{"id":3730,"date":"2023-12-21T09:10:53","date_gmt":"2023-12-21T12:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/os-dias-dos-filhos\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:53","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:53","slug":"os-dias-dos-filhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/os-dias-dos-filhos\/","title":{"rendered":"OS DIAS DOS FILHOS"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 duas datas no ano consagradas aos pais. S\u00e3o festas m\u00f3veis, aos domingos. O segundo domingo de maio, para a m\u00e3e, e o segundo domingo de agosto, para o pai. S\u00e3o feitas aos domingos, quem sabe, para n\u00e3o atrapalhar os dias \u00fateis dos filhos t\u00e3o embricados com as suas vidas. E os outros 363 dias? Todos os outros dias &#8211; e muitas das noites &#8211; s\u00e3o reservados aos filhos. N\u00e3o vai aqui nenhuma queixa ou lamento. Mas, a hist\u00f3ria parece se repetir. Os pais s\u00e3o vistos, via de regra, como aquelas pessoas que cobram, tentam estabelecer limites, obrigam a estudar, verificam os boletins da escola, falam que determinadas amizades n\u00e3o servem e tentam at\u00e9 dar palpite sobre as escolhas para namorar ou casar. Como se ainda valesse&#8230;<br \/>\nOs pais s\u00e3o pessoas mais velhas. Vinte ou trinta anos \u00e9 um tempo imenso para uma crian\u00e7a ou adolescente. Os pais t\u00eam costumes diferentes. E s\u00e3o \u00b4chatos\u00b4, pois t\u00eam de levar, quase sempre \u00b4\u00e0 for\u00e7a\u00b4, os filhos \u00e0 escola, seja puxando pelo bra\u00e7o, no colo, na garupa da bicicleta, no \u00f4nibus, no lombo de um animal, no trem ou carro. Os pais tamb\u00e9m puxam pelo ded\u00e3o do p\u00e9 para que acordem, colocam a pasta na escova de dente, dizem que a roupa n\u00e3o est\u00e1 certa e, cansados, \u00e0 noite, ainda v\u00e3o olhar os deveres de casa e as tarefas extras que a escola manda fazer.<br \/>\nOs pais n\u00e3o devem discutir na frente dos filhos, mas t\u00eam, a todo instante que separar as suas brigas. Os pais podem estar desempregados, sal\u00e1rio atrasado, a empresa falida, mas precisam conseguir dinheiro para a comida, aluguel, conta da luz e da \u00e1gua, presta\u00e7\u00e3o disso ou daquilo. Quando se diz \u00b4os pais\u00b4, estamos fazendo justi\u00e7a a uma rela\u00e7\u00e3o nova entre marido e mulher ou companheiros, pois ambos s\u00e3o provedores. Acabou-se aquela hist\u00f3ria do homem ir \u00e0 luta e a mulher ficar em casa. Hoje, e j\u00e1 faz algum tempo, ambos v\u00e3o \u00e0 guerra e contam o suado dinheirinho para fazer face aos compromissos. \u00c9 claro, h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, mas essas n\u00e3o contam.<br \/>\nTudo isso \u00e9 para dizer: todos os demais dias do ano s\u00e3o dos filhos, essas criaturinhas parecendo \u00b4ter o rei na barriga\u00b4 e, quando crescem um pouco mais, a primeira coisa a dizer \u00e9: \u00b4n\u00e3o pedimos para nascer\u00b4.<br \/>\nNo domingo passado foi o dia do pai. Este ser mais perif\u00e9rico ainda que a m\u00e3e, meio abobalhado ao saber existir um inevit\u00e1vel hiato ou desencontro entre gera\u00e7\u00f5es e as perspectivas pessoais com os filhos amados e pelos quais deu e d\u00e1 tudo de si. Em meio aos caf\u00e9s, almo\u00e7os, lanches e jantares no dia dos pais e das m\u00e3es, surgem figuras novas das fam\u00edlias, as noras e genros, enquanto os netos n\u00e3o entendem bem por que os seus av\u00f3s est\u00e3o ganhando presentes, pois nem pais s\u00e3o. Pois \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 17\/08\/2003<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 duas datas no ano consagradas aos pais. S\u00e3o festas m\u00f3veis, aos domingos. O segundo domingo de maio, para a m\u00e3e, e o segundo domingo de agosto, para o pai. S\u00e3o feitas aos domingos, quem sabe, para n\u00e3o atrapalhar os dias \u00fateis dos filhos t\u00e3o embricados com as suas vidas. E os outros 363 dias? Todos os outros dias &#8211; e muitas das noites &#8211; s\u00e3o reservados aos filhos. N\u00e3o vai aqui nenhuma queixa ou lamento. Mas, a hist\u00f3ria parece se repetir. Os pais s\u00e3o vistos, via de regra, como aquelas pessoas que cobram, tentam estabelecer limites, obrigam a estudar, verificam os boletins da escola, falam que determinadas amizades n\u00e3o servem e tentam at\u00e9 dar palpite sobre as escolhas para namorar ou casar. Como se ainda valesse&#8230;<br \/>\nOs pais s\u00e3o pessoas mais velhas. Vinte ou trinta anos \u00e9 um tempo imenso para uma crian\u00e7a ou adolescente. Os pais t\u00eam costumes diferentes. E s\u00e3o \u00b4chatos\u00b4, pois t\u00eam de levar, quase sempre \u00b4\u00e0 for\u00e7a\u00b4, os filhos \u00e0 escola, seja puxando pelo bra\u00e7o, no colo, na garupa da bicicleta, no \u00f4nibus, no lombo de um animal, no trem ou carro. Os pais tamb\u00e9m puxam pelo ded\u00e3o do p\u00e9 para que acordem, colocam a pasta na escova de dente, dizem que a roupa n\u00e3o est\u00e1 certa e, cansados, \u00e0 noite, ainda v\u00e3o olhar os deveres de casa e as tarefas extras que a escola manda fazer.<br \/>\nOs pais n\u00e3o devem discutir na frente dos filhos, mas t\u00eam, a todo instante que separar as suas brigas. Os pais podem estar desempregados, sal\u00e1rio atrasado, a empresa falida, mas precisam conseguir dinheiro para a comida, aluguel, conta da luz e da \u00e1gua, presta\u00e7\u00e3o disso ou daquilo. Quando se diz \u00b4os pais\u00b4, estamos fazendo justi\u00e7a a uma rela\u00e7\u00e3o nova entre marido e mulher ou companheiros, pois ambos s\u00e3o provedores. Acabou-se aquela hist\u00f3ria do homem ir \u00e0 luta e a mulher ficar em casa. Hoje, e j\u00e1 faz algum tempo, ambos v\u00e3o \u00e0 guerra e contam o suado dinheirinho para fazer face aos compromissos. \u00c9 claro, h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, mas essas n\u00e3o contam.<br \/>\nTudo isso \u00e9 para dizer: todos os demais dias do ano s\u00e3o dos filhos, essas criaturinhas parecendo \u00b4ter o rei na barriga\u00b4 e, quando crescem um pouco mais, a primeira coisa a dizer \u00e9: \u00b4n\u00e3o pedimos para nascer\u00b4.<br \/>\nNo domingo passado foi o dia do pai. Este ser mais perif\u00e9rico ainda que a m\u00e3e, meio abobalhado ao saber existir um inevit\u00e1vel hiato ou desencontro entre gera\u00e7\u00f5es e as perspectivas pessoais com os filhos amados e pelos quais deu e d\u00e1 tudo de si. 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