{"id":3714,"date":"2023-12-21T09:10:52","date_gmt":"2023-12-21T12:10:52","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-festa-de-paris\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:52","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:52","slug":"a-festa-de-paris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-festa-de-paris\/","title":{"rendered":"A FESTA DE PARIS"},"content":{"rendered":"<p>Por um desses acasos, na virada do ano, estive em Paris. Relembrei Hemingway no livro \u00b4Paris \u00e9 uma festa\u00b4. Preparado para a noite fria, misturei-me \u00e0 multid\u00e3o na vasta regi\u00e3o que fica entre a Av. Champs-Elys\u00e9es e a Torre Eiffel. T\u00e1xi, nem pensar. O jeito foi mergulhar na esta\u00e7\u00e3o George V e emergir do metr\u00f4 superlotado em Bir Hakeim perto do Trocadero ao p\u00e9 da obra de Gustave Eiffel. Na noite do dia 31 de dezembro os metr\u00f4s de Paris s\u00e3o gratuitos, pois n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de controlar a multid\u00e3o e os t\u00e1xis somem. H\u00e1 policiais de carro, moto, bicicleta e todos ficam atentos, mas distantes.<br \/>\nRestaurantes cheios, gente de todo o mundo e uma turba imensa soltando fogos de artif\u00edcio, bebendo, esquecendo a baixa temperatura que sombreava a noite, mas deixava resplandecer os lampi\u00f5es e a ilumina\u00e7\u00e3o especial que adornava a torre de mais de 300 metros de altura. Depois do jantar gostoso, cheguei \u00e0 base da torre onde camel\u00f4s vendiam brincos e colares fosforescentes, bebidas e comidas. Foi ent\u00e3o que descobri que grande parte do povo na rua parecia de origem mu\u00e7ulmana ou africana. As roupas coloridas, a cor da pele, as fam\u00edlias com muitas crian\u00e7as sendo puxadas por pais severos, o som caracter\u00edstico das suas l\u00ednguas denunciavam a \u00b4invas\u00e3o\u00b4 tur\u00edstica ou permanente t\u00e3o reclamada pelos franceses. \u00b4A Fran\u00e7a \u00e9 dos franceses\u00b4, dizem os xen\u00f3fobos, mas n\u00e3o haver\u00e1 lei, tratado ou for\u00e7a militar que consiga mais desentranhar dali os que chegam ou vieram das antigas col\u00f4nias e se apropriam da metr\u00f3pole, repetindo sem saber, o que dizia o socialista ut\u00f3pico franc\u00eas Proudhon ser a propriedade um roubo.<br \/>\n\u00c0 meia-noite n\u00e3o houve contagem regressiva. Cada qual viu em sua pr\u00f3pria hora chegar o novo ano e os fogos que nem de longe lembravam Copacabana ou qualquer grande cidade brasileira coloriam a noite de forma t\u00edmida, enquanto garrafas vazias de champanha entulhavam os canteiros e at\u00e9 desciam para repouso nas \u00e1guas do Sena. Pouco a pouco, como se houvesse uma chamada geral, as pessoas foram se dispersando. Os mais afoitos e liberados se cumprimentavam, trocavam abra\u00e7os e se beijavam. Era 2003 e o jeito foi pagar mais euros que o devido a um taxista que, usando o seu carro particular, aproveitava a oportunidade, para garantir a compra dos queijos que, certamente, comeria na manh\u00e3 do novo ano que j\u00e1 despontava.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 19\/01\/2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por um desses acasos, na virada do ano, estive em Paris. Relembrei Hemingway no livro \u00b4Paris \u00e9 uma festa\u00b4. Preparado para a noite fria, misturei-me \u00e0 multid\u00e3o na vasta regi\u00e3o que fica entre a Av. Champs-Elys\u00e9es e a Torre Eiffel. T\u00e1xi, nem pensar. O jeito foi mergulhar na esta\u00e7\u00e3o George V e emergir do metr\u00f4 superlotado em Bir Hakeim perto do Trocadero ao p\u00e9 da obra de Gustave Eiffel. Na noite do dia 31 de dezembro os metr\u00f4s de Paris s\u00e3o gratuitos, pois n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de controlar a multid\u00e3o e os t\u00e1xis somem. H\u00e1 policiais de carro, moto, bicicleta e todos ficam atentos, mas distantes.<br \/>\nRestaurantes cheios, gente de todo o mundo e uma turba imensa soltando fogos de artif\u00edcio, bebendo, esquecendo a baixa temperatura que sombreava a noite, mas deixava resplandecer os lampi\u00f5es e a ilumina\u00e7\u00e3o especial que adornava a torre de mais de 300 metros de altura. Depois do jantar gostoso, cheguei \u00e0 base da torre onde camel\u00f4s vendiam brincos e colares fosforescentes, bebidas e comidas. Foi ent\u00e3o que descobri que grande parte do povo na rua parecia de origem mu\u00e7ulmana ou africana. As roupas coloridas, a cor da pele, as fam\u00edlias com muitas crian\u00e7as sendo puxadas por pais severos, o som caracter\u00edstico das suas l\u00ednguas denunciavam a \u00b4invas\u00e3o\u00b4 tur\u00edstica ou permanente t\u00e3o reclamada pelos franceses. \u00b4A Fran\u00e7a \u00e9 dos franceses\u00b4, dizem os xen\u00f3fobos, mas n\u00e3o haver\u00e1 lei, tratado ou for\u00e7a militar que consiga mais desentranhar dali os que chegam ou vieram das antigas col\u00f4nias e se apropriam da metr\u00f3pole, repetindo sem saber, o que dizia o socialista ut\u00f3pico franc\u00eas Proudhon ser a propriedade um roubo.<br \/>\n\u00c0 meia-noite n\u00e3o houve contagem regressiva. Cada qual viu em sua pr\u00f3pria hora chegar o novo ano e os fogos que nem de longe lembravam Copacabana ou qualquer grande cidade brasileira coloriam a noite de forma t\u00edmida, enquanto garrafas vazias de champanha entulhavam os canteiros e at\u00e9 desciam para repouso nas \u00e1guas do Sena. Pouco a pouco, como se houvesse uma chamada geral, as pessoas foram se dispersando. Os mais afoitos e liberados se cumprimentavam, trocavam abra\u00e7os e se beijavam. Era 2003 e o jeito foi pagar mais euros que o devido a um taxista que, usando o seu carro particular, aproveitava a oportunidade, para garantir a compra dos queijos que, certamente, comeria na manh\u00e3 do novo ano que j\u00e1 despontava.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 19\/01\/2003.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3714","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3714","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3714"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3714\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3714"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3714"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3714"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}