{"id":3667,"date":"2023-12-21T09:10:51","date_gmt":"2023-12-21T12:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/quatro-anos-depois\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:51","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:51","slug":"quatro-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/quatro-anos-depois\/","title":{"rendered":"QUATRO ANOS DEPOIS."},"content":{"rendered":"<p>Faz hoje quatro anos. O s\u00e9culo mal havia come\u00e7ado. Todos n\u00f3s imagin\u00e1vamos que o novo s\u00e9culo e o novo mil\u00eanio seriam de bem-aventuran\u00e7as. O muro de Berlim tinha ca\u00eddo, j\u00e1 n\u00e3o existia a polariza\u00e7\u00e3o que durou por toda a Guerra Fria, a briga milenar continuava na faixa de Gaza, o Afeganist\u00e3o era dizimado, a \u00c1frica continuava a morrer de fome e de doen\u00e7as end\u00eamicas, a Col\u00f4mbia convivia com o narcotr\u00e1fico, a Iugosl\u00e1via ia desaparecendo, mas, apesar disso e muito mais, acredit\u00e1vamos que era assim mesmo e a vida ia sendo tocada como cada um podia.<br \/>\nE o dia de hoje amanheceu. E o dia tinha sol em metade da Terra. As pessoas se encaminhavam para os seus trabalhos ou come\u00e7avam as suas lidas. Bilh\u00f5es de pessoas, pois somos perto de sete bi de todas as cores, ra\u00e7as, credos, idades, patrim\u00f4nios, mis\u00e9rias, dores e sonhos. Todos em tr\u00e2nsito, mas o transe iria eclodir.<br \/>\nDe repente, todos fomos atingidos, n\u00e3o porque estiv\u00e9ssemos l\u00e1 ou c\u00e1, mas por estarmos. V\u00edamos tudo e do jeito que ainda estava acontecendo. Parecia loucura e era. A trag\u00e9dia n\u00e3o era uma farsa. Era o cruel do real, do que a mente atormentada gera, do sucesso da insensatez ou do que a f\u00e9 distorcida provoca. O que fosse. Era a vingan\u00e7a ou o del\u00edrio. Estava l\u00e1. Era fogo querendo aprisionar olhares, eram mergulhos nos ares criando um mar de desencanto. E as pedras rolavam, como se fossem puxadas pela gravidade. E havia gravidade, n\u00e3o a lei da gravidade, mas a de instintos que plantaram c\u00e2ntaros de \u00f3dio e os espargiram com um esgar mort\u00edfero. E respira\u00e7\u00f5es pararam para sempre.<br \/>\nAt\u00f4nitos, olh\u00e1vamos uns para os outros, os meios de comunica\u00e7\u00e3o estavam a pleno, todos falando entre si, sem que uma l\u00edngua comum existisse. Babel XXI. \u00c9ramos parvos a soletrar palavras desconexas e, disl\u00e9xicos, mex\u00edamos os bra\u00e7os sem saber onde colocar as m\u00e3os e os sentimentos.<br \/>\nDesespero, era. Desilus\u00e3o, era. Perplexidade, era. Medo, era. Desafio, era. E era uma Nova Era que chegava ao mundo, de forma tribal, sem limites e qui\u00e7\u00e1 que n\u00e3o por muito. O dia custava a passar e nada do que se ouvia fazia sentido, embora todos os nossos sentidos estivessem alertas. E o pior \u00e9 que n\u00e3o houve alerta, tudo foi de surpresa, n\u00e3o havia anuncia\u00e7\u00e3o, chegou o dia de soslaio, como uma pedra que se joga no rio da humanidade e mata parte da fauna. Descobrimo-nos faunos e mergulhamos na busca dos homens que imagin\u00e1vamos que fossemos. A noite chegou. O dia terminou. Quatro anos passaram, outros dias como aquele pulularam e, neste mesmo dia de hoje, nada mais tem a cor do c\u00e9u de antes. \u00c9 o mesmo azul, o c\u00e9u eterno, as orqu\u00eddeas florescem, mas os pintores s\u00e3o outros, e a pl\u00e1stica que se cria n\u00e3o inspira mais a ilus\u00e3o que os olhares ainda acreditavam possuir.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 11\/09\/2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz hoje quatro anos. O s\u00e9culo mal havia come\u00e7ado. Todos n\u00f3s imagin\u00e1vamos que o novo s\u00e9culo e o novo mil\u00eanio seriam de bem-aventuran\u00e7as. O muro de Berlim tinha ca\u00eddo, j\u00e1 n\u00e3o existia a polariza\u00e7\u00e3o que durou por toda a Guerra Fria, a briga milenar continuava na faixa de Gaza, o Afeganist\u00e3o era dizimado, a \u00c1frica continuava a morrer de fome e de doen\u00e7as end\u00eamicas, a Col\u00f4mbia convivia com o narcotr\u00e1fico, a Iugosl\u00e1via ia desaparecendo, mas, apesar disso e muito mais, acredit\u00e1vamos que era assim mesmo e a vida ia sendo tocada como cada um podia.<br \/>\nE o dia de hoje amanheceu. E o dia tinha sol em metade da Terra. As pessoas se encaminhavam para os seus trabalhos ou come\u00e7avam as suas lidas. Bilh\u00f5es de pessoas, pois somos perto de sete bi de todas as cores, ra\u00e7as, credos, idades, patrim\u00f4nios, mis\u00e9rias, dores e sonhos. Todos em tr\u00e2nsito, mas o transe iria eclodir.<br \/>\nDe repente, todos fomos atingidos, n\u00e3o porque estiv\u00e9ssemos l\u00e1 ou c\u00e1, mas por estarmos. V\u00edamos tudo e do jeito que ainda estava acontecendo. Parecia loucura e era. A trag\u00e9dia n\u00e3o era uma farsa. Era o cruel do real, do que a mente atormentada gera, do sucesso da insensatez ou do que a f\u00e9 distorcida provoca. O que fosse. Era a vingan\u00e7a ou o del\u00edrio. Estava l\u00e1. Era fogo querendo aprisionar olhares, eram mergulhos nos ares criando um mar de desencanto. E as pedras rolavam, como se fossem puxadas pela gravidade. E havia gravidade, n\u00e3o a lei da gravidade, mas a de instintos que plantaram c\u00e2ntaros de \u00f3dio e os espargiram com um esgar mort\u00edfero. E respira\u00e7\u00f5es pararam para sempre.<br \/>\nAt\u00f4nitos, olh\u00e1vamos uns para os outros, os meios de comunica\u00e7\u00e3o estavam a pleno, todos falando entre si, sem que uma l\u00edngua comum existisse. 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Quatro anos passaram, outros dias como aquele pulularam e, neste mesmo dia de hoje, nada mais tem a cor do c\u00e9u de antes. \u00c9 o mesmo azul, o c\u00e9u eterno, as orqu\u00eddeas florescem, mas os pintores s\u00e3o outros, e a pl\u00e1stica que se cria n\u00e3o inspira mais a ilus\u00e3o que os olhares ainda acreditavam possuir.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 11\/09\/2005.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3667","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3667","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3667"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3667\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3667"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3667"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3667"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}