{"id":3639,"date":"2023-12-21T09:10:50","date_gmt":"2023-12-21T12:10:50","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/pais-ignorancia-e-aprendizado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:50","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:50","slug":"pais-ignorancia-e-aprendizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/pais-ignorancia-e-aprendizado\/","title":{"rendered":"PAIS, IGNOR\u00c2NCIA E APRENDIZADO"},"content":{"rendered":"<p>Quando minhas filhas foram nascendo, procurei em livrarias do Rio e de S\u00e3o Paulo algo que me desse subs\u00eddio para entender de crian\u00e7as. N\u00e3o havia nada, exceto \u201cO Livro do Beb\u00ea\u201d, do dr. Delamare e chatos livretos de fundamenta\u00e7\u00e3o religiosa. Fiquei meio perdido. J\u00e1 havia feito cursos disso e daquilo, aqui e no exterior, mas n\u00e3o tinha aprendido nada sobre a dif\u00edcil tarefa de ser pai. Falava com pais mais velhos e n\u00e3o recebia muita luz. \u201cCada filho \u00e9 um filho\u201d, \u201cpalmada s\u00f3 se perde a que n\u00e3o d\u00f3i\u201d e outros que tais. Resolvi pensar sobre o assunto. Lembrei da minha inf\u00e2ncia, \u00e9ramos nove irm\u00e3os, compartilhando quartos, banheiros, toalhas, sabonetes, fardas que passavam dos mais velhos aos mais jovens e os livros escolares encadernados com papel madeira para durar dois ou mais anos.<br \/>\nDepois de um tempo matutando, inventei dois personagens, Rosinha e Paulinho. Os dois seriam um pouco mais velhos que minhas filhas e n\u00e3o estudariam no mesmo col\u00e9gio, pois assim poderia ser descoberto o mist\u00e9rio. Rosinha seria um bom exemplo de estudante, sempre uma das primeiras da turma, alegre, comunicativa, compreensiva e n\u00e3o se deixaria abater quando o Paulinho brigasse com ela ou n\u00e3o quisesse dividir a merenda etc.<br \/>\nDeu certo. Quando algo acontecia fora do \u201cscript\u201d familiar, eu me valia da Rosinha e do Paulinho. Eles tomavam banho quando voltavam da escola, n\u00e3o deixavam roupa molhada sobre a cama, faziam o dever de casa, dividiam as coisas, moravam no mesmo quarto e brincavam muito. Paulinho e Rosinha \u201cexistiram\u201d at\u00e9 minhas filhas ficarem adolescentes. Nessa \u00e9poca, falei para elas da minha \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d como um recurso para lhes passar mensagens, ensinamentos, especialmente sobre o compartilhar, amizade etc. As minhas filhas riram muito, pois nunca \u201cencontravam\u201d a Rosinha e o Paulinho, a quem elas tanto queriam conhecer, especialmente quando passe\u00e1vamos de carro ou \u00edamos \u00e0 praia. Sempre eu dava um jeito: eles acabavam de sair, estavam viajando etc.<br \/>\nRecentemente, uma filha, j\u00e1 casada, disse-me que tinha \u201cressuscitado\u201d a Rosinha e o Paulinho. Estava falando com sua filha \u2013 e minha neta \u2013 sobre o bom comportamento da Rosinha e do Paulinho, especialmente sobre cuidados com livros, a atitude de compartilhar, aceitar as diferen\u00e7as e ouvir. Agora, havia chegado a minha hora de rir.<br \/>\nHoje, com tantos livros de autoajuda, Internet, reuni\u00f5es de pais e mestres, talvez n\u00e3o seja mais necess\u00e1rio inventar personagens, mas alegra olhar para o passado e lembrar que viv\u00eancias podem decorrer da mera imagina\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o dos pais com os filhos. Procurando n\u00e3o ser caretas, mas real\u00e7ando exemplos, respeitando o pr\u00f3ximo e gerando uni\u00e3o atrav\u00e9s de pequenos gestos, como o que faziam, entre outras coisas, as minhas filhas que passavam o ano poupando e guardando presentes para distribuir, pessoal e anonimamente, no Natal. Coisa que s\u00f3 vim a saber tempos depois. