{"id":3642,"date":"2023-12-21T09:10:50","date_gmt":"2023-12-21T12:10:50","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/as-tintas-coloridas-do-escritor\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:50","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:50","slug":"as-tintas-coloridas-do-escritor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/as-tintas-coloridas-do-escritor\/","title":{"rendered":"AS TINTAS COLORIDAS DO ESCRITOR"},"content":{"rendered":"<p>Juarez Leit\u00e3o surgiu na \u00b4turma dos s\u00e1bados\u00b4, um grupo heterodoxo de pessoas que se permite sair do s\u00e9rio entre fala\u00e7\u00f5es e Baco, pelas m\u00e3os de Dorian Sampaio, se n\u00e3o me engano. Eram os anos 90. Chegou e se tornou cativo. Contador de \u00b4causos\u00b4, orador fluente, sabedor de seus dotes, misturando o quase recato de antigo seminarista ao escracho da vida real, foi sendo absorvido e querido. Da\u00ed que resolveu contar, em livro, o que ouvia, sentia e intu\u00eda. Desta salada saiu o livro \u00b4S\u00e1bado, Esta\u00e7\u00e3o de Viver\u00b4, mem\u00f3ria, est\u00f3ria e hist\u00f3ria.<br \/>\nO Juarez poeta passava a perder espa\u00e7o para o cronista de uma cidade resoluta, dissoluta e desvairada. O espa\u00e7o da \u00b4turma dos s\u00e1bados\u00b4 foi apenas o mote para a desenvoltura art\u00edstica de Juarez.<br \/>\nAl\u00e9m de cronista, fez-se pintor e retratou cada um de seus pares. A cada um entregou um retrato emoldurado e os inseriu nas p\u00e1ginas do livro. Era como se estivesse dizendo: \u00b4a vida tem todos os matizes com os quais o vejo\u00b4. E assim, foi entremeando est\u00f3rias da turma, com est\u00f3rias de dom\u00ednio p\u00fablico e privado da Fortaleza que o recebeu e adotou como filho.<br \/>\nSurgia, naquele fim de d\u00e9cada de 90, um novo Juarez. Enturmado, hilariante, mas cioso e ciente que estava sendo transformado. A palavra esta\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo poderia ser entendida como uma parada em sua vida, em que tomou um novo trem e o destino, capcioso e curioso, sorria com a mudan\u00e7a.<br \/>\nS\u00e1bado, Esta\u00e7\u00e3o de Viver\u00b4, em nada se assemelha a outras duas esta\u00e7\u00f5es que conhe\u00e7o, tamb\u00e9m cantadas em livro. Nada tem a ver com o romance (A Pr\u00f3xima Esta\u00e7\u00e3o) de Teoberto Landim ou ao c\u00e9lebre \u00b4Rumo \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Finl\u00e2ndia\u00b4, de Edmund Wilson. Enquanto Landim, professor e escritor, narra as aventuras e desventuras de um bolsista (Thomas) brasileiro na Alemanha e sua volta ao interior do Brasil, Edmund Wilson, americano, cr\u00edtico liter\u00e1rio, jornalista e escritor, vai mexer, ensaiar polemicamente sobre Marx, Engels e o socialismo.<br \/>\nJuarez se permite, e o faz com maestria, a n\u00e3o seguir com organicidade o manual acad\u00eamico de escrever, n\u00e3o vai procurar o problema do sujeito situado de Heidegger ou busca validar o saber e o conhecimento. Nada disso. Juarez se faz livre.<br \/>\nEscreve como contador de hist\u00f3rias, sem preocupa\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, como se estivesse &#8211; e realmente estava &#8211; em uma tarde de s\u00e1bado olhando para um ca\u00eds e visse, com o seu novo olhar de pintor, pessoas, navios, barcos e jangadas sossegados, mas cientes de que o destino de cada um \u00e9 o desassossego da vida e do mar. Assim \u00e9 o livro, tem remansos, mas \u00e9 prenhe de ondas em que quase todos s\u00e3o jogados como o vai e vem das mar\u00e9s. Escapam todos na celebra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA partir de \u00b4S\u00e1bado, Esta\u00e7\u00e3o de Viver\u00b4, o trem liter\u00e1rio e existencial de Juarez Leit\u00e3o toma novo rumo, n\u00e3o o das indaga\u00e7\u00f5es profundas de Edmund Wilson, tampouco o questionamento pessoal do personagem Thomas de \u00b4A Pr\u00f3xima Esta\u00e7\u00e3o\u00b4, de Teoberto Landim. E esse novo rumo \u00e9 misturado com as fortes tintas em que retrata seus muitos amigos, colorindo-os, mesmo que o gris de seus cabelos pedisse comportamento mais comedido. Nada de gris. Nada de pastel. \u00c9 o exagero do contador de causos tamb\u00e9m por tr\u00e1s da vida e do pincel. Some-se a isso sutilezas e n\u00e3o sutilezas que v\u00e3o sendo expostas nas est\u00f3rias relatadas como se achasse o contador de pernas estiradas, chap\u00e9u de palha na cabe\u00e7a, camisa estampada, ventre protuso, copo \u00e0 m\u00e3o, e um grupo de amigos ruidosos, curiosos e atentos \u00e0 escuta.