{"id":3665,"date":"2023-12-21T09:10:51","date_gmt":"2023-12-21T12:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/os-aparatos-da-solidao\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:51","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:51","slug":"os-aparatos-da-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/os-aparatos-da-solidao\/","title":{"rendered":"OS APARATOS DA SOLID\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>A maioria das pessoas reclama de solid\u00e3o. E h\u00e1 at\u00e9 os que enxergam solid\u00e3o nos outros, mas n\u00e3o veem as suas pr\u00f3prias. Criou-se na sociedade urbana atual um verdadeiro aparato para proteger a nossa privacidade. Temos carros com vidros escuros, travas el\u00e9tricas, alarmes e at\u00e9 blindagem. Usamos telefone que recebe mensagens, liga\u00e7\u00f5es, mas tem bina para triar com que achamos por bem falar. As casas t\u00eam porteiros eletr\u00f4nicos, cercas protetoras, grades, muros altos e c\u00e3es ou vigias. O edif\u00edcio tem vigias, vigil\u00e2ncia eletr\u00f4nica, interfones, c\u00e2meras e at\u00e9 os elevadores t\u00eam c\u00f3digos ou chaves. As empresas s\u00e3o ou imaginam ser verdadeiras cidadelas. Tudo trancado, confinado, filmado.<br \/>\nA cada dia as pessoas v\u00e3o se isolando mais. Para alguns, o trajeto no elevador, em que o vizinho \u00e9 companhia eventual, parece um tempo demasiado longo quando s\u00e3o apenas segundos. Trocam meros cumprimentos, se trocam. H\u00e1 at\u00e9 os que entram no elevador, n\u00e3o enxergam o outro e ficam olhando para o infinito que esbarra na porta a cent\u00edmetros dos seus narizes. O outro \u00e9 o morador do 201 e n\u00e3o o fulano. A outra \u00e9 aquela mo\u00e7a do carro cinza e sem nome E no mesmo pr\u00e9dio podem morar solid\u00f5es a procura de companhia e ai os sites de amizades virtuais imaginam substituir as rela\u00e7\u00f5es vivas entre gente de carne e osso.<br \/>\nLembro da minha casa da inf\u00e2ncia e juventude de porta sem chave, carro sem trava, irm\u00e3os entrando e saindo, vizinhos pedindo para dar um telefonema ou trocando gentilezas. Hoje, as pessoas se quedam no sil\u00eancio, extravasam seus problemas no consult\u00f3rio de analistas ou na ilus\u00e3o da bebida em bares e restaurantes onde o barulho do som embota as conversas. O ombro amigo, aquele que ouve e cala, vai ficando longe da realidade. N\u00e3o se confia, n\u00e3o se confidencia, n\u00e3o se fia. E a\u00ed se poderia objetar que a pessoa amada deveria ser esse confidente. Na verdade, seria bom se assim fosse, mas n\u00e3o \u00e9 a regra geral. Mostrar \u201cas fraquezas\u201d poder\u00e1 ser fatal e a\u00ed n\u00e3o se desce \u00e0 ess\u00eancia e os dois vivem em mundos paralelos e dessemelhantes.<br \/>\nH\u00e1 sa\u00edda? \u00c9 claro que deve haver e isso vai depender de cada um admitir que o outro \u00e9 algu\u00e9m parecido com ele, padecendo dos mesmos males e ansiando por ter com quem possa trocar dois dedos de conversa ou de afagos sem medo de retalia\u00e7\u00f5es ou censuras, pois as nossas vidas, mesmo que n\u00e3o queiramos, acabam enredadas nas teias dos relacionamentos. H\u00e1 um prov\u00e9rbio que diz: \u201cN\u00e3o declares que as estrelas est\u00e3o mortas s\u00f3 porque o c\u00e9u est\u00e1 nublado.\u201d Assim, espere que as nuvens passem e descubra as estrelas. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 28\/08\/2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maioria das pessoas reclama de solid\u00e3o. E h\u00e1 at\u00e9 os que enxergam solid\u00e3o nos outros, mas n\u00e3o veem as suas pr\u00f3prias. Criou-se na sociedade urbana atual um verdadeiro aparato para proteger a nossa privacidade. Temos carros com vidros escuros, travas el\u00e9tricas, alarmes e at\u00e9 blindagem. Usamos telefone que recebe mensagens, liga\u00e7\u00f5es, mas tem bina para triar com que achamos por bem falar. As casas t\u00eam porteiros eletr\u00f4nicos, cercas protetoras, grades, muros altos e c\u00e3es ou vigias. O edif\u00edcio tem vigias, vigil\u00e2ncia eletr\u00f4nica, interfones, c\u00e2meras e at\u00e9 os elevadores t\u00eam c\u00f3digos ou chaves. As empresas s\u00e3o ou imaginam ser verdadeiras cidadelas. Tudo trancado, confinado, filmado.<br \/>\nA cada dia as pessoas v\u00e3o se isolando mais. Para alguns, o trajeto no elevador, em que o vizinho \u00e9 companhia eventual, parece um tempo demasiado longo quando s\u00e3o apenas segundos. Trocam meros cumprimentos, se trocam. H\u00e1 at\u00e9 os que entram no elevador, n\u00e3o enxergam o outro e ficam olhando para o infinito que esbarra na porta a cent\u00edmetros dos seus narizes. O outro \u00e9 o morador do 201 e n\u00e3o o fulano. A outra \u00e9 aquela mo\u00e7a do carro cinza e sem nome E no mesmo pr\u00e9dio podem morar solid\u00f5es a procura de companhia e ai os sites de amizades virtuais imaginam substituir as rela\u00e7\u00f5es vivas entre gente de carne e osso.<br \/>\nLembro da minha casa da inf\u00e2ncia e juventude de porta sem chave, carro sem trava, irm\u00e3os entrando e saindo, vizinhos pedindo para dar um telefonema ou trocando gentilezas. Hoje, as pessoas se quedam no sil\u00eancio, extravasam seus problemas no consult\u00f3rio de analistas ou na ilus\u00e3o da bebida em bares e restaurantes onde o barulho do som embota as conversas. O ombro amigo, aquele que ouve e cala, vai ficando longe da realidade. N\u00e3o se confia, n\u00e3o se confidencia, n\u00e3o se fia. E a\u00ed se poderia objetar que a pessoa amada deveria ser esse confidente. Na verdade, seria bom se assim fosse, mas n\u00e3o \u00e9 a regra geral. Mostrar \u201cas fraquezas\u201d poder\u00e1 ser fatal e a\u00ed n\u00e3o se desce \u00e0 ess\u00eancia e os dois vivem em mundos paralelos e dessemelhantes.<br \/>\nH\u00e1 sa\u00edda? \u00c9 claro que deve haver e isso vai depender de cada um admitir que o outro \u00e9 algu\u00e9m parecido com ele, padecendo dos mesmos males e ansiando por ter com quem possa trocar dois dedos de conversa ou de afagos sem medo de retalia\u00e7\u00f5es ou censuras, pois as nossas vidas, mesmo que n\u00e3o queiramos, acabam enredadas nas teias dos relacionamentos. H\u00e1 um prov\u00e9rbio que diz: \u201cN\u00e3o declares que as estrelas est\u00e3o mortas s\u00f3 porque o c\u00e9u est\u00e1 nublado.\u201d Assim, espere que as nuvens passem e descubra as estrelas. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 28\/08\/2005.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3665","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3665","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3665"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3665\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3665"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3665"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3665"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}