{"id":3702,"date":"2023-12-21T09:10:52","date_gmt":"2023-12-21T12:10:52","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/dialogar-com-moacyr-scliar\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:52","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:52","slug":"dialogar-com-moacyr-scliar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/dialogar-com-moacyr-scliar\/","title":{"rendered":"DIALOGAR COM MOACYR SCLIAR"},"content":{"rendered":"<p>LIVROS<br \/>\nMoacyr Scliar na bienal<br \/>\nFui avisado, na semana passada, por uma das coordenadoras desta Bienal, que tinha sido escolhido para dialogar com Moacyr Scliar. Por que eu? Jo\u00e3o, deixe de conversa, ser\u00e1 sexta-feira, dia 3, \u00e0s 19 horas. Um beijo e desligou. Fico matutando e lembro que li recentemente uma pequena cole\u00e7\u00e3o chamada de \u201cVozes do Golpe\u201d, da Companhia das Letras, e que um desses pequenos e preciosos quatro livros, era \u201cM\u00e3e Judia\u201d, 1964, de Moacyr Scliar.<br \/>\nCertamente, o exerc\u00edcio a que se prop\u00f4s Scliar \u00e9 prova de sua reconhecida capacidade de transposi\u00e7\u00e3o do real para o imagin\u00e1rio e, ao mesmo tempo, de misturar real e imagin\u00e1rio ao criar uma m\u00e3e doente mental, que se v\u00ea em um hospital psiqui\u00e1trico e passa a falar de seu filho desaparecido e da sua vida para uma capela vazia e \u00e9 objeto de escuta psiqui\u00e1trica e pol\u00edtica, pois a coisa vem de longe, n\u00e3o \u00e9 de agora. Relembro de Max e os Felinos e, certamente, de O Centauro e o Jardim, entre outros. E claro, de suas gostosas e sarc\u00e1sticas cr\u00f4nicas, das segundas feiras, na 2\u00aa p\u00e1gina do caderno Cotidiano, da Folha de S\u00e3o Paulo, do qual sou assinante h\u00e1 d\u00e9cadas.<br \/>\nEncabulado, ligo para a casa de Moacyr Scliar. Era fim de tarde. Ele est\u00e1 em meio a uma entrevista e falamos rapidamente. Digo, de sa\u00edda, a verdade. Sou um mero escrevinhador amador de prov\u00edncia e que tinha sido designado para um bate-papo com ele na Bienal. Ele responde r\u00e1pido e vai retomar a sua entrevista.<br \/>\n\u00c9 cobra criada e uma bienal a mais n\u00e3o far\u00e1 diferen\u00e7a para ele. Para mim, sim, pois estava falando com um ficcionista do tamanho dos pampas com uma experi\u00eancia liter\u00e1ria que faz inveja a qualquer grande escritor latino americano.<br \/>\nTraduzido, entre outras l\u00ednguas, em espanhol, ingl\u00eas, alem\u00e3o, holand\u00eas, sueco, franc\u00eas e hebraico, Moacyr Scliar tem pr\u00eamios que dariam para tornar c\u00e9lebres muitos escritores. Um escritor para cada pr\u00eamio.<br \/>\nQuem tem os pr\u00eamios Joaquim Manoel de Macedo, \u00c9rico Ver\u00edssimo, Cidade de Porto Alegre, Guimar\u00e3es Rosa, Bras\u00edlia, Jaboti, Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Arte, Casa de Las Am\u00e9ricas, em Cuba, Pen Clube do Brasil, Jos\u00e9 Lins do Rego, este da Academia Brasileira de Letras, pode, e tem o direito, de ser consciente de sua capacidade liter\u00e1ria e receber de todo o p\u00fablico brasileiro a consagra\u00e7\u00e3o que merece.<br \/>\nE eu metido com ele. Imagina a minha perturba\u00e7\u00e3o.<br \/>\nResolvo, de forma audaciosa, mandar um livro meu para ele por Sedex e, ap\u00f3s tr\u00eas dias, ligo novamente. Ele ainda n\u00e3o havia recebido o livro. Falei da minha apreens\u00e3o sobre o nosso bate-papo. Moacyr disse que n\u00e3o carecia de eu me preocupar. E eu tremendo de medo. Tudo bem. Chegou a hora.<br \/>\nTrocamos poucos e-mails e estou aqui nesta arena tal qual os crist\u00e3os lutando contra le\u00f5es na Roma antiga. Seja o que Deus quiser.<br \/>\nDirei apenas, o que todos j\u00e1 sabem, Moacyr Jaime Scliar \u00e9 uma das maiores refer\u00eancias da literatura brasileira dos \u00faltimos 30 anos e, certamente, esta \u00e9 a raz\u00e3o b\u00e1sica de sua elei\u00e7\u00e3o para a Academia Brasileira de Letras, em 2003, com 35 votos entre 36 eleitores.