{"id":3718,"date":"2023-12-21T09:10:52","date_gmt":"2023-12-21T12:10:52","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/portugal-do-euro\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:52","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:52","slug":"portugal-do-euro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/portugal-do-euro\/","title":{"rendered":"PORTUGAL DO EURO"},"content":{"rendered":"<p>Revi Portugal. Todo viajante leva uma mala com roupas e outra, invis\u00edvel, com a sua hist\u00f3ria, seus preconceitos. N\u00e3o sou diferente. Portugal, para mim, \u00e9 um pa\u00eds ainda a ser descoberto. Por mais que tenha estado l\u00e1, pouco entendo de seu ritmo, da ess\u00eancia do seu povo, da cultura de seus autores consagrados e da que exala de seus sobrados, monumentos, mosteiros e igrejas. N\u00e3o entendo, mas tento.<br \/>\nA primeira vez que estive em Portugal foi em 1965. Nessa \u00e9poca reinava a ditadura de Ant\u00f4nio Salazar e as cidades portuguesas pareciam tristes como o andamento do fado e a roupa preta das mulheres. Nem a l\u00edngua comum permitia ouvir dos portugueses o pulsar real de suas queixas. Ela se fecha em lamentos surdos e pouco se extrai da dor \u2013nostalgia- avassaladora que parece ser a sua ess\u00eancia. Como se a dor alimentasse o semblante quase sempre carregado.<br \/>\nQuando da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, em 1974, estive por l\u00e1 e fiquei alegre por ver em M\u00e1rio Soares um sopro da redescoberta intrauterina de Portugal. Parecia uma catarse coletiva e o pa\u00eds despedia-se da era salazarista \u00e0 procura de uma nova identidade. Voltei outras vezes e vi nas d\u00e9cadas de 80 e 90 que o pa\u00eds tentava esquecer o ultramar perdido e abria-se para a Europa, sendo visto pelos pa\u00edses ricos como novo destino tur\u00edstico, campo crescente para a implanta\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias, at\u00e9 culminar com a sua entrada na Comunidade Europeia em 1986.<br \/>\nForam feitas privatiza\u00e7\u00f5es. As multinacionais baixaram em Portugal e sa\u00edram comprando o que podiam. Grandes grupos portugueses se consolidaram. A\u00ed parece ter ocorrido um erro de perspectiva. Com dinheiro f\u00e1cil para novos neg\u00f3cios o pa\u00eds foi ficando endividado e, hoje, neste inverno de 2003, revi Lisboa como uma cidade mais moderna, com as reformas introduzidas para a realiza\u00e7\u00e3o da Expo-98 com o belo e grandioso Parque da Exposi\u00e7\u00e3o, mas com um certo ar de recess\u00e3o.<br \/>\nA euforia parece ceder, novamente, ao lamento e h\u00e1 at\u00e9 quem diga que o Euro, introduzido em 1999, n\u00e3o tenha feito bem a algumas pessoas que teimam em raciocinar em escudos e contos de r\u00e9is. O choque da europeiza\u00e7\u00e3o de Portugal ainda \u00e9 um fen\u00f4meno novo, mas o fado parece voltar a ter sentido, pois se reacendem os sentimentos de pesar, como se o progresso tivesse minado a alma de quase todos. Os pre\u00e7os subiram e o rico dinheirinho que era mandado de volta para as fam\u00edlias pelos emigrados porteiros, motoristas, governantas, recepcionistas e gar\u00e7ons espalhados por toda a Europa rica n\u00e3o tem mais o encanto de outrora.<br \/>\nDisse, no in\u00edcio, n\u00e3o conhecer bem a ess\u00eancia da alma portuguesa, mas retrato o visto e ouvido nas minhas andan\u00e7as pelo velho Chiado, a Baixa e tantos outros lugares. E o fa\u00e7o com o que tenho de Caminha e Soares no sangue. Gostaria de estar errado.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nEscritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 16\/03\/2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revi Portugal. Todo viajante leva uma mala com roupas e outra, invis\u00edvel, com a sua hist\u00f3ria, seus preconceitos. N\u00e3o sou diferente. Portugal, para mim, \u00e9 um pa\u00eds ainda a ser descoberto. 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Parecia uma catarse coletiva e o pa\u00eds despedia-se da era salazarista \u00e0 procura de uma nova identidade. Voltei outras vezes e vi nas d\u00e9cadas de 80 e 90 que o pa\u00eds tentava esquecer o ultramar perdido e abria-se para a Europa, sendo visto pelos pa\u00edses ricos como novo destino tur\u00edstico, campo crescente para a implanta\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias, at\u00e9 culminar com a sua entrada na Comunidade Europeia em 1986.<br \/>\nForam feitas privatiza\u00e7\u00f5es. As multinacionais baixaram em Portugal e sa\u00edram comprando o que podiam. Grandes grupos portugueses se consolidaram. A\u00ed parece ter ocorrido um erro de perspectiva. Com dinheiro f\u00e1cil para novos neg\u00f3cios o pa\u00eds foi ficando endividado e, hoje, neste inverno de 2003, revi Lisboa como uma cidade mais moderna, com as reformas introduzidas para a realiza\u00e7\u00e3o da Expo-98 com o belo e grandioso Parque da Exposi\u00e7\u00e3o, mas com um certo ar de recess\u00e3o.<br \/>\nA euforia parece ceder, novamente, ao lamento e h\u00e1 at\u00e9 quem diga que o Euro, introduzido em 1999, n\u00e3o tenha feito bem a algumas pessoas que teimam em raciocinar em escudos e contos de r\u00e9is. O choque da europeiza\u00e7\u00e3o de Portugal ainda \u00e9 um fen\u00f4meno novo, mas o fado parece voltar a ter sentido, pois se reacendem os sentimentos de pesar, como se o progresso tivesse minado a alma de quase todos. 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