala\u00e7\u00e3o viva de artista p\u00f3s-tudo a chocar a plateia, cutucando a insensibilidade s\u00f3cio-existencial que desnuda a indiferen\u00e7a dos provocadores dessa permitida atitude de \u2018gentileza urbana\u2019.<br \/>\nE a\u00ed chega um casal de estrangeiros, sentam ao ch\u00e3o e, em portugu\u00eas arrevesado, dizem que s\u00e3o de uma ONG em favor da aceita\u00e7\u00e3o do homem em seu habitat e prometem um movimento internacional com base no amor tel\u00farico, no direito inalien\u00e1vel de escolher o local de morada e citam o Pe. Lebret para um Jo\u00e3o confuso e uma Maria perplexa, enquanto Japi lambe um caro\u00e7o de manga. Ao final, tudo documentado em uma c\u00e2mera port\u00e1til comprovando o alcance desse gesto solid\u00e1rio.<br \/>\nE Jo\u00e3o e Maria se pensassem, admitiriam que bem cabe uma an\u00e1lise sociol\u00f3gica tendo como substrato o direito de morar bem e receber, com ou sem protetor solar, raios do sol acompanhando o \u00f3cio di\u00e1rio com amassos, sa\u00eddas fisiol\u00f3gicas e comer o que n\u00e3o lhes falta, pois, prazerosos por sua companhia os vizinhos, sugerem que n\u00e3o instalem fog\u00e3o, pois a dificultaria a a\u00e7\u00e3o dos bicos de g\u00e1s.<br \/>\nE assim, como nas belas hist\u00f3rias de amor, essa conjun\u00e7\u00e3o de almas \u00e9 aben\u00e7oada contra a maldade dos que se arvoram de donos do peda\u00e7o e gastam energias em caminhadas v\u00e3s, pois nada mais s\u00e3o que sobrepesados burgueses queimando excessos de alimento que falta a outros. Eles, Jo\u00e3o e Maria, devem ficar defronte ao mar. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 10\/12\/2006.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3628","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3628","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3628"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3628\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}