{"id":3696,"date":"2023-12-21T09:10:52","date_gmt":"2023-12-21T12:10:52","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/cervantes-e-as-injusticas\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:52","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:52","slug":"cervantes-e-as-injusticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/cervantes-e-as-injusticas\/","title":{"rendered":"CERVANTES E AS INJUSTI\u00c7AS"},"content":{"rendered":"<p>A primeira vez em que estive na Espanha foi em 1965. Data desse tempo a minha aligeirada inicia\u00e7\u00e3o a Miguel de Cervantes, o mais c\u00e9lebre escritor espanhol. Foi numa longa viagem de \u00f4nibus, cortando todo o pa\u00eds. Comprei, num sebo, um barato e velho exemplar de D.Quixote. Outras oportunidades vieram depois. Nenhuma, como a que fiz em outubro passado, em que por erros e acertos, novamente de \u00f4nibus, andei pela regi\u00e3o da Mancha, onde a imagina\u00e7\u00e3o de Cervantes, no ano de 1604, foi plantar, em meio a moinhos, a figura de D.Quixote, um desengon\u00e7ado cavaleiro que via al\u00e9m do que era permitido \u00e0 \u00e9poca, em que a inquisi\u00e7\u00e3o reinava. Parecia que estava vendo o esbo\u00e7o err\u00e1tico de D.Quixote nos arredores de Albacete.<br \/>\nMiguel de Cervantes tinha 57 anos em 1604, muita idade para a \u00e9poca, quando decidiu escrever D. Quixote. J\u00e1 havia lutado, viajado, escrito, sido acusado e preso. Restavam-lhe uma m\u00e3o, um p\u00edfio emprego e alguns fracassos liter\u00e1rios. Parece que a sua desdita &#8211; liter\u00e1ria e pessoal &#8211; foi o cond\u00e3o para criar uma prosaica hist\u00f3ria que se mant\u00e9m viva 400 anos depois. Do seu g\u00eanio saiu o primeiro e um dos maiores romances da era moderna.<br \/>\nA hist\u00f3ria de D. Quixote \u00e9 simples: um velho e ex\u00f3tico fidalgo de prov\u00edncia que se contentava em ler hist\u00f3rias de cavalaria, resolve incorporar um her\u00f3i e se descobre sonhador, apaixonado, perdido e desolado. Veste-se com uma ultrapassada armadura e uma lan\u00e7a e sai a defender uma utopia, guerreando contra as injusti\u00e7as. Apanha muito, mas n\u00e3o desiste de seus sonhos, dentre eles o amor idealizado por uma camponesa (Dulcin\u00e9ia), que ele acredita ser a mais bela das mulheres. N\u00e3o adianta que o padre e o barbeiro queimem seus livros. Quixote resiste a tudo, monta em seu cavalo (Rocinonte) e consegue a parceria e a fidelidade de Sancho, uma esp\u00e9cie de contraponto para as suas tristezas, quimeras e desventuras. Ao final, \u00e9 ferido em duelo com Carrasco, recolhe-se e agoniza sem o amor de Dulcin\u00e9ia (\u201cQuem tu \u00e9s n\u00e3o importa, nem conheces o sonho em que nasceu a tua face\u201d, Saramago). E, mesmo assim, antes de morrer, os seus del\u00edrios real\u00e7am a ilus\u00e3o e a cren\u00e7a nos seus valores e utopia.<br \/>\nPois bem, n\u00e3o \u00e9 que D. Quixote e Cervantes foram, recentemente, tema central de um semin\u00e1rio (\u201cA Justi\u00e7a e D.Quixote\u201d) entre ju\u00edzes brasileiros no Rio de Janeiro, com a participa\u00e7\u00e3o do Ministro Edson Vidigal, presidente do Superior Tribunal de Justi\u00e7a, em que se rediscutiu a necessidade das pessoas manter utopias. N\u00e3o basta a realidade crua e fria do dia-a-dia, \u00e9 precisar sustentar acesos os sonhos, as utopias de combate \u00e0 injusti\u00e7a. E isso \u00e9 bom, quando parte de ju\u00edzes que precisam dar aos brasileiros alguma esperan\u00e7a em meio a tantos problemas reais que levam ao desencanto. Para o Ministro Edson Vidigal, \u201cprecisamos de um sonho para nos manter de p\u00e9. Por que ent\u00e3o n\u00e3o sonhamos com um Brasil mais alegre, mais fraterno, mais desenvolvido e com menos sofrimento e ansiedade?\u201d. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n Escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 20\/06\/2004.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira vez em que estive na Espanha foi em 1965. Data desse tempo a minha aligeirada inicia\u00e7\u00e3o a Miguel de Cervantes, o mais c\u00e9lebre escritor espanhol. Foi numa longa viagem de \u00f4nibus, cortando todo o pa\u00eds. Comprei, num sebo, um barato e velho exemplar de D.Quixote. Outras oportunidades vieram depois. Nenhuma, como a que fiz em outubro passado, em que por erros e acertos, novamente de \u00f4nibus, andei pela regi\u00e3o da Mancha, onde a imagina\u00e7\u00e3o de Cervantes, no ano de 1604, foi plantar, em meio a moinhos, a figura de D.Quixote, um desengon\u00e7ado cavaleiro que via al\u00e9m do que era permitido \u00e0 \u00e9poca, em que a inquisi\u00e7\u00e3o reinava. Parecia que estava vendo o esbo\u00e7o err\u00e1tico de D.Quixote nos arredores de Albacete.<br \/>\nMiguel de Cervantes tinha 57 anos em 1604, muita idade para a \u00e9poca, quando decidiu escrever D. Quixote. J\u00e1 havia lutado, viajado, escrito, sido acusado e preso. Restavam-lhe uma m\u00e3o, um p\u00edfio emprego e alguns fracassos liter\u00e1rios. Parece que a sua desdita &#8211; liter\u00e1ria e pessoal &#8211; foi o cond\u00e3o para criar uma prosaica hist\u00f3ria que se mant\u00e9m viva 400 anos depois. Do seu g\u00eanio saiu o primeiro e um dos maiores romances da era moderna.<br \/>\nA hist\u00f3ria de D. Quixote \u00e9 simples: um velho e ex\u00f3tico fidalgo de prov\u00edncia que se contentava em ler hist\u00f3rias de cavalaria, resolve incorporar um her\u00f3i e se descobre sonhador, apaixonado, perdido e desolado. Veste-se com uma ultrapassada armadura e uma lan\u00e7a e sai a defender uma utopia, guerreando contra as injusti\u00e7as. Apanha muito, mas n\u00e3o desiste de seus sonhos, dentre eles o amor idealizado por uma camponesa (Dulcin\u00e9ia), que ele acredita ser a mais bela das mulheres. N\u00e3o adianta que o padre e o barbeiro queimem seus livros. Quixote resiste a tudo, monta em seu cavalo (Rocinonte) e consegue a parceria e a fidelidade de Sancho, uma esp\u00e9cie de contraponto para as suas tristezas, quimeras e desventuras. Ao final, \u00e9 ferido em duelo com Carrasco, recolhe-se e agoniza sem o amor de Dulcin\u00e9ia (\u201cQuem tu \u00e9s n\u00e3o importa, nem conheces o sonho em que nasceu a tua face\u201d, Saramago). 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