{"id":3721,"date":"2023-12-21T09:10:52","date_gmt":"2023-12-21T12:10:52","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-primavera-da-america\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:52","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:52","slug":"a-primavera-da-america","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-primavera-da-america\/","title":{"rendered":"A PRIMAVERA DA AM\u00c9RICA"},"content":{"rendered":"<p>Sou uma esp\u00e9cie de peregrino sem caminho preestabelecido. Penso estar aqui e me surpreendo voando. N\u00e3o que voar seja o meu fraco, pois n\u00e3o sou alado e tenho que me render aos avi\u00f5es. Dois voos ap\u00f3s, estava na Am\u00e9rica. Na Am\u00e9rica p\u00f3s-Iraque, nestes feriados da P\u00e1scoa emendados com Tiradentes. Por desligamento, entrei na imigra\u00e7\u00e3o na fila dos americanos. Pedi desculpa e ia saindo. O agente que estava atendendo riu e disse: fique. Mostrei o passaporte e eu fui quem fez perguntas sobre o seu sobrenome n\u00e3o americano grafado no crach\u00e1. Falou-me dos pais imigrantes, carimbou o passaporte e deu votos de boas-vindas. Estava na Am\u00e9rica de Bush. Na terra em que de cada dez carros, pelo menos quatro, portam bandeiras americanas. Onde os pr\u00e9dios p\u00fablicos e privados e as escolas vivem uma febre patri\u00f3tica exacerbada. Paci\u00eancia, as elei\u00e7\u00f5es americanas foram o que foram. Eles s\u00e3o assim, pensam que pensam certo e agem errado, at\u00e9, v\u00e1 l\u00e1, por boa-f\u00e9.<br \/>\nSa\u00ed do aeroporto e me dei conta da primavera que iluminava o sol, mas deixava ainda um friozinho na pele. Peguei a estrada. Tinha milhas e milhas a percorrer e promessas a cumprir antes de dormir, como diria Robert Frost. Duzentos e oitenta milhas depois estava na casa de amigos, por quem o meu cora\u00e7\u00e3o clamava. Casa grande, bonita, quase centen\u00e1ria em uma pequena e nobre alameda de apenas duzentos metros, povoada de \u00e1rvores frondosas que pareciam chorar pelas galhas. No p\u00f3rtico: duas bandeiras. Uma americana, outra brasileira. Ainda bem. Limpei os p\u00e9s e toquei a campainha. Era hora de estar l\u00e1. Sem promessas, mas com a espada da benqueren\u00e7a desembainhada. Falamos tanto, como se houvesse uma guerra ao sil\u00eancio que cercava o medo. Falamos sem peias, expressando tudo. E o passado se fez ali para, mesmo que em v\u00e3o, descobrirmos as origens das feridas sorrateiras a corroer o corpo quando a alma silencia.<br \/>\n\u00c9ramos irm\u00e3os, mesmo que de pa\u00edses diferentes, falando de coisas s\u00e9rias e duras com uma candura impr\u00f3pria a homens maduros. S\u00f3 as \u00e1rvores testemunhavam o nosso entendimento \u00e0 beira da hora da verdade. Ap\u00f3s tudo ter sido dito, passamos a ser tr\u00eas. Achegou-se a irm\u00e3 de sangue, embora prenhe de costumes americanos. Sab\u00edamos que pod\u00edamos escancarar a alma e que ningu\u00e9m estava ali por acaso. Ali fui levado pela linguagem da alma. N\u00e3o tinha nada a dar, mas precisava ir. Era tempo de chegar, da adi\u00e7\u00e3o do olho no olho. Do aperto de m\u00e3o verdadeiro, do conforto m\u00fatuo e da consci\u00eancia de que est\u00e1vamos prontos, mesmo sem saber para que. A vida p\u00f5e \u00e2ncoras em pessoas em portos n\u00e3o escolhidos e vai-se gastando o tempo da ampulheta do destino quando surgem os terremotos. Mas os que se respeitam e creem no que fazem, logo encontram o ch\u00e3o firme e n\u00e3o t\u00eam receio do vazio. H\u00e1 sempre plenitude na racionaliza\u00e7\u00e3o e no emaranhado de sentimentos que teimam em florescer.