{"id":3640,"date":"2023-12-21T09:10:50","date_gmt":"2023-12-21T12:10:50","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/hollywood-e-a-estetica-da-miseria\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:50","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:50","slug":"hollywood-e-a-estetica-da-miseria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/hollywood-e-a-estetica-da-miseria\/","title":{"rendered":"HOLLYWOOD E A EST\u00c9TICA DA MIS\u00c9RIA"},"content":{"rendered":"<p>Hoje \u00e9 noite de Oscar em Hollywood. N\u00e3o tem nenhum filme brasileiro (Di\u00e1rios de Motocicleta \u00e9 falado em espanhol e \u00e9 uma coprodu\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios pa\u00edses) na disputa e, se tivesse, certamente n\u00e3o ganharia. Quais as raz\u00f5es? N\u00e3o sei, mas desconfio. Os diretores e produtores brasileiros, mesmos os ricos e herdeiros, teimam em fazer filmes que real\u00e7am a tal est\u00e9tica da mis\u00e9ria ou contar, em parceria, por exemplo, a hist\u00f3ria do jovem Che Guevara (Di\u00e1rios de Motocicleta). Filmes como Central do Brasil, Carandiru e assemelhados passam batido no crit\u00e9rio hollywoodiano de escolher os vencedores da tal estatueta folheada a ouro. Olga, neste ano, nem indicado foi.<br \/>\nN\u00e3o adianta fazer lobby, associar-se com gringos, dar entrevistas e sonhar. Ali\u00e1s, sonhar \u00e9 bom, mas o sonho da turma de cineastas e produtores americanos \u00e9 diferente do nosso. Eles n\u00e3o veem est\u00e9tica na nossa exposi\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria. As nossas fraturas sociais n\u00e3o dizem respeito \u00e0 traumatologia cinematogr\u00e1fica da era Bush.<br \/>\nA festa da noite de hoje \u00e9, quer n\u00f3s queiramos ou n\u00e3o, a festa da futilidade, exibi\u00e7\u00e3o, filmes coloridos com hist\u00f3rias limitadas, grandes efeitos especiais, apresentador engra\u00e7ado e entrevistas abiloladas. Nada de responsabilidade social, verdades nuas e cruas ou discutir o essencial. \u00c9 o cinema quase inconsequente ou glamouroso. L\u00e1 o f\u00f3rum \u00e9 outro. \u00c9 alienado, desengon\u00e7ado e segue a est\u00e9tica das limusines, vestidos vaporosos, artistas com gel no cabelo, s esperando os \u201cflashes\u2019 e olhando para as c\u00e2meras. As cr\u00edticas, quando as h\u00e1, s\u00e3o em favor de alguma minoria ou contra a venda de armas. Mais do que isso, nada. \u00c9 querer muito. Se \u00e9 tempo de guerra no Iraque, mis\u00e9ria na \u00c1frica, \u201ctsunami\u201d na \u00c1sia e guerrilhas na Am\u00e9rica Latina, os membros do j\u00fari do Oscar n\u00e3o querem ver, saber ou discutir disso.<br \/>\nE parece que, mesmo assim, os filmes americanos continuam sendo admirados por aqui. O filme \u201cHitch\u201d (Tennant, diretor e Will Smith, ator), uma com\u00e9dia sobre um conselheiro sentimental, onde o espectador n\u00e3o precisa pensar, foi visto por mais de 262 mil brasileiros no \u00faltimo fim de semana. O \u201cAviador\u201d(Scorsese e De Caprio) que \u00e9 um pouco, s\u00f3 um pouco, letrado, pois conta a hist\u00f3ria, fragmentada, de uma das muitas vers\u00f5es de Howard Hughes, empreendedor rico, c\u00ednico e vision\u00e1rio que enveredou pelo transtorno obsessivo compulsivo e terminou louco, foi visto por 121 mil. E olha que n\u00e3o estou falando dos filmes \u201cMenina de Ouro\u201d, de Eastwood com Hillary Swank (a mo\u00e7a lutadora de Box) e \u201cSideways\u201d, de Alexander Payne com Paul Giamatti e Haden Church (dois amigos maduros misturando conquistas e depress\u00f5es) que mexem com sentimentos. Parece que os brasileiros est\u00e3o cansados ou cansando do uso da mis\u00e9ria para os mais diversos fins.<br \/>\nQuem sabe se mandarmos no pr\u00f3ximo ano um filme da Xuxa ou do Renato Arag\u00e3o n\u00e3o teremos mais chances de indica\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nEscritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 27\/02\/2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje \u00e9 noite de Oscar em Hollywood. N\u00e3o tem nenhum filme brasileiro (Di\u00e1rios de Motocicleta \u00e9 falado em espanhol e \u00e9 uma coprodu\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios pa\u00edses) na disputa e, se tivesse, certamente n\u00e3o ganharia. Quais as raz\u00f5es? N\u00e3o sei, mas desconfio. Os diretores e produtores brasileiros, mesmos os ricos e herdeiros, teimam em fazer filmes que real\u00e7am a tal est\u00e9tica da mis\u00e9ria ou contar, em parceria, por exemplo, a hist\u00f3ria do jovem Che Guevara (Di\u00e1rios de Motocicleta). Filmes como Central do Brasil, Carandiru e assemelhados passam batido no crit\u00e9rio hollywoodiano de escolher os vencedores da tal estatueta folheada a ouro. Olga, neste ano, nem indicado foi.<br \/>\nN\u00e3o adianta fazer lobby, associar-se com gringos, dar entrevistas e sonhar. Ali\u00e1s, sonhar \u00e9 bom, mas o sonho da turma de cineastas e produtores americanos \u00e9 diferente do nosso. Eles n\u00e3o veem est\u00e9tica na nossa exposi\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria. As nossas fraturas sociais n\u00e3o dizem respeito \u00e0 traumatologia cinematogr\u00e1fica da era Bush.<br \/>\nA festa da noite de hoje \u00e9, quer n\u00f3s queiramos ou n\u00e3o, a festa da futilidade, exibi\u00e7\u00e3o, filmes coloridos com hist\u00f3rias limitadas, grandes efeitos especiais, apresentador engra\u00e7ado e entrevistas abiloladas. Nada de responsabilidade social, verdades nuas e cruas ou discutir o essencial. \u00c9 o cinema quase inconsequente ou glamouroso. L\u00e1 o f\u00f3rum \u00e9 outro. \u00c9 alienado, desengon\u00e7ado e segue a est\u00e9tica das limusines, vestidos vaporosos, artistas com gel no cabelo, s esperando os \u201cflashes\u2019 e olhando para as c\u00e2meras. As cr\u00edticas, quando as h\u00e1, s\u00e3o em favor de alguma minoria ou contra a venda de armas. Mais do que isso, nada. \u00c9 querer muito. 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E olha que n\u00e3o estou falando dos filmes \u201cMenina de Ouro\u201d, de Eastwood com Hillary Swank (a mo\u00e7a lutadora de Box) e \u201cSideways\u201d, de Alexander Payne com Paul Giamatti e Haden Church (dois amigos maduros misturando conquistas e depress\u00f5es) que mexem com sentimentos. Parece que os brasileiros est\u00e3o cansados ou cansando do uso da mis\u00e9ria para os mais diversos fins.<br \/>\nQuem sabe se mandarmos no pr\u00f3ximo ano um filme da Xuxa ou do Renato Arag\u00e3o n\u00e3o teremos mais chances de indica\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nEscritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 27\/02\/2005.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3640","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3640","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3640"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3640\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3640"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3640"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3640"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}