{"id":3649,"date":"2023-12-21T09:10:51","date_gmt":"2023-12-21T12:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/mae-de-ontem-e-de-hoje-2\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:51","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:51","slug":"mae-de-ontem-e-de-hoje-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/mae-de-ontem-e-de-hoje-2\/","title":{"rendered":"M\u00c3E DE ONTEM E DE HOJE"},"content":{"rendered":"<p>Um dia desses comentava com amigos que a nossa gera\u00e7\u00e3o \u2013 a minha e a deles \u2013 tinha vindo ao mundo de forma mais gentil. Os filhos nasciam, quase sempre, por m\u00e3os de m\u00e9dicos amigos ou de parteiras que, quase integrados \u00e0s fam\u00edlias, ofereciam a crian\u00e7a \u00e0 m\u00e3e parida ainda envolta no l\u00edquido que a protegeu por longos meses. Ap\u00f3s o parto, m\u00e9dico ou parteira lavavam o rosto e as m\u00e3os, tomavam caf\u00e9 com bolo, davam adeus e saiam. A conta ficava para depois, sem pressa e sem ajustes pr\u00e9vios.<br \/>\nA partir da\u00ed era a m\u00e3e quem tomava as r\u00e9deas. O filho \u00e9 teu, cuida dele. Quando muito, era ajudada por uma parenta ou empregada que fazia de tudo. Os filhos mamavam no peito, o ber\u00e7o ficava ali de lado da cama do casal e os outros irm\u00e3os, pois sempre tinham outros, entravam e saiam em algazarra, enquanto ela pedia, sem \u00eaxito, sil\u00eancio.<br \/>\nEssa m\u00e3e, quase sempre, era apenas dona de casa, da\u00ed encontrar tempo para cuidar dos filhos, contar hist\u00f3rias, ouvir r\u00e1dio, costurar, cerzir, ler e tomar banho ao final da tarde para, perfumada e vestida em leve vestido de algod\u00e3o, esperar o marido que trazia novidades da rua.<br \/>\nEssas hist\u00f3rias e lembran\u00e7as, em meio a este Dia das M\u00e3es de 2005, parecem ter acontecido em outra vida em que as portas das casas n\u00e3o tinham chaves de cilindro, nem eram protegidas por grades, eletr\u00f4nica e trancas. As cal\u00e7adas eram prolongamento do viver em fam\u00edlia e os vizinhos n\u00e3o s\u00f3 se conheciam, mas formavam grupos de amigos que jogavam peladas, xadrez, damas, bila, tri\u00e2ngulo, gam\u00e3o ou baralho, com cartas j\u00e1 usadas e curtidas pelo tempo. Hoje, \u201c\u00e9 o menino do 201\u201d, \u201ca vi\u00fava do 402\u201d e \u201co casal que briga no 702\u201d. Parece que ningu\u00e9m tem nome.<br \/>\nE \u00e9 esse mesmo tempo, que nos mostra a face atual da maternidade, pois quem muda s\u00e3o as pessoas e as coisas. A m\u00e3e de hoje \u00e9, via de regra, mulher profissionalizada, ciente dos seus direitos, correspons\u00e1vel pelo sustento da fam\u00edlia, interconectada, programando-se para ter os filhos que determinar, deles cuidar com outros olhares, e assistida \u2013 quando pode pagar &#8211; por \u201cenfermeiras\u201d ou bab\u00e1s de carteira assinada. \u00c9 neste tempo de medo e d\u00favida que a fam\u00edlia se nucleariza e se fecha com temor das di\u00e1sporas sociais. A m\u00e3e de hoje v\u00ea o parceiro n\u00e3o mais como algu\u00e9m que chega da rua com certezas, verdades ou mentiras, mas um associado, algu\u00e9m que com ela compartilha e se defronta no dia- a- dia com uma sociedade competitiva, quase nada solid\u00e1ria e sem muitas refer\u00eancias essenciais.<br \/>\n\u00c0s velhas m\u00e3es ainda vivas, as que j\u00e1 se foram e as que est\u00e3o no meio da tarefa braba de cuidar dos filhos e da vida, ficam o reconhecimento e estas lembran\u00e7as catadas no passado, entremeadas com a vertigem do viver atual, t\u00e3o imponder\u00e1vel quanto desafiador.