<br \/>\nFez-se hora de voltar. Nada \u00e9 permanente, a n\u00e3o ser a efemeridade do instante. Tudo fora dito e sab\u00edamos que voltarei qualquer hora dessas, desejando seja novamente primavera e as bandeiras, as duas, ali continuem.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 27\/04\/2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sou uma esp\u00e9cie de peregrino sem caminho preestabelecido. Penso estar aqui e me surpreendo voando. N\u00e3o que voar seja o meu fraco, pois n\u00e3o sou alado e tenho que me render aos avi\u00f5es. Dois voos ap\u00f3s, estava na Am\u00e9rica. Na Am\u00e9rica p\u00f3s-Iraque, nestes feriados da P\u00e1scoa emendados com Tiradentes. Por desligamento, entrei na imigra\u00e7\u00e3o na fila dos americanos. Pedi desculpa e ia saindo. O agente que estava atendendo riu e disse: fique. Mostrei o passaporte e eu fui quem fez perguntas sobre o seu sobrenome n\u00e3o americano grafado no crach\u00e1. Falou-me dos pais imigrantes, carimbou o passaporte e deu votos de boas-vindas. Estava na Am\u00e9rica de Bush. Na terra em que de cada dez carros, pelo menos quatro, portam bandeiras americanas. Onde os pr\u00e9dios p\u00fablicos e privados e as escolas vivem uma febre patri\u00f3tica exacerbada. Paci\u00eancia, as elei\u00e7\u00f5es americanas foram o que foram. Eles s\u00e3o assim, pensam que pensam certo e agem errado, at\u00e9, v\u00e1 l\u00e1, por boa-f\u00e9.<br \/>\nSa\u00ed do aeroporto e me dei conta da primavera que iluminava o sol, mas deixava ainda um friozinho na pele. Peguei a estrada. Tinha milhas e milhas a percorrer e promessas a cumprir antes de dormir, como diria Robert Frost. Duzentos e oitenta milhas depois estava na casa de amigos, por quem o meu cora\u00e7\u00e3o clamava. Casa grande, bonita, quase centen\u00e1ria em uma pequena e nobre alameda de apenas duzentos metros, povoada de \u00e1rvores frondosas que pareciam chorar pelas galhas. No p\u00f3rtico: duas bandeiras. Uma americana, outra brasileira. Ainda bem. Limpei os p\u00e9s e toquei a campainha. Era hora de estar l\u00e1. Sem promessas, mas com a espada da benqueren\u00e7a desembainhada. Falamos tanto, como se houvesse uma guerra ao sil\u00eancio que cercava o medo. Falamos sem peias, expressando tudo. E o passado se fez ali para, mesmo que em v\u00e3o, descobrirmos as origens das feridas sorrateiras a corroer o corpo quando a alma silencia.<br \/>\n\u00c9ramos irm\u00e3os, mesmo que de pa\u00edses diferentes, falando de coisas s\u00e9rias e duras com uma candura impr\u00f3pria a homens maduros. S\u00f3 as \u00e1rvores testemunhavam o nosso entendimento \u00e0 beira da hora da verdade. Ap\u00f3s tudo ter sido dito, passamos a ser tr\u00eas. Achegou-se a irm\u00e3 de sangue, embora prenhe de costumes americanos. Sab\u00edamos que pod\u00edamos escancarar a alma e que ningu\u00e9m estava ali por acaso. Ali fui levado pela linguagem da alma. N\u00e3o tinha nada a dar, mas precisava ir. Era tempo de chegar, da adi\u00e7\u00e3o do olho no olho. Do aperto de m\u00e3o verdadeiro, do conforto m\u00fatuo e da consci\u00eancia de que est\u00e1vamos prontos, mesmo sem saber para que. A vida p\u00f5e \u00e2ncoras em pessoas em portos n\u00e3o escolhidos e vai-se gastando o tempo da ampulheta do destino quando surgem os terremotos. Mas os que se respeitam e creem no que fazem, logo encontram o ch\u00e3o firme e n\u00e3o t\u00eam receio do vazio. H\u00e1 sempre plenitude na racionaliza\u00e7\u00e3o e no emaranhado de sentimentos que teimam em florescer.<br \/>\nFez-se hora de voltar. Nada \u00e9 permanente, a n\u00e3o ser a efemeridade do instante. 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