{"id":3658,"date":"2023-12-21T09:10:51","date_gmt":"2023-12-21T12:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/idealizar-ou-demonizar-o-outro\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:51","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:51","slug":"idealizar-ou-demonizar-o-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/idealizar-ou-demonizar-o-outro\/","title":{"rendered":"IDEALIZAR OU DEMONIZAR O OUTRO"},"content":{"rendered":"<p>Um dia, por um motivo qualquer, perdemos a confian\u00e7a em algu\u00e9m. A rela\u00e7\u00e3o, que havia sido constru\u00edda, acaba. E o pior \u00e9 que n\u00f3s ficamos ruminando, pensando, procurando descobrir as raz\u00f5es. Nessas horas, sempre idealizamos ou demonizamos o outro. At\u00e9 o instante da perda da rela\u00e7\u00e3o, o outro faz parte do n\u00f3s, pois o n\u00f3s depende de, pelo menos, duas pessoas. Assim, parece ser na vida familiar, afetiva, profissional, social e at\u00e9 nos sonhos pol\u00edticos e de grandeza que sempre mantemos acessos para o nosso pa\u00eds em cada elei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDe dois em dois anos, quer queiramos ou n\u00e3o, somos obrigados a estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o l\u00f3gica e l\u00facida com candidatos, mas somos afetivos. Temos que escolher, fazer um ju\u00edzo de valor, mas, quase sempre, optamos por gostar mais de A do que dos outros. Por isso, o escolhemos. E como o brasileiro \u00e9 passional, embora n\u00e3o vigie e nem cuide, imagina que tem um v\u00ednculo com o seu candidato. E o mais s\u00e9rio, cada um imagina que o seu candidato tamb\u00e9m tem um v\u00ednculo com ele. Basta uma frase bem dita na televis\u00e3o, uma ideia salvadora, um gesto forte, a mensagem de que tudo ser\u00e1 diferente e o v\u00ednculo est\u00e1 atado. Ele \u00e9 o nosso candidato e her\u00f3i e pensamos que vai fazer l\u00e1 o que n\u00f3s gostar\u00edamos. Para nossa alegria, ele vai eleito. E a\u00ed torcemos para que tudo d\u00ea certo e as promessas sejam cumpridas.<br \/>\nO tempo passa. Um dia, por outro motivo qualquer, perdemos a confian\u00e7a na pessoa que foi eleita. Mas, para isso acontecer, durou um tempo anterior de desconfian\u00e7a. Primeiro, foram os h\u00e1bitos que mudaram. Depois, as companhias. Enfim, o comportamento. E a\u00ed o desengano, como se ele deixasse de fazer parte do n\u00f3s afetivo que, unilateralmente, criamos. Pois o brasileiro n\u00e3o \u00e9 apenas eleitor, \u00e9 uma esp\u00e9cie de avalista afetivo do seu candidato. \u00c9 claro que estou falando do eleitor que se imagina esclarecido, do que se acredita politizado, do que sempre faz planos para o futuro.<br \/>\nE como os nossos pol\u00edticos gostam de falar de improviso, isso me leva ao fil\u00f3sofo Thomas Hobbes, em seu famoso Leviat\u00e3, escrito em 1651, h\u00e1 454 anos, e que pretendia ser mat\u00e9ria, forma e poder de um estado (eclesi\u00e1stico e) civil. Pois Hobbes, talvez admitindo pol\u00edtica como neg\u00f3cio, diz na p\u00e1gina 256 do seu Leviat\u00e3: \u201cEm qualquer neg\u00f3cio, por mais capazes que sejam os conselheiros, o benef\u00edcio do seu conselho \u00e9 maior quando o d\u00e3o a qualquer pessoa sua opini\u00e3o juntamente com as raz\u00f5es dela, do que quando fazem por meio de um discurso numa assembleia. \u00c9 tanto maior quando pensaram antes o que v\u00e3o dizer do que quando