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nEscritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 13\/02\/2005<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando minhas filhas foram nascendo, procurei em livrarias do Rio e de S\u00e3o Paulo algo que me desse subs\u00eddio para entender de crian\u00e7as. N\u00e3o havia nada, exceto \u201cO Livro do Beb\u00ea\u201d, do dr. Delamare e chatos livretos de fundamenta\u00e7\u00e3o religiosa. Fiquei meio perdido. J\u00e1 havia feito cursos disso e daquilo, aqui e no exterior, mas n\u00e3o tinha aprendido nada sobre a dif\u00edcil tarefa de ser pai. Falava com pais mais velhos e n\u00e3o recebia muita luz. \u201cCada filho \u00e9 um filho\u201d, \u201cpalmada s\u00f3 se perde a que n\u00e3o d\u00f3i\u201d e outros que tais. Resolvi pensar sobre o assunto. Lembrei da minha inf\u00e2ncia, \u00e9ramos nove irm\u00e3os, compartilhando quartos, banheiros, toalhas, sabonetes, fardas que passavam dos mais velhos aos mais jovens e os livros escolares encadernados com papel madeira para durar dois ou mais anos.<br \/>\nDepois de um tempo matutando, inventei dois personagens, Rosinha e Paulinho. Os dois seriam um pouco mais velhos que minhas filhas e n\u00e3o estudariam no mesmo col\u00e9gio, pois assim poderia ser descoberto o mist\u00e9rio. Rosinha seria um bom exemplo de estudante, sempre uma das primeiras da turma, alegre, comunicativa, compreensiva e n\u00e3o se deixaria abater quando o Paulinho brigasse com ela ou n\u00e3o quisesse dividir a merenda etc.<br \/>\nDeu certo. Quando algo acontecia fora do \u201cscript\u201d familiar, eu me valia da Rosinha e do Paulinho. Eles tomavam banho quando voltavam da escola, n\u00e3o deixavam roupa molhada sobre a cama, faziam o dever de casa, dividiam as coisas, moravam no mesmo quarto e brincavam muito. Paulinho e Rosinha \u201cexistiram\u201d at\u00e9 minhas filhas ficarem adolescentes. Nessa \u00e9poca, falei para elas da minha \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d como um recurso para lhes passar mensagens, ensinamentos, especialmente sobre o compartilhar, amizade etc. As minhas filhas riram muito, pois nunca \u201cencontravam\u201d a Rosinha e o Paulinho, a quem elas tanto queriam conhecer, especialmente quando passe\u00e1vamos de carro ou \u00edamos \u00e0 praia. Sempre eu dava um jeito: eles acabavam de sair, estavam viajando etc.<br \/>\nRecentemente, uma filha, j\u00e1 casada, disse-me que tinha \u201cressuscitado\u201d a Rosinha e o Paulinho. Estava falando com sua filha \u2013 e minha neta \u2013 sobre o bom comportamento da Rosinha e do Paulinho, especialmente sobre cuidados com livros, a atitude de compartilhar, aceitar as diferen\u00e7as e ouvir. Agora, havia chegado a minha hora de rir.<br \/>\nHoje, com tantos livros de autoajuda, Internet, reuni\u00f5es de pais e mestres, talvez n\u00e3o seja mais necess\u00e1rio inventar personagens, mas alegra olhar para o passado e lembrar que viv\u00eancias podem decorrer da mera imagina\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o dos pais com os filhos. Procurando n\u00e3o ser caretas, mas real\u00e7ando exemplos, respeitando o pr\u00f3ximo e gerando uni\u00e3o atrav\u00e9s de pequenos gestos, como o que faziam, entre outras coisas, as minhas filhas que passavam o ano poupando e guardando presentes para distribuir, pessoal e anonimamente, no Natal. Coisa que s\u00f3 vim a saber tempos depois. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nEscritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 13\/02\/2005<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3639","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3639","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3639"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3639\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3639"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3639"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3639"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}