{"id":3680,"date":"2023-12-21T09:10:51","date_gmt":"2023-12-21T12:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/memoria\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:51","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:51","slug":"memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/memoria\/","title":{"rendered":"MEM\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p>Adam Phillips \u00e9 um psicanalista que, atualmente, coordena a tradu\u00e7\u00e3o, para o ingl\u00eas, das obras completas de Sigmund Freud. Consequentemente, Phillips tem escrito sobre mem\u00f3ria. De seu \u00faltimo ensaio, \u201cA Mem\u00f3ria For\u00e7ada\u201d, vou tentar, na medida da minha incompet\u00eancia psicanal\u00edtica, tirar alguns trechos. Foi originariamente, publicado na revista \u201cIndex on Censorship\u201d e, posteriormente, no caderno de cultura \u201cMais\u201d, neste novembro.<br \/>\nSegundo ele, \u201cExiste uma cren\u00e7a esperan\u00e7osa sob o mito redentor da mem\u00f3ria: a de aquilo que deve ser lembrado \u2013 desde que nos lembremos das coisas certas e da maneira certa -beneficia o nosso bem-estar e at\u00e9 mesmo a nossa virtude. Recordar, se o fizermos da maneira apropriada, nos dar\u00e1 as vidas que desejamos\u201d.<br \/>\nAdam Phillips pretende demonstrar, parece ser, que muitas mem\u00f3rias n\u00e3o t\u00eam nada de espontaneidade hist\u00f3rica e, provavelmente, apaziguam sentimentos. Na verdade, a mem\u00f3ria \u00e9 aquilo que n\u00e3o se esquece espontaneamente e a hist\u00f3ria registra independente do passar do tempo. Reparem quando diz: \u201cA mem\u00f3ria pode at\u00e9 nos manter cordatos. Mas, na verdade, estamos conscientes, em \u00e1rea distinta de nossas mentes, que a mem\u00f3ria seja mais virtuosa do que aqueles que a manifestam\u201d.<br \/>\nE explica porque isso acontece: \u201cNosso medo (moderno) \u00e9 o de que n\u00e3o obtenhamos sucesso no esquecimento ou de que o esquecimento n\u00e3o seja poss\u00edvel\u201d. E vai em frente: \u201cFazer com que as pessoas recordem tende a presumir que seja poss\u00edvel calcular as respostas que ter\u00e3o \u00e0s mem\u00f3rias. \u00c9 uma tentativa de impor uma solu\u00e7\u00e3o artificial, quando solu\u00e7\u00f5es artificiais s\u00e3o parte do problema. A recorda\u00e7\u00e3o for\u00e7ada \u2013 a absurda ideia de que seria poss\u00edvel aprender de cor a hist\u00f3ria pessoal e em uma vis\u00e3o correta \u2013 na verdade demonstra medo da hist\u00f3ria: um bem fundamentado temor de que o passado esteja sujeito a m\u00faltiplas e variadas interpreta\u00e7\u00f5es\u201d.<br \/>\nDito isto, pois de mem\u00f3ria entendo pouco, embora imagine ter sentimentos que guardo e preservo, lembro-me do que escreveu, dia desses, Carlos Heitor Cony: \u201cLeitores, se os tenho, reclamam aos canais competentes dos assuntos que abordo em minhas cr\u00f4nicas, que n\u00e3o considero colunas, mas cr\u00f4nicas mesmo\u201d.<br \/>\nAssim, falar de mem\u00f3rias, mesmo fazendo cita\u00e7\u00f5es, pode at\u00e9 parecer que n\u00e3o seja cr\u00f4nica, mas talvez seja. E, para encerrar, uma de Gilberto Amado (A Chave de Salom\u00e3o): \u201cTodas as desgra\u00e7as humanas v\u00eam da mem\u00f3ria. O homem junta-lhe ainda a inquieta\u00e7\u00e3o do futuro.\u201d<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 11\/12\/2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adam Phillips \u00e9 um psicanalista que, atualmente, coordena a tradu\u00e7\u00e3o, para o ingl\u00eas, das obras completas de Sigmund Freud. Consequentemente, Phillips tem escrito sobre mem\u00f3ria. De seu \u00faltimo ensaio, \u201cA Mem\u00f3ria For\u00e7ada\u201d, vou tentar, na medida da minha incompet\u00eancia psicanal\u00edtica, tirar alguns trechos. Foi originariamente, publicado na revista \u201cIndex on Censorship\u201d e, posteriormente, no caderno de cultura \u201cMais\u201d, neste novembro.<br \/>\nSegundo ele, \u201cExiste uma cren\u00e7a esperan\u00e7osa sob o mito redentor da mem\u00f3ria: a de aquilo que deve ser lembrado \u2013 desde que nos lembremos das coisas certas e da maneira certa -beneficia o nosso bem-estar e at\u00e9 mesmo a nossa virtude. Recordar, se o fizermos da maneira apropriada, nos dar\u00e1 as vidas que desejamos\u201d.<br \/>\nAdam Phillips pretende demonstrar, parece ser, que muitas mem\u00f3rias n\u00e3o t\u00eam nada de espontaneidade hist\u00f3rica e, provavelmente, apaziguam sentimentos. Na verdade, a mem\u00f3ria \u00e9 aquilo que n\u00e3o se esquece espontaneamente e a hist\u00f3ria registra independente do passar do tempo. Reparem quando diz: \u201cA mem\u00f3ria pode at\u00e9 nos manter cordatos. Mas, na verdade, estamos conscientes, em \u00e1rea distinta de nossas mentes, que a mem\u00f3ria seja mais virtuosa do que aqueles que a manifestam\u201d.<br \/>\nE explica porque isso acontece: \u201cNosso medo (moderno) \u00e9 o de que n\u00e3o obtenhamos sucesso no esquecimento ou de que o esquecimento n\u00e3o seja poss\u00edvel\u201d. E vai em frente: \u201cFazer com que as pessoas recordem tende a presumir que seja poss\u00edvel calcular as respostas que ter\u00e3o \u00e0s mem\u00f3rias. \u00c9 uma tentativa de impor uma solu\u00e7\u00e3o artificial, quando solu\u00e7\u00f5es artificiais s\u00e3o parte do problema. 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