<br \/>\nSua hist\u00f3ria pode ser sumariada assim: Seus pais vieram da Besar\u00e1bia para trabalhar em um projeto de coloniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola no interior do Rio Grande do Sul. Ocorre que o projeto j\u00e1 estava no fim e eles mudaram para Porto Alegre onde Moacyr Scliar nasceu no ano em que Vargas, seu conterr\u00e2neo, resolveu criar o Estado Novo, sob a inspira\u00e7\u00e3o do jurista Francisco Campos com toda a roupagem do fascismo que se instalava na Europa e come\u00e7ava a fustigar os judeus e toda a humanidade.<br \/>\nA fam\u00edlia morava no Bairro do Bom Fim, \u00e1rea de imigrantes, e Moacyr, al\u00e9m dos ensinamentos b\u00e1sicos recebidos de sua m\u00e3e, foi estudar, em 1943, na Escola I\u00eddiche, que viria a ser futuramente o Col\u00e9gio Israelita Brasileiro. Em seguida, em 1948, Scliar \u00e9 transferido por sua fam\u00edlia para um educand\u00e1rio cat\u00f3lico, o Col\u00e9gio Ros\u00e1rio. Menino, j\u00e1 era o escritor da fam\u00edlia e do seu bairro, pois tudo colocava no papel, de p\u00e3o que fosse.<br \/>\nEm 1955, entra na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de onde sai formado no ano em que o seu conterr\u00e2neo Jo\u00e3o Goulart comemorava o primeiro ano de governo. Mal sabia ele o que viria depois.<br \/>\nDiploma na m\u00e3o e j\u00e1 com um primeiro livro pronto, \u201cHist\u00f3rias de um M\u00e9dico em Forma\u00e7\u00e3o\u201d, em que conta a sua experi\u00eancia acad\u00eamica.<br \/>\nIngressa no SAMDU, uma institui\u00e7\u00e3o m\u00e9dica p\u00fablica que a Revolu\u00e7\u00e3o resolveu extinguir. Especializa-se em sa\u00fade p\u00fablica com \u00eanfase em medicina sanit\u00e1ria. A sua voca\u00e7\u00e3o de m\u00e9dico, exercida em plenitude, o fez estudar a vida e a obra de Noel Nutels e Oswaldo Cruz. Desse estudo, sa\u00edram dois livros.<br \/>\nA partir de 68, o ano que antecedeu o Ato Institucional n\u00ba 05, surgiu \u201cO Carnaval dos Animais\u201d e n\u00e3o parou at\u00e9 hoje. S\u00e3o quase 70 livros entre romances, novelas, contos, fic\u00e7\u00e3o juvenil e ensaios, expostos nas livrarias da Bienal do Livro do Cear\u00e1 que teve a honra de receb\u00ea-lo sexta \u00e0 noite.<\/p>\n<p>CR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 06\/09\/2004.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LIVROS<br \/>\nMoacyr Scliar na bienal<br \/>\nFui avisado, na semana passada, por uma das coordenadoras desta Bienal, que tinha sido escolhido para dialogar com Moacyr Scliar. Por que eu? Jo\u00e3o, deixe de conversa, ser\u00e1 sexta-feira, dia 3, \u00e0s 19 horas. Um beijo e desligou. 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E claro, de suas gostosas e sarc\u00e1sticas cr\u00f4nicas, das segundas feiras, na 2\u00aa p\u00e1gina do caderno Cotidiano, da Folha de S\u00e3o Paulo, do qual sou assinante h\u00e1 d\u00e9cadas.<br \/>\nEncabulado, ligo para a casa de Moacyr Scliar. Era fim de tarde. Ele est\u00e1 em meio a uma entrevista e falamos rapidamente. Digo, de sa\u00edda, a verdade. Sou um mero escrevinhador amador de prov\u00edncia e que tinha sido designado para um bate-papo com ele na Bienal. Ele responde r\u00e1pido e vai retomar a sua entrevista.<br \/>\n\u00c9 cobra criada e uma bienal a mais n\u00e3o far\u00e1 diferen\u00e7a para ele. Para mim, sim, pois estava falando com um ficcionista do tamanho dos pampas com uma experi\u00eancia liter\u00e1ria que faz inveja a qualquer grande escritor latino americano.<br \/>\nTraduzido, entre outras l\u00ednguas, em espanhol, ingl\u00eas, alem\u00e3o, holand\u00eas, sueco, franc\u00eas e hebraico, Moacyr Scliar tem pr\u00eamios que dariam para tornar c\u00e9lebres muitos escritores. Um escritor para cada pr\u00eamio.