{"id":3661,"date":"2023-12-21T09:10:51","date_gmt":"2023-12-21T12:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/gonzaga-londres-gonzaga\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:51","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:51","slug":"gonzaga-londres-gonzaga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/gonzaga-londres-gonzaga\/","title":{"rendered":"GONZAGA, LONDRES, GONZAGA"},"content":{"rendered":"<p>Gonzaga \u00e9 uma cidade perdida no interior de Minas Gerais. Tem menos de 6.000 habitantes, mas possui 4.599 eleitores. A renda m\u00e9dia mensal \u00e9 de 240 reais e l\u00e1 n\u00e3o existe leito hospitalar. Foi nessa cidade que nasceu Jean Charles Menezes, o brasileiro de 27 anos, morto dentro de um vag\u00e3o de metr\u00f4 de Londres com oito tiros, dizem que imobilizado e de bru\u00e7os.<br \/>\nUm dia, como tantos outros brasileiros sem esperan\u00e7a, ele resolveu enfrentar a vida e escolheu Londres. Fez-se eletricista, ralou, regularizou seus documentos e ia vivendo. O problema de Jean Charles \u00e9 que ele n\u00e3o era caucasiano. Era um brasileiro de ra\u00e7as misturadas, como quase todos n\u00f3s. Por estar em Londres, a cidade que estava sendo alvo de atentados terroristas, Jean Charles foi perseguido por homens a paisana que eram policiais. Entrou no metr\u00f4 e morreu, do jeito que todos j\u00e1 sabem.<br \/>\nLondres abriga, como toda metr\u00f3pole, um grande contingente de estrangeiros, especialmente os vindos do dito 3o. mundo em busca de emprego e um lugar em meio ao sol, ou melhor, \u00e0 bruma quase di\u00e1ria. Pesquisas e an\u00e1lises feitas por organismos internacionais, ongs e assemelhados mostram claramente que esse \u00eaxodo \u00e9 produto exclusivo da falta de oportunidade em seus pa\u00edses de origem. Acres\u00e7a-se a isso: os imigrantes constituem m\u00e3o-de-obra barata e, quase sempre, submissa e explorada.<br \/>\nQuase todos os dias pessoas como Jean Charles est\u00e3o tentando atravessar fronteiras de pa\u00edses. S\u00f3 no M\u00e9xico, neste ano de 2005, entraram cerca de 60.000 brasileiros e s\u00f3 h\u00e1 registro de sa\u00edda de 7.000. Os outros 53.000 est\u00e3o entre os que j\u00e1 tentaram atravessar a fronteira e conseguiram, os que tentaram e foram presos, os que tentaram e morreram e os que ainda est\u00e3o tentando. Nos pr\u00f3ximos dias chegar\u00e3o em avi\u00e3o fretado 300 deportados.<br \/>\nVoltemos a Londres. De l\u00e1 o corpo de Jean Charles voltou para Gonzaga. Foi enterrado. Houve discursos e cobertura jornal\u00edstica. Por certo, uma indeniza\u00e7\u00e3o seguiu junta e a fam\u00edlia ficar\u00e1 agradecida ou dar\u00e1 procura\u00e7\u00e3o a um diligente advogado que, certamente, se apresentou sol\u00edcito.<br \/>\nEm breve, o caso Jean Charles ser\u00e1 esquecido, mas outros brasileiros como ele estar\u00e3o sendo empurrados para a aventura no exterior e correr\u00e3o os mesmos riscos para mandar dinheiro para os seus, contabilizado pelos bancos brasileiros, quem sabe, como \u201cdivisas vindas do exterior\u201d. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 31\/07\/2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gonzaga \u00e9 uma cidade perdida no interior de Minas Gerais. Tem menos de 6.000 habitantes, mas possui 4.599 eleitores. A renda m\u00e9dia mensal \u00e9 de 240 reais e l\u00e1 n\u00e3o existe leito hospitalar. Foi nessa cidade que nasceu Jean Charles Menezes, o brasileiro de 27 anos, morto dentro de um vag\u00e3o de metr\u00f4 de Londres com oito tiros, dizem que imobilizado e de bru\u00e7os.<br \/>\nUm dia, como tantos outros brasileiros sem esperan\u00e7a, ele resolveu enfrentar a vida e escolheu Londres. Fez-se eletricista, ralou, regularizou seus documentos e ia vivendo. O problema de Jean Charles \u00e9 que ele n\u00e3o era caucasiano. Era um brasileiro de ra\u00e7as misturadas, como quase todos n\u00f3s. Por estar em Londres, a cidade que estava sendo alvo de atentados terroristas, Jean Charles foi perseguido por homens a paisana que eram policiais. Entrou no metr\u00f4 e morreu, do jeito que todos j\u00e1 sabem.<br \/>\nLondres abriga, como toda metr\u00f3pole, um grande contingente de estrangeiros, especialmente os vindos do dito 3o. mundo em busca de emprego e um lugar em meio ao sol, ou melhor, \u00e0 bruma quase di\u00e1ria. Pesquisas e an\u00e1lises feitas por organismos internacionais, ongs e assemelhados mostram claramente que esse \u00eaxodo \u00e9 produto exclusivo da falta de oportunidade em seus pa\u00edses de origem. Acres\u00e7a-se a isso: os imigrantes constituem m\u00e3o-de-obra barata e, quase sempre, submissa e explorada.<br \/>\nQuase todos os dias pessoas como Jean Charles est\u00e3o tentando atravessar fronteiras de pa\u00edses. S\u00f3 no M\u00e9xico, neste ano de 2005, entraram cerca de 60.000 brasileiros e s\u00f3 h\u00e1 registro de sa\u00edda de 7.000. Os outros 53.000 est\u00e3o entre os que j\u00e1 tentaram atravessar a fronteira e conseguiram, os que tentaram e foram presos, os que tentaram e morreram e os que ainda est\u00e3o tentando. Nos pr\u00f3ximos dias chegar\u00e3o em avi\u00e3o fretado 300 deportados.<br \/>\nVoltemos a Londres. De l\u00e1 o corpo de Jean Charles voltou para Gonzaga. Foi enterrado. Houve discursos e cobertura jornal\u00edstica. Por certo, uma indeniza\u00e7\u00e3o seguiu junta e a fam\u00edlia ficar\u00e1 agradecida ou dar\u00e1 procura\u00e7\u00e3o a um diligente advogado que, certamente, se apresentou sol\u00edcito.<br \/>\nEm breve, o caso Jean Charles ser\u00e1 esquecido, mas outros brasileiros como ele estar\u00e3o sendo empurrados para a aventura no exterior e correr\u00e3o os mesmos riscos para mandar dinheiro para os seus, contabilizado pelos bancos brasileiros, quem sabe, como \u201cdivisas vindas do exterior\u201d. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 31\/07\/2005.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3661","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3661","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3661"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3661\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3661"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3661"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3661"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}