{"id":3630,"date":"2023-12-21T09:10:50","date_gmt":"2023-12-21T12:10:50","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/saudades-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:50","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:50","slug":"saudades-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/saudades-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"SAUDADES &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>O Natal vai ficando pr\u00f3ximo e lembro dos que est\u00e3o longe dos olhos, se perderam no insond\u00e1vel, mas se quedam firmes nos escaninhos da lembran\u00e7a, l\u00e1 onde n\u00e3o sai quem se retira de cena, pois as marca\u00e7\u00f5es gravadas nas saudades teimam em n\u00e3o se afastar. Assim \u00e9 que percorro o labirinto do meu tempo vivido e vou pin\u00e7ando os que se foram e n\u00e3o voltam na dimens\u00e3o em que nos encontramos. Cada um do seu jeito peculiar, na amizade resolvida ou questionada, no folguedo ou na expia\u00e7\u00e3o, em longos tempos ou breves vidas em comum, mas ainda sinto-os de formas distintas, como se existissem di\u00e1logos inimagin\u00e1veis em que conseguimos rir de nossas lamban\u00e7as, andan\u00e7as, festan\u00e7as ou desesperan\u00e7as.<br \/>\nSe bem me lembro, o primeiro foi Francisco Parente de Vasconcelos que, ainda universit\u00e1rio, se fez \u00e9ter l\u00e1 no Rio de Janeiro. Depois, vieram chamar o Marcelo Duque, camarada de col\u00e9gio, amigo de embuan\u00e7as que se tornou diverso de todos e se foi. Geraldo Deusdarah, colega de direito, viajou em seguida por conta de seu cora\u00e7\u00e3o sofrido. O comandante Edson Queiroz, t\u00e3o forte quanto o mon\u00f3lito que o tragou, espa\u00e7ou-se, refundindo-se de forma gaseificada e como \u00e1gua pura, jorra no eterno. E o jeito direto, instigante, atento e arguto do Alcimor Rocha deixou saudade.<br \/>\nE que pe\u00e7a nos pregou o Rogaciano Leite, poeta-amante, isolando-se para sentir-se pronto, aquietado, quem sabe, e definitivo. Raul Fontenele ainda nos fixa com a imagin\u00e1ria brilhantina, camisa bem passada e o vejo impresso e imperme\u00e1vel. E a\u00ed o riso, galhofa e sentimentalidade do Tancredo Carvalho ocupam o vazio da mesa onde n\u00e3o mais nos reunimos, pois dispersos ficamos. Como discutir mais com o R\u00e9gis Juc\u00e1 ou ouvir o seu jeito did\u00e1tico de falar sobre as coisas do cora\u00e7\u00e3o, \u00f3rg\u00e3o e sentimento?<br \/>\nE \u00e9 nesse estado meio entre o n\u00e3o entender mist\u00e9rios e o resgate da parca mem\u00f3ria que me sinto agora e procuro, n\u00e3o com l\u00e1grimas mas com emo\u00e7\u00e3o, as nuances sutis de cada rela\u00e7\u00e3o com esses amigos homens, sem esquecer &#8211; e como poderia &#8211; a mulher amiga, Nat\u00e9rcia Campos, que irm\u00e3 se tornou pelo olhar comum e bem querer que enlevava e nos tornou c\u00famplices eternos.<br \/>\nE nestes dias de Natal, quando as perdas dos amigos pesam e me tornam roto, relembro, com saudade profunda, al\u00e9m dos que enumerei com afeto, a figura do meu pai, simples e destemido, capaz e independente, inteligente e perspicaz, cioso de suas crias, levado que foi ao fechar o port\u00e3o de sua casa, como se simbolizasse, nesse \u00faltimo ato, a abrupta sa\u00edda de cena, t\u00e3o gente que me perco em sa\u00fada-lo. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 17\/12\/2006<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Natal vai ficando pr\u00f3ximo e lembro dos que est\u00e3o longe dos olhos, se perderam no insond\u00e1vel, mas se quedam firmes nos escaninhos da lembran\u00e7a, l\u00e1 onde n\u00e3o sai quem se retira de cena, pois as marca\u00e7\u00f5es gravadas nas saudades teimam em n\u00e3o se afastar. Assim \u00e9 que percorro o labirinto do meu tempo vivido e vou pin\u00e7ando os que se foram e n\u00e3o voltam na dimens\u00e3o em que nos encontramos. Cada um do seu jeito peculiar, na amizade resolvida ou questionada, no folguedo ou na expia\u00e7\u00e3o, em longos tempos ou breves vidas em comum, mas ainda sinto-os de formas distintas, como se existissem di\u00e1logos inimagin\u00e1veis em que conseguimos rir de nossas lamban\u00e7as, andan\u00e7as, festan\u00e7as ou desesperan\u00e7as.<br \/>\nSe bem me lembro, o primeiro foi Francisco Parente de Vasconcelos que, ainda universit\u00e1rio, se fez \u00e9ter l\u00e1 no Rio de Janeiro. Depois, vieram chamar o Marcelo Duque, camarada de col\u00e9gio, amigo de embuan\u00e7as que se tornou diverso de todos e se foi. Geraldo Deusdarah, colega de direito, viajou em seguida por conta de seu cora\u00e7\u00e3o sofrido. O comandante Edson Queiroz, t\u00e3o forte quanto o mon\u00f3lito que o tragou, espa\u00e7ou-se, refundindo-se de forma gaseificada e como \u00e1gua pura, jorra no eterno. E o jeito direto, instigante, atento e arguto do Alcimor Rocha deixou saudade.<br \/>\nE que pe\u00e7a nos pregou o Rogaciano Leite, poeta-amante, isolando-se para sentir-se pronto, aquietado, quem sabe, e definitivo. Raul Fontenele ainda nos fixa com a imagin\u00e1ria brilhantina, camisa bem passada e o vejo impresso e imperme\u00e1vel. E a\u00ed o riso, galhofa e sentimentalidade do Tancredo Carvalho ocupam o vazio da mesa onde n\u00e3o mais nos reunimos, pois dispersos ficamos. Como discutir mais com o R\u00e9gis Juc\u00e1 ou ouvir o seu jeito did\u00e1tico de falar sobre as coisas do cora\u00e7\u00e3o, \u00f3rg\u00e3o e sentimento?<br \/>\nE \u00e9 nesse estado meio entre o n\u00e3o entender mist\u00e9rios e o resgate da parca mem\u00f3ria que me sinto agora e procuro, n\u00e3o com l\u00e1grimas mas com emo\u00e7\u00e3o, as nuances sutis de cada rela\u00e7\u00e3o com esses amigos homens, sem esquecer &#8211; e como poderia &#8211; a mulher amiga, Nat\u00e9rcia Campos, que irm\u00e3 se tornou pelo olhar comum e bem querer que enlevava e nos tornou c\u00famplices eternos.<br \/>\nE nestes dias de Natal, quando as perdas dos amigos pesam e me tornam roto, relembro, com saudade profunda, al\u00e9m dos que enumerei com afeto, a figura do meu pai, simples e destemido, capaz e independente, inteligente e perspicaz, cioso de suas crias, levado que foi ao fechar o port\u00e3o de sua casa, como se simbolizasse, nesse \u00faltimo ato, a abrupta sa\u00edda de cena, t\u00e3o gente que me perco em sa\u00fada-lo. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 17\/12\/2006<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3630","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3630"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3630\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}