{"id":3736,"date":"2023-12-21T09:10:53","date_gmt":"2023-12-21T12:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/olhar-matutino-ou-de-como-os-olhos-passeiam\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:53","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:53","slug":"olhar-matutino-ou-de-como-os-olhos-passeiam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/olhar-matutino-ou-de-como-os-olhos-passeiam\/","title":{"rendered":"OLHAR MATUTINO OU DE COMO OS OLHOS PASSEIAM"},"content":{"rendered":"<p>As janelas est\u00e3o orvalhadas. O dia est\u00e1 t\u00edmido e o sol ainda se espregui\u00e7a entre as nuvens que teimam em acobert\u00e1-lo.<br \/>\nA cidade est\u00e1 muda. Os raros not\u00edvagos embebecidos e pouco embevecidos passam com as suas garrafas t\u00e3o vazias quanto a solid\u00e3o que os acompanha. As mo\u00e7as do atacado &#8211; ou seria do varejo &#8211; d\u00e3o as \u00faltimas passadas metidas em saias m\u00ednimas, com seus toscos e cambaios sapatos altos e a pintura desbotada.<br \/>\nUm quitandeiro noturno recolhe a sua mesa e cadeiras de pl\u00e1stico enquanto conversa com desocupados. Boceja, arruma tudo em uma tralha, p\u00f5e as m\u00e3os nos quadris e toca o bolso, talvez assegurando que o minguado dinheirinho est\u00e1 l\u00e1. Uma geladeira usada virou um tren\u00f3, uma esp\u00e9cie de \u00b4rosebud\u00b4 de sua maturidade sem perspectivas.<br \/>\nAqui do lado, na pracinha vazia de almas, p\u00e1ssaros pequenos entoam, em bloco, uma louva\u00e7\u00e3o \u00e0 manh\u00e3, como se as nervuras de nuvens trapaceassem com eles que clamam sem \u00eaxito pelo fulgor do sol.<br \/>\nUm t\u00e1xi branco passa vagarosamente \u00e0 cata de passageiros e dois mototaxistas ficam \u00e0 espreita, como se disputassem o que n\u00e3o vem.<br \/>\nH\u00e1 telhas sujas, cobertas dignas de um pardieiro e os edif\u00edcios altos quedam-se sem luzes aparentes. Do outro lado, o mar faz a sua tarefa cont\u00ednua de ir e vir trazer \u00e1gua salgada, envolta em brancos fil\u00f3s, \u00e0s pedras que impedem sua passagem, mas recebem beijos molhados com a sua frieza estrutural. O mar ainda est\u00e1 gris e s\u00f3 uma bamboleante jangada se aventura nesta manh\u00e3 ainda infantil de um s\u00e1bado que j\u00e1 ouviu o repicar das seis badaladas.<br \/>\nUm homem gordo, de velhas bermudas caqui e camisa rosa, pita um cigarro na sacada de seu pr\u00e9dio. D\u00e1 a \u00faltima baforada, mostra que n\u00e3o tem civilidade e recolhe-se, deixando a porta entreaberta como a esperar a felicidade que talvez persiga.<br \/>\nAqui bem perto tem gente que amo. Um pouco mais na frente, tamb\u00e9m. E andando-se na mesma trilha, outras amadas est\u00e3o a dormir ou voaram de seus leitos para paragens v\u00e1rias. \u00c9 assim. Minha for\u00e7a de amar tem tristezas, mas o sol est\u00e1 perdendo a timidez e eu revolvo e renovo sentimentos.<br \/>\nMeus olhos voltam-se para onde estou e ap\u00f3s escrever o ponto, farei gestos mec\u00e2nicos obedecendo a um ritual tecnol\u00f3gico que incorporei e desliga-me da m\u00e1quina que, paradoxalmente, d\u00e1 sentido humano ao letramento produzido. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nDa Academia Fortalezense de Letras<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 19\/10\/2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As janelas est\u00e3o orvalhadas. O dia est\u00e1 t\u00edmido e o sol ainda se espregui\u00e7a entre as nuvens que teimam em acobert\u00e1-lo.<br \/>\nA cidade est\u00e1 muda. Os raros not\u00edvagos embebecidos e pouco embevecidos passam com as suas garrafas t\u00e3o vazias quanto a solid\u00e3o que os acompanha. As mo\u00e7as do atacado &#8211; ou seria do varejo &#8211; d\u00e3o as \u00faltimas passadas metidas em saias m\u00ednimas, com seus toscos e cambaios sapatos altos e a pintura desbotada.<br \/>\nUm quitandeiro noturno recolhe a sua mesa e cadeiras de pl\u00e1stico enquanto conversa com desocupados. Boceja, arruma tudo em uma tralha, p\u00f5e as m\u00e3os nos quadris e toca o bolso, talvez assegurando que o minguado dinheirinho est\u00e1 l\u00e1. Uma geladeira usada virou um tren\u00f3, uma esp\u00e9cie de \u00b4rosebud\u00b4 de sua maturidade sem perspectivas.<br \/>\nAqui do lado, na pracinha vazia de almas, p\u00e1ssaros pequenos entoam, em bloco, uma louva\u00e7\u00e3o \u00e0 manh\u00e3, como se as nervuras de nuvens trapaceassem com eles que clamam sem \u00eaxito pelo fulgor do sol.<br \/>\nUm t\u00e1xi branco passa vagarosamente \u00e0 cata de passageiros e dois mototaxistas ficam \u00e0 espreita, como se disputassem o que n\u00e3o vem.<br \/>\nH\u00e1 telhas sujas, cobertas dignas de um pardieiro e os edif\u00edcios altos quedam-se sem luzes aparentes. Do outro lado, o mar faz a sua tarefa cont\u00ednua de ir e vir trazer \u00e1gua salgada, envolta em brancos fil\u00f3s, \u00e0s pedras que impedem sua passagem, mas recebem beijos molhados com a sua frieza estrutural. O mar ainda est\u00e1 gris e s\u00f3 uma bamboleante jangada se aventura nesta manh\u00e3 ainda infantil de um s\u00e1bado que j\u00e1 ouviu o repicar das seis badaladas.<br \/>\nUm homem gordo, de velhas bermudas caqui e camisa rosa, pita um cigarro na sacada de seu pr\u00e9dio. D\u00e1 a \u00faltima baforada, mostra que n\u00e3o tem civilidade e recolhe-se, deixando a porta entreaberta como a esperar a felicidade que talvez persiga.<br \/>\nAqui bem perto tem gente que amo. Um pouco mais na frente, tamb\u00e9m. E andando-se na mesma trilha, outras amadas est\u00e3o a dormir ou voaram de seus leitos para paragens v\u00e1rias. \u00c9 assim. Minha for\u00e7a de amar tem tristezas, mas o sol est\u00e1 perdendo a timidez e eu revolvo e renovo sentimentos.<br \/>\nMeus olhos voltam-se para onde estou e ap\u00f3s escrever o ponto, farei gestos mec\u00e2nicos obedecendo a um ritual tecnol\u00f3gico que incorporei e desliga-me da m\u00e1quina que, paradoxalmente, d\u00e1 sentido humano ao letramento produzido. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nDa Academia Fortalezense de Letras<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 19\/10\/2003.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3736","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3736","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3736"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3736\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3736"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3736"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3736"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}