<br \/>\nQuem tem os pr\u00eamios Joaquim Manoel de Macedo, \u00c9rico Ver\u00edssimo, Cidade de Porto Alegre, Guimar\u00e3es Rosa, Bras\u00edlia, Jaboti, Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Arte, Casa de Las Am\u00e9ricas, em Cuba, Pen Clube do Brasil, Jos\u00e9 Lins do Rego, este da Academia Brasileira de Letras, pode, e tem o direito, de ser consciente de sua capacidade liter\u00e1ria e receber de todo o p\u00fablico brasileiro a consagra\u00e7\u00e3o que merece.<br \/>\nE eu metido com ele. Imagina a minha perturba\u00e7\u00e3o.<br \/>\nResolvo, de forma audaciosa, mandar um livro meu para ele por Sedex e, ap\u00f3s tr\u00eas dias, ligo novamente. Ele ainda n\u00e3o havia recebido o livro. Falei da minha apreens\u00e3o sobre o nosso bate-papo. Moacyr disse que n\u00e3o carecia de eu me preocupar. E eu tremendo de medo. Tudo bem. Chegou a hora.<br \/>\nTrocamos poucos e-mails e estou aqui nesta arena tal qual os crist\u00e3os lutando contra le\u00f5es na Roma antiga. Seja o que Deus quiser.<br \/>\nDirei apenas, o que todos j\u00e1 sabem, Moacyr Jaime Scliar \u00e9 uma das maiores refer\u00eancias da literatura brasileira dos \u00faltimos 30 anos e, certamente, esta \u00e9 a raz\u00e3o b\u00e1sica de sua elei\u00e7\u00e3o para a Academia Brasileira de Letras, em 2003, com 35 votos entre 36 eleitores.<br \/>\nSua hist\u00f3ria pode ser sumariada assim: Seus pais vieram da Besar\u00e1bia para trabalhar em um projeto de coloniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola no interior do Rio Grande do Sul. Ocorre que o projeto j\u00e1 estava no fim e eles mudaram para Porto Alegre onde Moacyr Scliar nasceu no ano em que Vargas, seu conterr\u00e2neo, resolveu criar o Estado Novo, sob a inspira\u00e7\u00e3o do jurista Francisco Campos com toda a roupagem do fascismo que se instalava na Europa e come\u00e7ava a fustigar os judeus e toda a humanidade.<br \/>\nA fam\u00edlia morava no Bairro do Bom Fim, \u00e1rea de imigrantes, e Moacyr, al\u00e9m dos ensinamentos b\u00e1sicos recebidos de sua m\u00e3e, foi estudar, em 1943, na Escola I\u00eddiche, que viria a ser futuramente o Col\u00e9gio Israelita Brasileiro. Em seguida, em 1948, Scliar \u00e9 transferido por sua fam\u00edlia para um educand\u00e1rio cat\u00f3lico, o Col\u00e9gio Ros\u00e1rio. Menino, j\u00e1 era o escritor da fam\u00edlia e do seu bairro, pois tudo colocava no papel, de p\u00e3o que fosse.<br \/>\nEm 1955, entra na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de onde sai formado no ano em que o seu conterr\u00e2neo Jo\u00e3o Goulart comemorava o primeiro ano de governo. Mal sabia ele o que viria depois.<br \/>\nDiploma na m\u00e3o e j\u00e1 com um primeiro livro pronto, \u201cHist\u00f3rias de um M\u00e9dico em Forma\u00e7\u00e3o\u201d, em que conta a sua experi\u00eancia acad\u00eamica.<br \/>\nIngressa no SAMDU, uma institui\u00e7\u00e3o m\u00e9dica p\u00fablica que a Revolu\u00e7\u00e3o resolveu extinguir. Especializa-se em sa\u00fade p\u00fablica com \u00eanfase em medicina sanit\u00e1ria. A sua voca\u00e7\u00e3o de m\u00e9dico, exercida em plenitude, o fez estudar a vida e a obra de Noel Nutels e Oswaldo Cruz. Desse estudo, sa\u00edram dois livros.<br \/>\nA partir de 68, o ano que antecedeu o Ato Institucional n\u00ba 05, surgiu \u201cO Carnaval dos Animais\u201d e n\u00e3o parou at\u00e9 hoje. S\u00e3o quase 70 livros entre romances, novelas, contos, fic\u00e7\u00e3o juvenil e ensaios, expostos nas livrarias da Bienal do Livro do Cear\u00e1 que teve a honra de receb\u00ea-lo sexta \u00e0 noite.<\/p>\n<p>CR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 06\/09\/2004.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3702","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3702","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3702"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3702\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}