{"id":3681,"date":"2023-12-21T09:10:51","date_gmt":"2023-12-21T12:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/guardados-existenciais\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:51","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:51","slug":"guardados-existenciais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/guardados-existenciais\/","title":{"rendered":"GUARDADOS EXISTENCIAIS"},"content":{"rendered":"<p>Quando nascemos o pacote j\u00e1 vem pronto. Temos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. Tudo isso junto vai formando o tempo de viver. Essa vida que recebemos sem querer ou saber e, s\u00f3 a partir de um determinado instante, muito depois, dela tomamos vera consci\u00eancia. E isso acontece, por exemplo, quando se completa 40 anos de formatura em Direito. Nesse instante \u00e9 que nos perguntamos: E agora? Agora \u00e9 aquele momento em que se para e recebe um sacolejo, procurando respostas que n\u00e3o sabemos ou a pouca aud\u00e1cia nos impede de descobrir.<br \/>\nEsta \u00e9poca do ano n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de justas comemora\u00e7\u00f5es, nem apenas o tempo de se fazer listas de presentes, comer, beber ou programar o que fazer com as sobras do sal\u00e1rio. Ela \u00e9 um tempo em que muitos ficam a pensar nos sonhos que imaginou, realizou ou os perdeu pelo caminho. Nos desejos jogados para escanteio em nome da preserva\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es, interesses ou medos. \u00c9 a procura, quem sabe, daquilo que deveria ter sido feito e n\u00e3o foi.<br \/>\nIsso bate mesmo. Bate para o Papa, o Rei da Espanha, o Z\u00e9 da mercearia, o Dirceu, a Mar\u00edlia, o Bush, enfim, sobra para todos os que est\u00e3o mexendo com o exerc\u00edcio de viver. E bate porque sabemos que para tudo h\u00e1 come\u00e7o, meio e fim. E quando chegamos ao que se acredita seja o meio de tudo isso, a\u00ed a vontade vem de rold\u00e3o e nos fustiga a coragem, mexe com as entranhas e estranhos ju\u00edzos passam pela cabe\u00e7a.<br \/>\n\u00c9 o tempo de remexer nos guardados existenciais, os que colocam uma esp\u00e9cie de Sonrisal no presente e dele n\u00e3o saem s\u00f3 borbulhas de amor, como quer o Fagner. Seria um tempo de revela\u00e7\u00e3o, mesmo que fugidio como o passo da gazela ou sutil como o pousar de uma borboleta. Essa esta\u00e7\u00e3o que se quer eterna &#8212; e n\u00e3o o \u00e9, mas um mero ciclo, qui\u00e7\u00e1 um breve ciclone que provoca cismas, &#8212; passa e deixa sedimentos de esperan\u00e7as que n\u00e3o podem ser desperdi\u00e7ados. Fugazes s\u00e3o e precisam ser capturados pelo obturador que repousa em nossos sentimentos.<br \/>\nComo n\u00e3o podemos viver na ante-sala do amanh\u00e3, precisamos ralar o ch\u00e3o do presente, tentar dissipar as teias que nos enredam, escoimar o que n\u00e3o nos diz respeito e abrigar os que queremos bem, os que est\u00e3o conosco para o que der e vier. Estes, s\u00e3o poucos. E justamente por serem raros t\u00eam de ser rastreados com destreza e atados pelos fios da benqueren\u00e7a em la\u00e7os que n\u00e3o devem ser afrouxados pelo tempo, esse d\u00e9spota que n\u00e3o descansa. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 18\/12\/2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando nascemos o pacote j\u00e1 vem pronto. Temos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. Tudo isso junto vai formando o tempo de viver. 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Bate para o Papa, o Rei da Espanha, o Z\u00e9 da mercearia, o Dirceu, a Mar\u00edlia, o Bush, enfim, sobra para todos os que est\u00e3o mexendo com o exerc\u00edcio de viver. E bate porque sabemos que para tudo h\u00e1 come\u00e7o, meio e fim. E quando chegamos ao que se acredita seja o meio de tudo isso, a\u00ed a vontade vem de rold\u00e3o e nos fustiga a coragem, mexe com as entranhas e estranhos ju\u00edzos passam pela cabe\u00e7a.<br \/>\n\u00c9 o tempo de remexer nos guardados existenciais, os que colocam uma esp\u00e9cie de Sonrisal no presente e dele n\u00e3o saem s\u00f3 borbulhas de amor, como quer o Fagner. Seria um tempo de revela\u00e7\u00e3o, mesmo que fugidio como o passo da gazela ou sutil como o pousar de uma borboleta. Essa esta\u00e7\u00e3o que se quer eterna &#8212; e n\u00e3o o \u00e9, mas um mero ciclo, qui\u00e7\u00e1 um breve ciclone que provoca cismas, &#8212; passa e deixa sedimentos de esperan\u00e7as que n\u00e3o podem ser desperdi\u00e7ados. 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