{"id":3654,"date":"2023-12-21T09:10:51","date_gmt":"2023-12-21T12:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-gringo-brasileiro-errou\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:51","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:51","slug":"o-gringo-brasileiro-errou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-gringo-brasileiro-errou\/","title":{"rendered":"O GRINGO-BRASILEIRO ERROU"},"content":{"rendered":"<p>\u201cPor que um pa\u00eds cat\u00f3lico, como o Brasil, tem uma cultura t\u00e3o menos confessional do que a minha p\u00e1tria protestante, os Estados Unidos, onde at\u00e9 os n\u00e3o-famosos escrevem sobre os seus triunfos e traumas, n\u00e3o importando o qu\u00e3o triviais eles sejam?\u201d A pergunta \u00e9 feita na Folha de S\u00e3o Paulo pelo escritor americano Michael Kepp que mora a 22 anos por aqui. Discordo completamente do \u201cgringo-brasileiro\u201d, como ele se auto-intitula.<br \/>\nKepp erra ainda ao dizer que \u201cos brasileiros somente se exp\u00f5em nos reality shows.\u201d Ora, ele esquece que esses \u201cbigs\u201d da vida come\u00e7aram l\u00e1 na sua p\u00e1tria. Uma coisa \u00e9 ser confessional, outra coisa \u00e9 a palha\u00e7ada em que a televis\u00e3o mostra cenas \u00edntimas de pessoas trancafiadas \u00e0 espera do dinheiro do pr\u00eamio ou da gl\u00f3ria futura.<br \/>\nCarlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, Luiz Fernando Ver\u00edssimo, Airton Monte, Lya Luft e outros s\u00e3o puramente confessionais. Cony contou o drama da doen\u00e7a e morte de seu cachorro, sem falar na vida suburbana de seu pai. Zuenir relatou todos os seus passos de sua luta vitoriosa contra um c\u00e2ncer. Ver\u00edssimo descreve sobre o saxofone que toca, o time que torce e faz tro\u00e7a de sua condi\u00e7\u00e3o de ga\u00facho macho. Airton se derrama falando dos amigos, das m\u00fasicas que ouve, do dinheiro que espera ganhar na loto e das longas tardes-noite de domingo em que o vinho o embala na escritura. Lya se desnuda como mulher madura e fala como gente comum de dores, amores perdidos, desenganos, mas com esperan\u00e7a.<br \/>\nCreio que Kepp anda lendo pouco os cronistas brasileiros. Bastaria ler, por exemplo, a Danusa Le\u00e3o. Ela \u00e9 confiss\u00e3o pura, sem retoques e com a liberdade da mulher que tirou todos os acess\u00f3rios reais e virtuais e resolveu assumir a sua solid\u00e3o, as lembran\u00e7as dos ex-amores, a dor pela perda de um filho e a declarada antipatia pela vida social que levava. Os cronistas brasileiros, maiores e menores, se mostram totalmente no que escrevem.<br \/>\nQualquer leitor arguto ver\u00e1 as feridas da alma de quem registra fatos no papel, mesmo que a ironia presida as suas palavras. E olhe que n\u00e3o estou falando na profus\u00e3o de livros lan\u00e7ados todas as semanas. Neles h\u00e1 meninos sonhando, adolescentes criticando, maduros se questionando e velhos se revelando. Muitos falam de suas vidas e as fam\u00edlias ficam felizes por terem um \u201cescritor\u201d entre os parentes. Este n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um pa\u00eds da fofoca, mas \u00e9 tamb\u00e9m o pa\u00eds em que a maioria das pessoas, mesmo as que n\u00e3o escrevem, falam de suas entranhas e das coisas estranhas que acontecem em suas vidas.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 12\/06\/2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPor que um pa\u00eds cat\u00f3lico, como o Brasil, tem uma cultura t\u00e3o menos confessional do que a minha p\u00e1tria protestante, os Estados Unidos, onde at\u00e9 os n\u00e3o-famosos escrevem sobre os seus triunfos e traumas, n\u00e3o importando o qu\u00e3o triviais eles sejam?\u201d A pergunta \u00e9 feita na Folha de S\u00e3o Paulo pelo escritor americano Michael Kepp que mora a 22 anos por aqui. 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