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 08\/05\/2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia desses comentava com amigos que a nossa gera\u00e7\u00e3o \u2013 a minha e a deles \u2013 tinha vindo ao mundo de forma mais gentil. Os filhos nasciam, quase sempre, por m\u00e3os de m\u00e9dicos amigos ou de parteiras que, quase integrados \u00e0s fam\u00edlias, ofereciam a crian\u00e7a \u00e0 m\u00e3e parida ainda envolta no l\u00edquido que a protegeu por longos meses. Ap\u00f3s o parto, m\u00e9dico ou parteira lavavam o rosto e as m\u00e3os, tomavam caf\u00e9 com bolo, davam adeus e saiam. A conta ficava para depois, sem pressa e sem ajustes pr\u00e9vios.<br \/>\nA partir da\u00ed era a m\u00e3e quem tomava as r\u00e9deas. O filho \u00e9 teu, cuida dele. Quando muito, era ajudada por uma parenta ou empregada que fazia de tudo. Os filhos mamavam no peito, o ber\u00e7o ficava ali de lado da cama do casal e os outros irm\u00e3os, pois sempre tinham outros, entravam e saiam em algazarra, enquanto ela pedia, sem \u00eaxito, sil\u00eancio.<br \/>\nEssa m\u00e3e, quase sempre, era apenas dona de casa, da\u00ed encontrar tempo para cuidar dos filhos, contar hist\u00f3rias, ouvir r\u00e1dio, costurar, cerzir, ler e tomar banho ao final da tarde para, perfumada e vestida em leve vestido de algod\u00e3o, esperar o marido que trazia novidades da rua.<br \/>\nEssas hist\u00f3rias e lembran\u00e7as, em meio a este Dia das M\u00e3es de 2005, parecem ter acontecido em outra vida em que as portas das casas n\u00e3o tinham chaves de cilindro, nem eram protegidas por grades, eletr\u00f4nica e trancas. As cal\u00e7adas eram prolongamento do viver em fam\u00edlia e os vizinhos n\u00e3o s\u00f3 se conheciam, mas formavam grupos de amigos que jogavam peladas, xadrez, damas, bila, tri\u00e2ngulo, gam\u00e3o ou baralho, com cartas j\u00e1 usadas e curtidas pelo tempo. Hoje, \u201c\u00e9 o menino do 201\u201d, \u201ca vi\u00fava do 402\u201d e \u201co casal que briga no 702\u201d. Parece que ningu\u00e9m tem nome.<br \/>\nE \u00e9 esse mesmo tempo, que nos mostra a face atual da maternidade, pois quem muda s\u00e3o as pessoas e as coisas. A m\u00e3e de hoje \u00e9, via de regra, mulher profissionalizada, ciente dos seus direitos, correspons\u00e1vel pelo sustento da fam\u00edlia, interconectada, programando-se para ter os filhos que determinar, deles cuidar com outros olhares, e assistida \u2013 quando pode pagar &#8211; por \u201cenfermeiras\u201d ou bab\u00e1s de carteira assinada. \u00c9 neste tempo de medo e d\u00favida que a fam\u00edlia se nucleariza e se fecha com temor das di\u00e1sporas sociais. A m\u00e3e de hoje v\u00ea o parceiro n\u00e3o mais como algu\u00e9m que chega da rua com certezas, verdades ou mentiras, mas um associado, algu\u00e9m que com ela compartilha e se defronta no dia- a- dia com uma sociedade competitiva, quase nada solid\u00e1ria e sem muitas refer\u00eancias essenciais.<br \/>\n\u00c0s velhas m\u00e3es ainda vivas, as que j\u00e1 se foram e as que est\u00e3o no meio da tarefa braba de cuidar dos filhos e da vida, ficam o reconhecimento e estas lembran\u00e7as catadas no passado, entremeadas com a vertigem do viver atual, t\u00e3o imponder\u00e1vel quanto desafiador.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 08\/05\/2005.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3649","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3649","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3649"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3649\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3649"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3649"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3649"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}