{"id":3687,"date":"2023-12-21T09:10:51","date_gmt":"2023-12-21T12:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/cidade-de-deus-ou-do-diabo\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:51","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:51","slug":"cidade-de-deus-ou-do-diabo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/cidade-de-deus-ou-do-diabo\/","title":{"rendered":"Cidade de Deus ou do Diabo?"},"content":{"rendered":"<p>Gosto muito de cinema e estou orgulhoso pelo fato do o Brasil ter quatro indica\u00e7\u00f5es (dire\u00e7\u00e3o, roteiro, edi\u00e7\u00e3o e fotografia) para a festa do Oscar deste ano. E ficaria muito mais se o filme escolhido n\u00e3o fosse \u00b4Cidade de Deus\u00b4. Vi o filme de Fernando Meireles com aten\u00e7\u00e3o e respeito, mas confesso que n\u00e3o encontro raz\u00f5es para tanto incenso a uma produ\u00e7\u00e3o que tem como base a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, o uso do que se convencionou chamar de \u00b4cosm\u00e9tica da fome\u00b4, no dizer da professora carioca, Ivana Bentes. Para ela, \u00b4o filme vende uma imagem caricatural, de traficantes negros animalizados, assassinos por natureza.<br \/>\nPara ficar no passado recente, desde o filme \u00b4Central do Brasil\u00b4, de Walter Salles, outro disc\u00edpulo da \u00b4cosm\u00e9tica da fome\u00b4, que o Brasil persegue as estatuetas do Oscar. O pa\u00eds mostrado nesses dois filmes \u00e9 parte da realidade nacional, mas n\u00e3o \u00e9 o que se poderia chamar de algo positivo ou alavancador da autoestima brasileira. S\u00e3o, ao contr\u00e1rio, denunciadores da desigualdade que temos e precisamos urgentemente reparar, mas n\u00e3o s\u00e3o bons produtos de exporta\u00e7\u00e3o. Est\u00e3o mais para a execra\u00e7\u00e3o, ainda que lastreados em fatos reais.<br \/>\nA imagem brasileira, j\u00e1 t\u00e3o desgastada e propositadamente aviltada por parte das elites dos pa\u00edses desenvolvidos, parece ser compartilhada por cineastas que a usam para retratar apenas aquilo que nos caracteriza como \u00b4terceiro mundo\u00b4. Aqui n\u00e3o \u00e9 nenhum para\u00edso, sabe-se disso. Tampouco o Brasil \u00e9 uma grande \u00b4Cidade de Deus\u00b4. H\u00e1 muito argumento, al\u00e9m das favelas, o agreste esqu\u00e1lido do Nordeste e o crime organizado ou desorganizado, que s\u00e3o as motiva\u00e7\u00f5es essenciais de quase todos os \u00faltimos filmes brasileiros.<br \/>\nN\u00e3o se trata de esconder as nossas mazelas ou deixar de mostrar a face discriminat\u00f3ria de grande parte da sociedade brasileira. Mas h\u00e1 tantos outros \u00b4brasis\u00b4 e enredos a serem mapeados para filmes de boa tessitura, que chega a parecer ran\u00e7o ou aproveitamento esse renitente e repetido uso do que temos de mais feio, sob o ponto de vista est\u00e9tico, mais cruel, sob o aspecto social e segregacionista, na vis\u00e3o racial.<br \/>\nSe eu estiver errado, pe\u00e7o desculpas, mas seria bom que os filmes brasileiros fossem n\u00e3o apenas denunciadores das graves e grandes desigualdades sociais, mas, igualmente, tentassem melhorar a nossa imagem externa t\u00e3o combalida, repito. Que venham as estatuetas, se poss\u00edvel, mas \u00e9 urgente se rediscutir o enfoque da filmografia brasileira t\u00e3o ciosa de apoios do governo e de mecenas, mas imbricada apenas com o lado \u00b4noir\u00b4 de uma na\u00e7\u00e3o colorida e diversa que precisa respirar, viver e sonhar com ares menos catastr\u00f3ficos e densos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 15\/02\/2004.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gosto muito de cinema e estou orgulhoso pelo fato do o Brasil ter quatro indica\u00e7\u00f5es (dire\u00e7\u00e3o, roteiro, edi\u00e7\u00e3o e fotografia) para a festa do Oscar deste ano. E ficaria muito mais se o filme escolhido n\u00e3o fosse \u00b4Cidade de Deus\u00b4. Vi o filme de Fernando Meireles com aten\u00e7\u00e3o e respeito, mas confesso que n\u00e3o encontro raz\u00f5es para tanto incenso a uma produ\u00e7\u00e3o que tem como base a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, o uso do que se convencionou chamar de \u00b4cosm\u00e9tica da fome\u00b4, no dizer da professora carioca, Ivana Bentes. Para ela, \u00b4o filme vende uma imagem caricatural, de traficantes negros animalizados, assassinos por natureza.<br \/>\nPara ficar no passado recente, desde o filme \u00b4Central do Brasil\u00b4, de Walter Salles, outro disc\u00edpulo da \u00b4cosm\u00e9tica da fome\u00b4, que o Brasil persegue as estatuetas do Oscar. O pa\u00eds mostrado nesses dois filmes \u00e9 parte da realidade nacional, mas n\u00e3o \u00e9 o que se poderia chamar de algo positivo ou alavancador da autoestima brasileira. S\u00e3o, ao contr\u00e1rio, denunciadores da desigualdade que temos e precisamos urgentemente reparar, mas n\u00e3o s\u00e3o bons produtos de exporta\u00e7\u00e3o. Est\u00e3o mais para a execra\u00e7\u00e3o, ainda que lastreados em fatos reais.<br \/>\nA imagem brasileira, j\u00e1 t\u00e3o desgastada e propositadamente aviltada por parte das elites dos pa\u00edses desenvolvidos, parece ser compartilhada por cineastas que a usam para retratar apenas aquilo que nos caracteriza como \u00b4terceiro mundo\u00b4. Aqui n\u00e3o \u00e9 nenhum para\u00edso, sabe-se disso. Tampouco o Brasil \u00e9 uma grande \u00b4Cidade de Deus\u00b4. 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