{"id":3722,"date":"2023-12-21T09:10:52","date_gmt":"2023-12-21T12:10:52","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/as-maes-meninas\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:52","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:52","slug":"as-maes-meninas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/as-maes-meninas\/","title":{"rendered":"AS M\u00c3ES-MENINAS"},"content":{"rendered":"<p>Seria bom que o dia de hoje fosse um dia alegre para todas as m\u00e3es brasileiras. Seria bom que todos os filhos pudessem homenage\u00e1-las e v\u00ea-las felizes. Seria bom que todos n\u00f3s tiv\u00e9ssemos a consci\u00eancia tranquila de que as m\u00e3es s\u00e3o assistidas, respeitadas, amadas e festejadas. Neste Pa\u00eds em que 40 milh\u00f5es de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, a hist\u00f3ria real \u00e9 bem diferente da mostrada nos elaborados comerciais de televis\u00e3o, jornais e emissoras de r\u00e1dio. N\u00e3o haver\u00e1 festa, nem presentes para a maioria das m\u00e3es brasileiras, especialmente as m\u00e3es-meninas. Ser\u00e1 mais um dia de c\u00e3o.<br \/>\nEm qualquer pequena, m\u00e9dia ou grande cidade brasileira voc\u00ea viu, v\u00ea e ver\u00e1, dia e noite, adolescentes gr\u00e1vidas ou jovens m\u00e3es vestidas com andrajos levando crian\u00e7as ao colo ou puxando pela m\u00e3o como aval para mendigar nos sem\u00e1foros, pra\u00e7as, avenidas e portas de templos religiosos. Este \u00e9 um retrato cruel, sem retoques e malsinado de um pa\u00eds que se arvora de ser uma das maiores economias do mundo.<br \/>\nNeste dia das m\u00e3es \u00e9 para essas meninas-m\u00e3es ou m\u00e3es-meninas que a lembran\u00e7a acode. N\u00e3o estudaram, suas fam\u00edlias s\u00e3o desestruturadas, t\u00eam na face a desnutri\u00e7\u00e3o, nos olhos carregam a desilus\u00e3o, no corpo as mazelas, mas n\u00e3o puderam conter o fogo natural da juventude, perdidas na voracidade das noites em que tudo \u00e9 permitido, nada \u00e9 vigiado e o sol custa a nascer.<br \/>\nSem saber nada de nada, estavam gr\u00e1vidas a troco de qualquer coisa e jogadas em um mundo cruel que as discrimina e desampara. O que dizer de tudo isso? O que \u00e9 tudo isso? H\u00e1 dezenas de \u00f3rg\u00e3os de prote\u00e7\u00e3o aos menores. H\u00e1 um Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente e tudo continua na mesma, sem que nenhuma orienta\u00e7\u00e3o seja dada ou provid\u00eancia tomada. N\u00e3o s\u00e3o raros os casos de m\u00e3es que entregam seus filhos por qualquer ninharia e o fazem, quem sabe, como um \u00faltimo ato de amor. Se n\u00e3o podem mant\u00ea-los t\u00eam, pelo menos a esperan\u00e7a ou a ilus\u00e3o de que a pessoa que \u00b4comprou\u00b4 sua crian\u00e7a cuidar\u00e1 dela melhor e a criar\u00e1 \u00b4feito gente\u00b4.<br \/>\nPode ser indelicado falar, no dia de hoje, nesta face cruel que tentamos esquecer ou ignorar. Por outro lado, seria bom que cada pessoa de bem pudesse sair de seus casulos e em meio \u00e0s suas festas pantagru\u00e9licas sentisse um pouco dessa dor e compartilhasse da solu\u00e7\u00e3o com responsabilidade solid\u00e1ria, a partir de engajamentos c\u00edvicos, sem demagogia ou alardes.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nEscritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 11\/05\/2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seria bom que o dia de hoje fosse um dia alegre para todas as m\u00e3es brasileiras. Seria bom que todos os filhos pudessem homenage\u00e1-las e v\u00ea-las felizes. Seria bom que todos n\u00f3s tiv\u00e9ssemos a consci\u00eancia tranquila de que as m\u00e3es s\u00e3o assistidas, respeitadas, amadas e festejadas. Neste Pa\u00eds em que 40 milh\u00f5es de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, a hist\u00f3ria real \u00e9 bem diferente da mostrada nos elaborados comerciais de televis\u00e3o, jornais e emissoras de r\u00e1dio. N\u00e3o haver\u00e1 festa, nem presentes para a maioria das m\u00e3es brasileiras, especialmente as m\u00e3es-meninas. Ser\u00e1 mais um dia de c\u00e3o.<br \/>\nEm qualquer pequena, m\u00e9dia ou grande cidade brasileira voc\u00ea viu, v\u00ea e ver\u00e1, dia e noite, adolescentes gr\u00e1vidas ou jovens m\u00e3es vestidas com andrajos levando crian\u00e7as ao colo ou puxando pela m\u00e3o como aval para mendigar nos sem\u00e1foros, pra\u00e7as, avenidas e portas de templos religiosos. Este \u00e9 um retrato cruel, sem retoques e malsinado de um pa\u00eds que se arvora de ser uma das maiores economias do mundo.<br \/>\nNeste dia das m\u00e3es \u00e9 para essas meninas-m\u00e3es ou m\u00e3es-meninas que a lembran\u00e7a acode. N\u00e3o estudaram, suas fam\u00edlias s\u00e3o desestruturadas, t\u00eam na face a desnutri\u00e7\u00e3o, nos olhos carregam a desilus\u00e3o, no corpo as mazelas, mas n\u00e3o puderam conter o fogo natural da juventude, perdidas na voracidade das noites em que tudo \u00e9 permitido, nada \u00e9 vigiado e o sol custa a nascer.<br \/>\nSem saber nada de nada, estavam gr\u00e1vidas a troco de qualquer coisa e jogadas em um mundo cruel que as discrimina e desampara. O que dizer de tudo isso? O que \u00e9 tudo isso? H\u00e1 dezenas de \u00f3rg\u00e3os de prote\u00e7\u00e3o aos menores. H\u00e1 um Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente e tudo continua na mesma, sem que nenhuma orienta\u00e7\u00e3o seja dada ou provid\u00eancia tomada. N\u00e3o s\u00e3o raros os casos de m\u00e3es que entregam seus filhos por qualquer ninharia e o fazem, quem sabe, como um \u00faltimo ato de amor. Se n\u00e3o podem mant\u00ea-los t\u00eam, pelo menos a esperan\u00e7a ou a ilus\u00e3o de que a pessoa que \u00b4comprou\u00b4 sua crian\u00e7a cuidar\u00e1 dela melhor e a criar\u00e1 \u00b4feito gente\u00b4.<br \/>\nPode ser indelicado falar, no dia de hoje, nesta face cruel que tentamos esquecer ou ignorar. Por outro lado, seria bom que cada pessoa de bem pudesse sair de seus casulos e em meio \u00e0s suas festas pantagru\u00e9licas sentisse um pouco dessa dor e compartilhasse da solu\u00e7\u00e3o com responsabilidade solid\u00e1ria, a partir de engajamentos c\u00edvicos, sem demagogia ou alardes.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nEscritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 11\/05\/2003.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3722","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3722"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3722\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}