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nAcademia Fortalezense de Letras<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 14\/03\/2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juarez Leit\u00e3o surgiu na \u00b4turma dos s\u00e1bados\u00b4, um grupo heterodoxo de pessoas que se permite sair do s\u00e9rio entre fala\u00e7\u00f5es e Baco, pelas m\u00e3os de Dorian Sampaio, se n\u00e3o me engano. Eram os anos 90. Chegou e se tornou cativo. Contador de \u00b4causos\u00b4, orador fluente, sabedor de seus dotes, misturando o quase recato de antigo seminarista ao escracho da vida real, foi sendo absorvido e querido. Da\u00ed que resolveu contar, em livro, o que ouvia, sentia e intu\u00eda. Desta salada saiu o livro \u00b4S\u00e1bado, Esta\u00e7\u00e3o de Viver\u00b4, mem\u00f3ria, est\u00f3ria e hist\u00f3ria.<br \/>\nO Juarez poeta passava a perder espa\u00e7o para o cronista de uma cidade resoluta, dissoluta e desvairada. O espa\u00e7o da \u00b4turma dos s\u00e1bados\u00b4 foi apenas o mote para a desenvoltura art\u00edstica de Juarez.<br \/>\nAl\u00e9m de cronista, fez-se pintor e retratou cada um de seus pares. A cada um entregou um retrato emoldurado e os inseriu nas p\u00e1ginas do livro. Era como se estivesse dizendo: \u00b4a vida tem todos os matizes com os quais o vejo\u00b4. E assim, foi entremeando est\u00f3rias da turma, com est\u00f3rias de dom\u00ednio p\u00fablico e privado da Fortaleza que o recebeu e adotou como filho.<br \/>\nSurgia, naquele fim de d\u00e9cada de 90, um novo Juarez. Enturmado, hilariante, mas cioso e ciente que estava sendo transformado. A palavra esta\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo poderia ser entendida como uma parada em sua vida, em que tomou um novo trem e o destino, capcioso e curioso, sorria com a mudan\u00e7a.<br \/>\nS\u00e1bado, Esta\u00e7\u00e3o de Viver\u00b4, em nada se assemelha a outras duas esta\u00e7\u00f5es que conhe\u00e7o, tamb\u00e9m cantadas em livro. Nada tem a ver com o romance (A Pr\u00f3xima Esta\u00e7\u00e3o) de Teoberto Landim ou ao c\u00e9lebre \u00b4Rumo \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Finl\u00e2ndia\u00b4, de Edmund Wilson. Enquanto Landim, professor e escritor, narra as aventuras e desventuras de um bolsista (Thomas) brasileiro na Alemanha e sua volta ao interior do Brasil, Edmund Wilson, americano, cr\u00edtico liter\u00e1rio, jornalista e escritor, vai mexer, ensaiar polemicamente sobre Marx, Engels e o socialismo.<br \/>\nJuarez se permite, e o faz com maestria, a n\u00e3o seguir com organicidade o manual acad\u00eamico de escrever, n\u00e3o vai procurar o problema do sujeito situado de Heidegger ou busca validar o saber e o conhecimento. Nada disso. Juarez se faz livre.<br \/>\nEscreve como contador de hist\u00f3rias, sem preocupa\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, como se estivesse &#8211; e realmente estava &#8211; em uma tarde de s\u00e1bado olhando para um ca\u00eds e visse, com o seu novo olhar de pintor, pessoas, navios, barcos e jangadas sossegados, mas cientes de que o destino de cada um \u00e9 o desassossego da vida e do mar. Assim \u00e9 o livro, tem remansos, mas \u00e9 prenhe de ondas em que quase todos s\u00e3o jogados como o vai e vem das mar\u00e9s. Escapam todos na celebra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA partir de \u00b4S\u00e1bado, Esta\u00e7\u00e3o de Viver\u00b4, o trem liter\u00e1rio e existencial de Juarez Leit\u00e3o toma novo rumo, n\u00e3o o das indaga\u00e7\u00f5es profundas de Edmund Wilson, tampouco o questionamento pessoal do personagem Thomas de \u00b4A Pr\u00f3xima Esta\u00e7\u00e3o\u00b4, de Teoberto Landim. E esse novo rumo \u00e9 misturado com as fortes tintas em que retrata seus muitos amigos, colorindo-os, mesmo que o gris de seus cabelos pedisse comportamento mais comedido. Nada de gris. Nada de pastel. \u00c9 o exagero do contador de causos tamb\u00e9m por tr\u00e1s da vida e do pincel. 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