{"id":3651,"date":"2023-12-21T09:10:51","date_gmt":"2023-12-21T12:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-sol-de-lucia-martins\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:51","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:51","slug":"o-sol-de-lucia-martins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-sol-de-lucia-martins\/","title":{"rendered":"O SOL DE L\u00daCIA MARTINS"},"content":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 nada de novo debaixo do sol, e ningu\u00e9m pode dizer: Eis aqui uma coisa nova, porque ela j\u00e1 existiu h\u00e1 s\u00e9culos que se passaram antes de n\u00f3s\u201d. Est\u00e1 l\u00e1 no Eclesiastes. E foi desse livro b\u00edblico que L\u00facia Martins tirou o nome do seu romance \u201cNada de Novo sob o Sol\u201d, publicado em 1967. No princ\u00edpio, era Sandra Lacerda, mas logo se descobriu o seu nome verdadeiro e com ele, em 1977, ganhou o pr\u00eamio Jos\u00e9 de Alencar, pela UFC. Mas, j\u00e1 era vencedora. Em 1945, com \u201cJanelas Entreabertas\u201d, foi men\u00e7\u00e3o honrosa no pr\u00eamio Aequitas. Em 1952, o pr\u00eamio R\u00e1dio Roquete Pinto, no Rio, com \u201cHist\u00f3rias Infantis Radiofonizadas\u201d. Em 1953, com \u201cDestinos Cruzados\u201d, o pr\u00eamio da Prefeitura de Fortaleza.<br \/>\nNeste m\u00eas de maio o Cear\u00e1 perdeu o sol de L\u00facia Martins. N\u00e3o era cearense, mas se cearensizou ao casar com Fran Martins. L\u00facia teve olhos atentos para o que acontecia nesta terra e manifestava esse conhecimento em cr\u00f4nicas, contos e romances. Olhar profundo, semblante sereno, o jeito de quem sabe do mundo e a certeza de \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada de novo sob o sol\u201d, n\u00e3o se deixou ofuscar pelo brilho do marido. Tinha sol pr\u00f3prio. Eram talentos diferentes e paralelos.<br \/>\nEm 1952, aos 26 anos, quando da morte de Joaquim Alves, integrante do grupo Cl\u00e3, escreveu: \u201cAgora, o que se faz preciso \u00e9 cultuar-lhe a mem\u00f3ria, dar-lhe o lugar entre os grandes trabalhadores intelectuais do nordeste, n\u00e3o deix\u00e1-lo esquecido, como se fez com Oliveira Paiva, que somente sessenta anos depois de sua morte teve os seus m\u00e9ritos justamente louvados.\u201d<br \/>\nEm 1953, na revista 14 do Cl\u00e3, estava L\u00facia a entrela\u00e7ar palavras ao criar o conto \u201cQuest\u00e3o de Consci\u00eancia\u201d, depois reproduzido no seu livro \u201cHist\u00f3rias para passar o tempo\u201d, de 2000. Vejam como L\u00facia escreve sobre a morte de uma personagem: \u201cMeia hora depois estava na casa da amiga morta. Chegou apressada, uma cara que sempre fazia para ocasi\u00f5es dessa natureza: missa de s\u00e9timo dia e enterro pedem uma fisionomia diferente. Um ar mais s\u00e9rio, mais s\u00f3brio. E ela sabia manter aquela linha que considerava fazer parte da personalidade da mulher\u201d.<br \/>\nEstive no vel\u00f3rio e na missa de s\u00e9timo dia de L\u00facia e tudo me fazia lembrar o que ela descreveu em 1953, como se madura fosse e era para antever fatos. A serenidade de L\u00facia Martins, p\u00f3s-morte, me fez lembrar de Plat\u00e3o, na Apologia, quando dizia que \u201cningu\u00e9m sabe se a morte, que os homens, em seu medo, sup\u00f5em ser o maior mal, n\u00e3o \u00e9 talvez o maior bem\u201d. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nEscritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 21\/05\/2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 nada de novo debaixo do sol, e ningu\u00e9m pode dizer: Eis aqui uma coisa nova, porque ela j\u00e1 existiu h\u00e1 s\u00e9culos que se passaram antes de n\u00f3s\u201d. Est\u00e1 l\u00e1 no Eclesiastes. E foi desse livro b\u00edblico que L\u00facia Martins tirou o nome do seu romance \u201cNada de Novo sob o Sol\u201d, publicado em 1967. No princ\u00edpio, era Sandra Lacerda, mas logo se descobriu o seu nome verdadeiro e com ele, em 1977, ganhou o pr\u00eamio Jos\u00e9 de Alencar, pela UFC. Mas, j\u00e1 era vencedora. Em 1945, com \u201cJanelas Entreabertas\u201d, foi men\u00e7\u00e3o honrosa no pr\u00eamio Aequitas. Em 1952, o pr\u00eamio R\u00e1dio Roquete Pinto, no Rio, com \u201cHist\u00f3rias Infantis Radiofonizadas\u201d. Em 1953, com \u201cDestinos Cruzados\u201d, o pr\u00eamio da Prefeitura de Fortaleza.<br \/>\nNeste m\u00eas de maio o Cear\u00e1 perdeu o sol de L\u00facia Martins. N\u00e3o era cearense, mas se cearensizou ao casar com Fran Martins. L\u00facia teve olhos atentos para o que acontecia nesta terra e manifestava esse conhecimento em cr\u00f4nicas, contos e romances. Olhar profundo, semblante sereno, o jeito de quem sabe do mundo e a certeza de \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada de novo sob o sol\u201d, n\u00e3o se deixou ofuscar pelo brilho do marido. Tinha sol pr\u00f3prio. Eram talentos diferentes e paralelos.<br \/>\nEm 1952, aos 26 anos, quando da morte de Joaquim Alves, integrante do grupo Cl\u00e3, escreveu: \u201cAgora, o que se faz preciso \u00e9 cultuar-lhe a mem\u00f3ria, dar-lhe o lugar entre os grandes trabalhadores intelectuais do nordeste, n\u00e3o deix\u00e1-lo esquecido, como se fez com Oliveira Paiva, que somente sessenta anos depois de sua morte teve os seus m\u00e9ritos justamente louvados.\u201d<br \/>\nEm 1953, na revista 14 do Cl\u00e3, estava L\u00facia a entrela\u00e7ar palavras ao criar o conto \u201cQuest\u00e3o de Consci\u00eancia\u201d, depois reproduzido no seu livro \u201cHist\u00f3rias para passar o tempo\u201d, de 2000. Vejam como L\u00facia escreve sobre a morte de uma personagem: \u201cMeia hora depois estava na casa da amiga morta. Chegou apressada, uma cara que sempre fazia para ocasi\u00f5es dessa natureza: missa de s\u00e9timo dia e enterro pedem uma fisionomia diferente. Um ar mais s\u00e9rio, mais s\u00f3brio. E ela sabia manter aquela linha que considerava fazer parte da personalidade da mulher\u201d.<br \/>\nEstive no vel\u00f3rio e na missa de s\u00e9timo dia de L\u00facia e tudo me fazia lembrar o que ela descreveu em 1953, como se madura fosse e era para antever fatos. A serenidade de L\u00facia Martins, p\u00f3s-morte, me fez lembrar de Plat\u00e3o, na Apologia, quando dizia que \u201cningu\u00e9m sabe se a morte, que os homens, em seu medo, sup\u00f5em ser o maior mal, n\u00e3o \u00e9 talvez o maior bem\u201d. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nEscritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 21\/05\/2005.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3651","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3651","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3651"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3651\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3651"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3651"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3651"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}