{"id":3648,"date":"2023-12-21T09:10:50","date_gmt":"2023-12-21T12:10:50","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/tristeza-no-ar\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:50","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:50","slug":"tristeza-no-ar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/tristeza-no-ar\/","title":{"rendered":"TRISTEZA NO AR"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias tomei quatro voos diferentes. Como todos sabem, em cada voo h\u00e1 uma tripula\u00e7\u00e3o espec\u00edfica: comandante, co-piloto, comiss\u00e1rio(a) chefe e comiss\u00e1rios(as). Os avi\u00f5es costumam ter, pelo menos, duas classes: executiva e econ\u00f4mica. Nos voos mais longos, pode haver uma primeira classe. O que distingue essa categoriza\u00e7\u00e3o \u00e9 o maior tamanho da poltrona, uma t\u00eanue cortina que a separa dos demais e o servi\u00e7o que inclui, nas classes primeira e executiva, bebidas alco\u00f3licas e um card\u00e1pio que permite op\u00e7\u00f5es nas refei\u00e7\u00f5es. Essa tentativa did\u00e1tica, e talvez at\u00e9 dispens\u00e1vel, \u00e9 para chamar a aten\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 acontecendo, al\u00e9m do que j\u00e1 se sabe, com a avia\u00e7\u00e3o comercial brasileira.<br \/>\nA crise \u00e9 bem mais profunda que a qualidade do assento e da alimenta\u00e7\u00e3o servida e sobre ela j\u00e1 falaram tantos. At\u00e9 agora, nenhuma solu\u00e7\u00e3o foi encontrada. As d\u00edvidas aumentam, empresas fecham, outras devolvem avi\u00f5es etc. N\u00e3o tenho a solu\u00e7\u00e3o para a crise, pois esse assunto se arrasta h\u00e1 anos e, parece, que pol\u00edticos que voam muito, sempre acenam com prov\u00e1veis sa\u00eddas. Que venham.<br \/>\nO que me preocupou nestes \u00faltimos quatro voos foi a apatia, uma esp\u00e9cie velada de tristeza, das tripula\u00e7\u00f5es. Fazem o servi\u00e7o seguindo o manual. Teoricamente s\u00e3o polidos, mas est\u00e1 faltando alegria no ato de trabalhar dos aeronautas. Cumprem a obriga\u00e7\u00e3o, mas sem amor. E o que digo n\u00e3o \u00e9 obrigado a ser certo, mas tento errar o menos poss\u00edvel. Em um desses voos, procurei conversar com uma comiss\u00e1ria e perguntei porque ela estava visivelmente triste. Foi o bastante para que uma torrente de afirma\u00e7\u00f5es sa\u00edsse. Primeira queixa dela: estava trabalhando em escala apertada, em face das demiss\u00f5es na empresa para diminuir custos. Segunda queixa: n\u00e3o sabia at\u00e9 quando continuaria a trabalhar. Temia uma estafa ou receber o aviso pr\u00e9vio.<br \/>\nNo mesmo instante pensei nos pilotos na cabine, aqueles a quem s\u00e3o entregues os sofisticados avi\u00f5es de hoje em dia e no pessoal da manuten\u00e7\u00e3o em terra, a quem cumpre checar se tudo est\u00e1 certo antes da decolagem. Na hist\u00f3ria da avia\u00e7\u00e3o comercial h\u00e1 exemplos claros de erros humanos que causaram a morte de muita gente, mas essas falhas poderiam ser minimizadas se a tripula\u00e7\u00e3o estivesse trabalhando com a cabe\u00e7a tranquila e descansada. Bem que o Departamento de Avia\u00e7\u00e3o Civil, sabedor de tudo isso, poderia olhar logo o lado humano da crise, antes da solu\u00e7\u00e3o financeira, se \u00e9 que vai haver.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nEscritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 01\/05\/2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias tomei quatro voos diferentes. 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As d\u00edvidas aumentam, empresas fecham, outras devolvem avi\u00f5es etc. N\u00e3o tenho a solu\u00e7\u00e3o para a crise, pois esse assunto se arrasta h\u00e1 anos e, parece, que pol\u00edticos que voam muito, sempre acenam com prov\u00e1veis sa\u00eddas. Que venham.<br \/>\nO que me preocupou nestes \u00faltimos quatro voos foi a apatia, uma esp\u00e9cie velada de tristeza, das tripula\u00e7\u00f5es. Fazem o servi\u00e7o seguindo o manual. Teoricamente s\u00e3o polidos, mas est\u00e1 faltando alegria no ato de trabalhar dos aeronautas. Cumprem a obriga\u00e7\u00e3o, mas sem amor. E o que digo n\u00e3o \u00e9 obrigado a ser certo, mas tento errar o menos poss\u00edvel. Em um desses voos, procurei conversar com uma comiss\u00e1ria e perguntei porque ela estava visivelmente triste. Foi o bastante para que uma torrente de afirma\u00e7\u00f5es sa\u00edsse. Primeira queixa dela: estava trabalhando em escala apertada, em face das demiss\u00f5es na empresa para diminuir custos. Segunda queixa: n\u00e3o sabia at\u00e9 quando continuaria a trabalhar. Temia uma estafa ou receber o aviso pr\u00e9vio.<br \/>\nNo mesmo instante pensei nos pilotos na cabine, aqueles a quem s\u00e3o entregues os sofisticados avi\u00f5es de hoje em dia e no pessoal da manuten\u00e7\u00e3o em terra, a quem cumpre checar se tudo est\u00e1 certo antes da decolagem. Na hist\u00f3ria da avia\u00e7\u00e3o comercial h\u00e1 exemplos claros de erros humanos que causaram a morte de muita gente, mas essas falhas poderiam ser minimizadas se a tripula\u00e7\u00e3o estivesse trabalhando com a cabe\u00e7a tranquila e descansada. 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