fazem de improviso. Porque em ambos os casos tiveram mais tempo para examinar as consequ\u00eancias da a\u00e7\u00e3o e est\u00e3o menos sujeitos a cair em contradi\u00e7\u00e3o, devido \u00e0 inveja, \u00e0 emula\u00e7\u00e3o ou a outras paix\u00f5es que surgem da diversidade de opini\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 10\/07\/2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia, por um motivo qualquer, perdemos a confian\u00e7a em algu\u00e9m. A rela\u00e7\u00e3o, que havia sido constru\u00edda, acaba. E o pior \u00e9 que n\u00f3s ficamos ruminando, pensando, procurando descobrir as raz\u00f5es. Nessas horas, sempre idealizamos ou demonizamos o outro. At\u00e9 o instante da perda da rela\u00e7\u00e3o, o outro faz parte do n\u00f3s, pois o n\u00f3s depende de, pelo menos, duas pessoas. Assim, parece ser na vida familiar, afetiva, profissional, social e at\u00e9 nos sonhos pol\u00edticos e de grandeza que sempre mantemos acessos para o nosso pa\u00eds em cada elei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDe dois em dois anos, quer queiramos ou n\u00e3o, somos obrigados a estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o l\u00f3gica e l\u00facida com candidatos, mas somos afetivos. Temos que escolher, fazer um ju\u00edzo de valor, mas, quase sempre, optamos por gostar mais de A do que dos outros. Por isso, o escolhemos. E como o brasileiro \u00e9 passional, embora n\u00e3o vigie e nem cuide, imagina que tem um v\u00ednculo com o seu candidato. E o mais s\u00e9rio, cada um imagina que o seu candidato tamb\u00e9m tem um v\u00ednculo com ele. Basta uma frase bem dita na televis\u00e3o, uma ideia salvadora, um gesto forte, a mensagem de que tudo ser\u00e1 diferente e o v\u00ednculo est\u00e1 atado. Ele \u00e9 o nosso candidato e her\u00f3i e pensamos que vai fazer l\u00e1 o que n\u00f3s gostar\u00edamos. Para nossa alegria, ele vai eleito. E a\u00ed torcemos para que tudo d\u00ea certo e as promessas sejam cumpridas.<br \/>\nO tempo passa. Um dia, por outro motivo qualquer, perdemos a confian\u00e7a na pessoa que foi eleita. Mas, para isso acontecer, durou um tempo anterior de desconfian\u00e7a. Primeiro, foram os h\u00e1bitos que mudaram. Depois, as companhias. Enfim, o comportamento. E a\u00ed o desengano, como se ele deixasse de fazer parte do n\u00f3s afetivo que, unilateralmente, criamos. Pois o brasileiro n\u00e3o \u00e9 apenas eleitor, \u00e9 uma esp\u00e9cie de avalista afetivo do seu candidato. \u00c9 claro que estou falando do eleitor que se imagina esclarecido, do que se acredita politizado, do que sempre faz planos para o futuro.<br \/>\nE como os nossos pol\u00edticos gostam de falar de improviso, isso me leva ao fil\u00f3sofo Thomas Hobbes, em seu famoso Leviat\u00e3, escrito em 1651, h\u00e1 454 anos, e que pretendia ser mat\u00e9ria, forma e poder de um estado (eclesi\u00e1stico e) civil. Pois Hobbes, talvez admitindo pol\u00edtica como neg\u00f3cio, diz na p\u00e1gina 256 do seu Leviat\u00e3: \u201cEm qualquer neg\u00f3cio, por mais capazes que sejam os conselheiros, o benef\u00edcio do seu conselho \u00e9 maior quando o d\u00e3o a qualquer pessoa sua opini\u00e3o juntamente com as raz\u00f5es dela, do que quando fazem por meio de um discurso numa assembleia. \u00c9 tanto maior quando pensaram antes o que v\u00e3o dizer do que quando fazem de improviso. 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